Comentando a Palavra de Deus - 30º Domingo do Tempo Comum

Estamos no último domingo do mês de outubro, que também encerra o Sínodo dos Bispos sobre os Jovens! A Igreja propõe aos fiéis uma reflexão sobre sua tarefa missionária. Ela nos fala da missão evangelizadora ad intra e ad extra, isto é, seus destinatários são aqueles que, junto a nós, deixaram de participar ou que se afastaram da Igreja, bem como a missão que acontece em regiões onde existem grandes desafios devido à pobreza, à perseguição ou mesmo indiferença aos valores do evangelho.

A liturgia do domingo passado apresentou a passagem dos filhos de Zebedeu. Jesus alertou os discípulos sobre a tentação da ambição, dentro da comunidade, e sobre as dificuldades próprias da missão que ele veio cumprir.

Continuamos hoje a leitura do Evangelho de Marcos, com a cura do cego Bartimeu, que nos apresenta um modelo de fé. Neste modelo, vemos uma ligação entre o cego e a libertação de todo o povo de Deus, a partir da vida de nossas Comunidades!

Podemos verificar que o conhecimento da Palavra de Deus e das promessas que alimentam a vida do povo de Israel leva o cego a reconhecer Jesus. Este fato deve também nos mover a buscar não só conhecer a palavra de Deus, mas a fazer dela um alimento para a fé, para podermos reconhecer a presença e a ação de Jesus hoje, entre os homens e na comunidade dos fiéis.

Podemos verificar que a situação adversa do cego não foi empecilho para seu crescimento na fé. A “desgraça” na qual estava mergulhado é a condição para que alimente a esperança e cresça na fé. A fé, portanto, nos é mostrada como capaz de trazer respostas ou desprezada pelo mundo.

A liturgia nos apresenta o conteúdo de fé em Jesus como Messias. Facilmente, chamamos Jesus, o Cristo (=messias), porém, cabe perguntar se, na prática, aceitamos o fato de que a fé em Jesus inclui esta restauração da vida do povo, como a cura do cego, a saúde ao doente, a liberdade ao oprimido...

A cura do cego mostra a estreita relação entre a fé por ele professada e a história e as esperanças da comunidade, povo de Deus. Isto permite perguntar se nossa fé também está fundada na esperança e na vida do povo, se nossa fé compartilha as esperanças da comunidade, da Igreja.

Deus nos chama e reúne para agradecermos o seu amor, manifestado na pessoa de Jesus, que cura nossas cegueiras. O Senhor vence as trevas que impedem nossa caminhada rumo à sociedade fraterna e solidária.

O sonho de Deus deve ser o nosso também: uma sociedade sem cegos e coxos mendigando. Somos chamados a extirpar a cegueira do povo para que não se torne vítima de interesses escusos. Jesus, sacerdote por excelência, participa de nossa condição, santificando-a.

A partir de Jesus, que caminha para Jerusalém com a missão de restaurar o povo de Deus, somos desafiados a promover a ação restauradora e redentora de Deus e a vencer a acomodação da comunidade, preocupada em repetir ritos ou salvaguardar as leis.

Bartimeu nos mostra que a fé cristã não combina com acomodação e individualismo. A fé cristã é essencialmente comunitária. Ela nasce da ação de Deus em favor da vida de seu povo. O lugar do cristão é o caminho da comunidade dos fiéis conduzida por Jesus, lugar onde a presença de Jesus continua a agir, transformando sinais de morte e descrença em sinais de vida e de fé e de esperança real.

A Palavra de Deus, neste domingo, pelo relato da cura do cego, nos mostra a fé em Deus como abertura a um projeto, um plano, uma ação de Deus, presente na história. O fiel reconhece, em Jesus, Deus que o acolhe. Pela fé em Jesus, percebe-se alguém participante e testemunha da ação de Deus, agindo na comunidade em favor da vida do povo.

A liturgia da Palavra indica renovação e vida nova não somente para as pessoas, mas também para as estruturas e a sociedade.

“O cego jogou o manto, deu um pulo e foi até Jesus”. O manto era o único bem de Bartimeu. O cego se aquecia com o manto, dormia sobre ele e fazia de seu único bem material, o manto, uma espécie de guia. É interessante observar que ao ouvir Jesus chamá-lo e deferir-lhe acolhida e atenção, o cego já não necessita mais o manto, dá um pulo não no escuro, mas em direção de Jesus, que doravante será seu guia, seu tudo, especialmente sua liberdade! E nós? Ainda continuamos presos aos nossos mantos, nossas falsas seguranças, ou já encontramos Jesus, nosso único bem necessário para ser felizes e livres de verdade?

A liberdade é o bem maior de cada cristão. Ninguém tem o direito de obrigar, nem de seduzir com promessas particulares a ninguém. Mas todos terão o direito de reivindicar seus direitos e tudo aquilo que lhes foi proposto. Não aceitaremos nada imposto. Não sejamos promíscuos, individualistas, passivos e nem nos deixemos subestimar. Utilizemos da liberdade que Jesus nos oferece para nos valorizar. Não nos coloquemos à venda. Saibamos confiar em quem realmente deseja servir. Pois “Quem não vive para servir, não serve para viver...”.

Desejando-lhes muita luz e bênçãos, com ternura e gratidão, meu abraço amigo e fiel!

Pe. Gilberto Kasper

(Ler Jr 31,7-9; Sl 125(126); Hb 5,1-6 e Mc 10,46-52)

Fontes: Liturgia Diária da Paulus de Outubro de 2018, pp. 92-94 e Roteiros Homiléticos da CNBB do tempo Comum de Outubro de 2018, pp.77-82.