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23/07
2015

Frei Mauro e Carlos Alberto Nonino - Entrevista Revista Revide

Frei Mauro e Carlos Alberto Nonino - Entrevista Revista Revide - 10.07.2015


Promotor vocacional


Encantado com sua vocação religiosa, frei Mauro anuncia a fraternidade franciscana com o fervor do evangelho restaurado e modernas ferramentas de comunicação para difundir a palavra de Deus

Desde muito jovem, Mauro Luiz Oliveira se dedicava arte de se comunicar e já se encantava com os ritos religiosos. Espelhou-se na vida de São Francisco de Assis para trilhar o caminho da fé, determinado aos 16 anos. Em 1978, quando decidiu ser padre, já compartilhava os preceitos da comunidade franciscana. Desenvolto e encantado pela palavra de Deus, há sete anos está frente da paróquia Santo Antonio Maria Claret e Frei Galvão, no Ipiranga, em Ribeirão Preto.

Comunicador nato, frei Mauro usa com maestria as modernas ferramentas disponíveis para propagar seus ensinamentos. Além das missas, das reuniões e dos encontros, mantém canais abertos com os fiéis, principalmente os jovens, por meio das mídias sociais. Ao lado do amigo, o jornalista Carlos Alberto Nonino, e de outros voluntários, desenvolve um trabalho diferenciado na Pastoral da Comunicação da Arquidiocese (Pascom). Um dos principais objetivos do grupo é aprimorar o dom da comunicação interna e externa entre os membros da igreja.

Fraterno, aberto, amigo e preocupado com o outro, frei Mauro desenvolve diversos trabalhos sociais junto comunidade. A doação de alimentos a quase 200 famílias cadastradas, duas vezes por semana, a distribuição de cestas básicas, o atendimento odontológico, até festa de 15 anos comunitária estão entre as principais ações desenvolvidas na paróquia. Além disso, por meio da Pastoral da Criança, a Paróquia pesa e acompanha o desenvolvimento de quase 300 crianças e distribui mais de mil pílulas de frei Galvão por mês.

No espaço, que ocupa aproximadamente uma quadra, estão a capela, o templo novo, um anfiteatro, salão de eventos, todos climatizados, ambulatório odontológico, cozinha, entre outras dependências. Para manter esta estrutura, com custo mensal estimado em R$ 10 mil, frei Mauro conta com doações e o dízimo pago pelos fiéis. Dedicado a cada detalhe de sua paróquia, o orquidário merece atenção especial. um espaço para descontração e um local para preservar as flores que ganha e enfeitam os altares das igrejas. Elementos da personalidade do frade são revelados nesta entrevista concedida a Nonino e acompanhada pela jornalista Rose Rubini.

Nonino: Como surgiu a vocação para a comunicação?

Frei Mauro: Eu digo que já nasci com o desejo de comunicar e desde muito pequeno já tinha esta vocação. Filho de imigrantes nordestinos, morava em Olímpia e trabalhava na área rural, mas já na adolescência sonhava em ser um comunicador. Em 1978, acompanhei as perdas que a igreja comunicava. A morte do papa Paulo VI, a nomeação do papa João Paulo I, o papa sorriso, e depois de 30 e poucos dias, uma nova eleição, desta vez a de João Paulo II. Na época, eu com 16 anos, já me questionava sobre o tipo de comunicador que queria ser. O padre da nossa paróquia era franciscano e foi em um velório, ao ver as canções entoadas por eles, senti um clamor muito coerente com a vida simples que minha família levava. Achei aquilo tudo tão encantador, tão envolvente, que percebi ali o caminho que queria trilhar na minha vida.

Nonino: Por que ser franciscano?

Frei Mauro: Depois deste episódio, surgiu em mim três questionamentos: é isso que eu quero, procuro e desejo? Coincidência ou não, foram estes os três verbos pronunciados por São Francisco de Assis, quando sentiu o encontro com o Senhor.

Nonino: Foi o papa João Paulo II que mais estimulou os jovens a seguirem a vida religiosa?

Frei Mauro: Até a chegada dele, parecia que os papas não eram tão próximos. A relação era muito distante da realidade da comunidade. A partir dele e do seu gesto simples de se inclinar e beijar o solo nos locais por onde passava, muita coisa mudou. Ele era encantador, estimulante e, desta forma, ele se tornou um grande promotor vocacional, sendo próximo, carismático. Ninguém pensava que era possível eleger um papa de outro país, mas ele era polonês e foi escolhido. Na minha inocência de adolescente, achava até que papa não morria, de tão encantador, persuasivo e carismático que ele era.

