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Palavra do Arcebispo

07/03
2017

Homilia

Homilia de Dom Moacir Silva na missa da Quarta-feira de Cinzas

Quarta-feira de Cinzas - Catedral Metropolitana de São Sebastião - 1 de março de 2017


Homilia de Dom Moacir Silva na missa da Quarta-feira de Cinzas
Catedral Metropolitana de São Sebastião
1 de março de 2017

Estamos iniciando o Tempo da Quaresma. Um tempo de graça e bênção; de escuta mais profunda da Palavra de Deus; um tempo de conversão e de mudança de vida. O Papa Francisco inicia sua mensagem para esta quaresma, dizendo: “A Quaresma é um novo começo, uma estrada que leva a um destino seguro: a Páscoa de Ressurreição, a vitória de Cristo sobre a morte. E este tempo não cessa de nos dirigir um forte convite à conversão: o cristão é chamado a voltar para Deus “de todo o coração” (Jl 2, 12), não se contentando com uma vida medíocre, mas crescendo na amizade do Senhor”.

A espiritualidade quaresmal é caracterizada por uma atenta e prolongada escuta da Palavra de Deus. Ela ilumina a vida e chama para a conversão, infundindo em nós a confiança na misericórdia de Deus.

Na primeira leitura, o profeta Joel faz um forte apelo para a conversão: “Agora, diz o Senhor, voltai para mim com todo o vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos; rasgai o coração, e não as vestes; e voltai para o Senhor, vosso Deus”.

Não bastam ritos penitenciais exteriores. É necessário que, desde o mais íntimo do nosso ser, nos voltemos para Deus, que é benigno, compassivo, paciente e cheio de misericórdia. Na oração sobre as oferendas, desta Missa, nós suplicamos a Deus a graça de dominar nossos maus desejos pelas obras de penitência e caridade. Confiando em sua misericórdia podemos estar certos de seu perdão.

Na segunda leitura, São Paulo nos exorta fortemente: “Em nome de Cristo, nós vos suplicamos: deixai-vos reconciliar com Deus”. ”É agora o momento favorável, é agora o dia da salvação”, é o tempo especial de graça e de salvação; não podemos desperdiçar este tempo de graça, ou como diz São Paulo “receber em vão a graça de Deus”. Eis aqui um dos grandes apelos do tempo da Quaresma. 

No Evangelho, somos convidados por Jesus Cristo a assumir, com fidelidade, as obras de justiça para com o outro, por meio da esmola (caridade, partilha dos bens); assumir as obras de justiça para com Deus por meio da oração; assumir as obras de justiça para consigo mesmo por meio do jejum.

Meditando este Evangelho Bento XVI nos ensinou que através das práticas tradicionais do jejum, da esmola e da oração, expressões do empenho de conversão, a Quaresma educa para viver de modo cada vez mais radical o amor de Cristo. O Jejum, que pode ter diversas motivações, adquire para o cristão um significado profundamente religioso: tornando mais pobre a nossa mesa aprendemos a superar o egoísmo para viver na lógica da doação e do amor; suportando as privações de algumas coisas – e não só do supérfluo – aprendemos a desviar o olhar do nosso “eu”, para descobrir Alguém ao nosso lado e reconhecer Deus nos rostos de tantos irmãos nossos. Para o cristão o jejum nada tem de intimista, mas abre em maior medida para Deus e para as necessidades dos homens, e faz com que o amor a Deus seja também amor ao próximo (cf. Mc 12, 31).

No nosso caminho encontramo-nos perante a tentação do ter, da avidez do dinheiro, que corrompe a primazia de Deus na nossa vida. A cobiça da posse provoca violência, prevaricação e morte: por isso a Igreja, especialmente no tempo quaresmal, convida à prática da esmola, ou seja, à capacidade de partilha. A idolatria dos bens, ao contrário, não só afasta do outro, mas despoja o homem, torna-o infeliz, engana-o, ilude-o sem realizar aquilo que promete, porque coloca as coisas materiais no lugar de Deus, única fonte da vida. A prática da esmola é um chamado à primazia de Deus e à atenção para com o próximo, para redescobrir o nosso Pai bom e receber a sua misericórdia.