Nonino: Onde o senhor estudou?

Frei Mauro: Passei pelo seminário Santo Antônio, em Agudos, fundado por franciscanos da Ordem dos Frades Menores (OFM). Lá, fiquei por cinco anos. Depois, fui para Franca estudar filosofia, fiz o noviciado em Catalão, Goiás, e teologia em Ribeirão Preto, além de alguns estudos a pedido da ordem.


Nonino: Onde começou o trabalho de sacerdote?

Frei Mauro: Primeiro, fui morar em Araçatuba, onde fiquei por um ano. Depois, em 2004, fiz um curso em Roma, na Itália, onde fiquei dois meses para uma experiência missionária. Depois de dois meses voltei ao Brasil, desta vez com o desafio de terminar a construção de um convento na zona rural de Franca e de ser formador e guardião. Fui ordenado sacerdote no distrito de Ribeiro dos Santos, em Olímpia.

Nonino: Que tipo de trabalho a ordem franciscana realiza?

Frei Mauro: Franciscano tem que anunciar a fraternidade e este é o primeiro anúncio: o convívio. Antes, esta era a identificação e, depois, tornou-se a identidade e, com isso, aquele meu desejo ardente de ser um comunicador, na verdade, era uma anunciação da fraternidade universal, não só com os irmãos, mas com a natureza e com toda a comunidade. uma restauração e não se restabelece sem viver o evangelho. Francisco é restaurador!

Nonino: Quais são as atividades desenvolvidas pela Ordem Franciscana na região?

Frei Mauro: São três expressões fortes: a social, a missionária e a religiosa. No caso de Ribeirão Preto, através do social contamos com apoio e atuação de médicos, psicólogos e dentistas. Na paróquia, temos também a doação de alimentos diários s famílias cadastradas e, para isso, contamos com estrutura, desde um caminhão baú que busca os alimentos junto a parceiros como o Banco de Alimentos, aos funcionários e voluntários, que no atendimento não perguntam a religião, mas veem a necessidade. Também oferecemos aulas de dança, o Programa de Integração Comunitária (PIC), o Amor Exigente, além de uma parceria com a Casa de Recuperação, onde, por meio do dízimo, contribuímos, mensalmente, e temos vagas disponíveis para o tratamento de dependentes químicos. No ponto religioso, abrimos as portas da igreja todos os dias para as celebrações eucarísticas e, na parte missionária, realizamos reuniões, avaliações, planejamento de pastorais, movimentos, entre outras atividades.

Nonino: Por que a divisão dos padres em diferentes ordens?

Frei Mauro: São expressões, são opções feitas de acordo com a identificação pessoal de cada um. Na verdade, não é bem uma divisão e sim uma riqueza de possibilidades de seguir a vida e as lições deixadas por alguns santos, como os agostinianos que seguem Santo Agostinho, os franciscanos, inspirados por São Francisco de Assis, os monges. O papa Francisco é jesuíta. São expressões muito fortes de santos corajosos que oferecem um propósito de vida. São alternativas para o jovem, mas a vocação primeira é ser consagrado. Para São Francisco, o principal começo é sempre o irmão menor, depois ele decide se vai ser padre, se vai trabalhar em outras vocações. Em nossa fraternidade, temos franciscanos que, além da vida religiosa, atuam em outras áreas da sociedade. Temos professor na USP e psicólogo franciscanos.

Nonino: Qual a diferença entre padre diocesano e padre secular?

Frei Mauro: O padre secular é o mesmo que diocesano: possui a vocação e a missão de representar Cristo. Além disso, segue as orientações do bispo no local onde ele está. Já o padre religioso, ou regular, obedece ao superior dos frades. Neste caso, de tempo em tempo, temos uma reunião, chamada capítulo, onde há uma transição. Por isso, eu digo que nós estamos aqui e não somos daqui. Estamos por um tempo em determinada paróquia, s vezes por três, seis ou nove anos. Eu estou nesta paróquia há sete anos.

Nonino: Quando esta igreja no Ipiranga passou a ser ocupada pelos franciscanos?

Frei Mauro: Até 1967, a pequena capela de Santo Antonio Maria Claret era ocupada por claretianos. Naquele ano, o bispo deu esta paróquia para os franciscanos. Com a canonização de Santo Antônio de SantAna Galvão, o frei Galvão, os frades foram até o bispo dom Joviano de Lima Júnior e solicitaram que a igreja adotasse o primeiro santo brasileiro como o seu segundo padroeiro. O pedido foi acolhido. Desta forma, a paróquia foi enriquecida até em algumas festividades, como nos aniversários de Santo Antonio Maria Claret, no dia 24 de outubro, e no dia seguinte, 25, que é o de frei Galvão. Porém, temos muito cuidado e damos a devida importância para os dois.

Nonino: Como é feita a distribuição das pílulas de frei Galvão?

Frei Mauro: Nós optamos em fazer uma celebração mensal, que acontece no dia 25, com a devoção e a distribuição das pílulas, porém quem quiser vir paróquia buscar, em qualquer outra data, pode vir que será atendido.

Nonino: Recentemente, a igreja teve a visita de um bom ladrão?

Frei Mauro: Este é um fato curioso porque antes deixávamos as portas literalmente abertas durante todo o dia. No início de janeiro, um ladrão entrou no templo e levou o sacrário (onde se guarda a hóstia). Nós ficamos muito tristes e assustados com a violência e resolvemos então reformar a igreja para mudar o ambiente. Quando mexemos no forro, percebemos que o madeiramento do telhado estava infestado de cupim, representando um risco de queda. Por isso, brincamos com o fato, dizendo que, se o ladrão não tivesse entrado na igreja, não teríamos detectado o problema a tempo de resolvê-lo, sem maiores riscos.

Nonino: Como define o termo igreja de portas abertas, usado pelo papa Francisco?

Frei Mauro: A igreja precisa ficar de portas abertas, mas não é só abrir a porta do templo; é preciso que outra porta se abra. As pessoas precisam se sentir acolhidas para que se convençam e venham até a igreja.

Nonino: O senhor também celebra missa pela Rede Vida?

Frei Mauro: Como um amante da comunicação, eu invisto nisso. Tudo começou em 1997, a partir de uma visita feita ao Santuário da Vida, em São José do Rio Preto, sede da emissora Rede Vida. Lá, fui convidado a presidir a missa e o pessoal gostou da minha atuação. Com isso, fui convidado a continuar como membro da equipe celebrante. A Rede Vida é um canal de católicos, que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) acolheu com a condição de terem missa transmitida ao vivo e seguirem a orientação litúrgica. Até hoje, uma vez por mês, celebro missa na Rede Vida.

Nonino: Existe um padre mais querido que outro?

Frei Mauro: Não, o que existe é a identificação, o carisma de cada sacerdote com sua comunidade. A eucaristia e o mistério são tão profundos que você se entrega, envolve, sente tocado, e, sem dúvida, mesmo uma missa tendo 30 minutos, as pessoas se identificam com a palavra, com a maneira com que o padre celebra a missa. Porém, os mistérios ou os ritos sacramentais são os mesmos.

Nonino: Como é o seu trabalho na Pastoral da Comunicação (Pascom)?

Frei Mauro: uma instituição muito bonita, da qual você também faz parte. Primeiro ela reflete e, em seguida, está disponível para oferecer orientação, porque não basta ir ao templo se você não consegue ter uma comunicação clara. Isso envolve desde técnicas para usar microfone, a postura correta até a forma como nos comunicaremos com a comunidade. Para isso, contamos com apoio voluntário de profissionais da área ou não para que expressem a igreja viva. São pessoas dispostas a dar vida palavra. Basta querer aprender. Eu mesmo sou um aprendiz; trabalho em rádio e tevê e sempre estou aprendendo. Agora, nós precisamos usar melhor as ferramentas que temos nossa disposição. Investir e ser um comunicador melhor.

Nonino: O que mudou nas celebrações desde o Concílio do Vaticano II (CVII)?

Frei Mauro: O Concílio aconteceu em quatro sessões, reunindo mais de dois mil representantes da Igreja, convocados de todo o planeta, para discutir e regulamentar vários temas da Igreja Católica. Iniciado em 1962, terminou no dia 8 de dezembro de 1965, já sob o papado de Paulo VI. O resultado foi a elaboração de quatro constituições, nove decretos e três declarações preparadas e aprovadas pelo Concílio. Lá se vão 50 anos e muita gente ainda estuda o Concílio, que orienta para que sejamos elementos do Vaticano II, que anunciemos as alegrias e as esperanças. Que tenhamos uma liturgia viva, que as pessoas cantem missa e não cantem na missa. Não basta cantar, é preciso encantar.