Em todo o período quaresmal, a Igreja oferece-nos com particular abundância a Palavra de Deus. Meditando-a e interiorizando-a para vivê-la quotidianamente, aprendemos uma forma preciosa e insubstituível de oração, porque a escuta atenta de Deus, que continua a falar ao nosso coração, alimenta o caminho de fé que iniciamos no dia do Batismo. A oração permite-nos também adquirir uma nova concepção do tempo: de fato, sem a perspectiva da eternidade e da transcendência, ele rítmica simplesmente os nossos passos rumo a um horizonte que não tem futuro. Ao contrário, na oração encontramos tempo para Deus, para conhecer que “as suas palavras não passarão” (cf. Mc 13, 31), para entrar naquela comunhão íntima com Ele “que ninguém nos poderá tirar” (cf. Jo 16, 22) e que nos abre à esperança que não decepciona, à vida eterna.

Estamos, queridos irmãos e queridas irmãs, com toda a Igreja no Brasil, abrindo a CF-2017, que tem como tema: “Fraternidade: Biomas brasileiros e defesa da vida” e o lema: “Cultivar e guardar a criação” (Gn 2,15). 

O Papa Francisco, em sua Mensagem para esta Campanha da Fraternidade, nos disse: “O criador foi pródigo com o Brasil. Concedeu-lhe uma diversidade de biomas que lhe confere extraordinária beleza. Mas, infelizmente, os sinais da agressão à criação e da degradação da natureza também estão presentes. Entre vocês, a Igreja tem sido uma voz profética no respeito e no cuidado com o meio ambiente e com os pobres. Não apenas tem chamado a atenção para os desafios e problemas ecológicos, como tem apontado suas causas e, principalmente, tem apontado caminhos para a sua superação. Entre tantas iniciativas e ações, me apraz recordar que já em 1979, a Campanha da Fraternidade que teve por tema “Por um mundo mais humano” assumiu o lema: “Preserve o que é de todos”. Assim, já naquele ano a CNBB apresentava à sociedade brasileira sua preocupação com as questões ambientais e com o comportamento humano com relação aos dons da criação.

O objetivo da Campanha da Fraternidade deste ano, inspirado na passagem do Livro do Gênesis (cf. Gn 2,15), é cuidar da criação, de modo especial dos biomas brasileiros, dons de Deus, e promover relações fraternas com a vida e a cultura dos povos, à luz do Evangelho. Como “não podemos deixar de considerar os efeitos da degradação ambiental, do modelo atual de desenvolvimento e da cultura do descarte sobre a vida das pessoas” (LS, 43), esta Campanha convida a contemplar, admirar, agradecer e respeitar a diversidade natural que se manifesta nos diversos biomas do Brasil – um verdadeiro dom de Deus - através da promoção de relações respeitosas com a vida e a cultura dos povos que neles vivem. 

Com a celebração da Quarta-feira de Cinzas, meus irmãos e minhas irmãs, a Igreja inicia o ciclo pascal que tem como tempo preparatório a Quaresma. Somos convidados a entrar na dinâmica pascal de passagem da morte para a vida, das trevas para a luz, do egoísmo e do pecado para a vitória da ressurreição. Por isso, pedimos na primeira oração desta missa para que a penitência quaresmal nos fortaleça contra o espírito do mal.

Através do gesto ritual de imposição das cinzas, que vamos realizar, reconhecemos nossa fragilidade, nossa condição de pecadores, mas também nossa disposição de caminhar para o dia maior da ressurreição, vivendo a misericórdia de Deus, à semelhança do Cristo obediente, morto e ressuscitado. 

Dom Moacir Silva
Arcebispo Metropolitano


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