Nonino: Por que o Concílio é ainda tão atual?

Frei Mauro: Porque seu fundamento é o evangelho e a palavra de Deus nunca envelhece, é sempre inesperada, atual. O Vaticano II trouxe a coragem de uma igreja que fala em conforto, a missão a que vem, que vai ao encontro, que seja ecumênica (universal), com capacidade de dialogar com outras religiões. O papa Francisco diz exatamente isso: uma igreja em saída, samaritana, que vai em busca do outro. Ele fala de uma igreja acolhedora e o Concílio dá destaque a isso.


Nonino: Onde a igreja precisa ter a coragem para mudar?

Frei Mauro: Entre os jovens, sem dúvida. As diretrizes gerais lançadas de 2015 a 2019 mostram isso. preciso ter atuação de novos pensadores no ambiente universitário, nas famílias, no mundo da política, pois o nosso silêncio está incomodando mais do que o grito daquele que não faz.

Nonino: O papa Francisco valoriza a comunicação?

Frei Mauro: Sem dúvida e ele é um comunicador por excelência. Primeiro, a nomeação dele, o nome escolhido por ele, e agora a maneira como se apresenta. Francisco é a restauração. Porém. ressalto que o papa Joseph Aloisius Ratzinger, Bento XVI, teve uma atitude corajosa, profética, da renúncia, sem fazer alarde, meditando, como ainda o faz.

Nonino: O que se pode esperar da igreja após o papa Francisco?

Frei Mauro: Já estamos vivenciando. Prepare-se para o que vai acontecer ainda. Teremos um novo sínodo (assembleia) das famílias, que vai chegar ao fim do ano. Vamos ter um ano santo, extraordinário, um ano da misericórdia. Já temos um documento preparado sobre isso e não tem quem não fique tocado com o seu conteúdo. Ele começa em dezembro e vai até novembro de 2016. Começa pela Catedral e depois em todas as igrejas. O que esperar? Uma igreja mais acolhedora, mais próxima, uma igreja que anuncia a misericórdia, mas não de qualquer jeito, com alegria, porque falar de misericórdia sem alegria é regressão teórica. A incursão leva prática.

Nonino: Ainda existe a divisão entre igreja conservadora e progressista?

Frei Mauro: Creio que a igreja seja deste jeito porque tem algo que precisa ser conservado, que é essencial. Porém, ainda existe um pouco de confusão sobre o tema. Eu digo sempre que a igreja conservadora ou a progressista é aquela que conserva os carismas, ou seja, os dons. Sem dúvida, existem pessoas que necessitam de um ambiente diferenciado para concentrar e depois contemplar. A igreja deve ser unida, não ser igual e respeitar o plural.

Nonino: A Igreja Católica não pode ser partidária, mas deve ser política?

Frei Mauro: Isso é indispensável! Se ela não está sendo, está deixando o seu ser e o ser é político. fazer a diferença, sair do estado de apatia. Claro, sem causar indignação, mas com reflexão, pés no chão e mãos no céu. Não só um e nem o outro, pois esta unidade que cria a transformação.

Nonino: Já foi convidado a ser candidato em alguma eleição?

Frei Mauro: Sim, várias vezes, não aqui em Ribeirão Preto; em outras regiões. Porém, a gente pode fazer a diferença de outra maneira.

DEDICAO INTEGRAL

Meu amigo. Foi assim que frei Mauro me saudou, antes de iniciarmos esta entrevista. Eu respondo da mesma forma. Porém, independentemente da amizade e de compartilharmos as atividades desenvolvidas na Pastoral da Comunicação, eu manifesto minha profunda admiração pelo trabalho realizado por ele, seja pelo aspecto da assistência social, executada ativamente na sua paróquia, pela evangelização de qualidade ou pela capacidade invejável de comunicação, da qual se vale para tornar ainda mais profunda sua ação junto aos paroquianos e população católica em geral. Ele se dedica integralmente a tudo a que se propõe fazer. As missas que celebra, incluindo as transmitidas pela Rede Viva, são uma prova disso. Ele é um exemplo para toda Igreja Católica e, principalmente, é a demonstração de que a Igreja precisa se comunicar com afinco e eficiência para atingir e sempre ampliar o seu público, levando a mensagem de Deus por todos os meios que possa ter disposição.
Carlos Alberto Nonino, jornalista

Texto: Rose Rubini
Fotos: Julio Sian

Fonte: Revista Revide -http://www.revide.com.br/editorias/entrevista/promotor-vocacional/


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