Comentando a Palavra de Deus - Quarto Domingo do Advento

No último domingo do Advento, olhamos para a figura de Maria que é plenamente a Virgem do Advento. Ela é a bendita entre as mulheres, é a cheia de graça, a serva do Senhor, a nova mulher. Ela carrega no ventre o Bendito, o Esperado das nações. É a filha de Sião que representa o antigo e o novo Israel. O seu sim na anunciação se converte em sim da nova aliança. Maria resume em si as esperanças de seu povo. Hoje, esperança da Igreja.

A assembleia de fé, reunida neste domingo, é convocada a escutar e a acolher a boa nova anunciada, na certeza da fidelidade de Deus que cumpre suas promessas de salvação para o seu povo.

Exultemos de alegria como João Batista e, inspirados pelo Espírito, a exemplo de Isabel, proclamemos que é Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor prometeu: Deus virá morar no meio de nós.

Graças ao sim de Maria, a Comunidade de Fé se reúne para celebrar a Eucaristia, memorial da paixão, morte e ressurreição do Senhor. De modo muito especial nesta liturgia, acompanhemos os passos da mãe de Jesus: ela, a bendita entre as mulheres, se dirige solidária e apressadamente a Isabel para saudá-la e auxiliá-la.

Aquele que aguardamos e nos santifica vem até nós e nos traz a paz. Maria soube acolhê-lo em seu seio e o ofertou à humanidade para que esta se alegre com o dom da salvação.

Há valores que brotam do que é considerado pequeno e insignificante aos olhos da sociedade. A solidariedade leva alegria e esperança aos necessitados. Aprendemos com Jesus a realizar a vontade do Pai.

Apresentemos a Deus o sacrifício de obediência e amor que Cristo ofereceu uma vez por todas. Tornemo-nos nós também uma agradável oferenda viva e, a exemplo de Maria, estejamos disponíveis para levar Cristo aos outros.

Deus manifesta a plenitude da vida e da salvação no meio dos pobres e excluídos, como Maria, Isabel, Zacarias, João, que exultam de alegria. Ele visita o seu povo e faz resplandecer a luz para toda a humanidade, através do Messias Salvador que há de nascer da pequena Belém.

Jesus vem para realizar a vontade do Pai até a oferta total da vida. A disposição em doar-se pela nossa salvação e santificação é apelo para uma adesão profunda ao seu plano de amor. A resposta à gratuidade da salvação deve ser manifestada, através de nossa entrega amorosa: Estamos aqui para fazer a vossa vontade.

O nascimento de Jesus se aproxima e a figura de Maria, sua mãe, é ressaltada, pois ela encarnou a espera e a fé de Isabel. Maria confiou plenamente no Senhor ao dizer: “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). A sua docilidade, em acolher a bondade de Deus, faz ressoar como um eco a atitude do Filho Jesus ao entrar na história humana: “Eis que venho para fazer a tua vontade”.

Maria manifestou a fé na disponibilidade para o Senhor, no serviço pleno ao Filho de Deus e à sua obra redentora, na solicitude maternal com toda a humanidade como demonstrou, através da visita à sua prima Isabel. A sua fé foi crescendo, progressivamente, com o decorrer dos acontecimentos da salvação que ela “guardava em seu coração” (Lc 2,51). Por isso, a Lumen Gentium, n. 58 afirma que “Maria avançou pelo caminho da fé”.

A exemplo de Jesus, façamos da nossa vida uma oferta agradável a Deus que se oferece sem reservas.

Maria dirigiu-se apressadamente à região montanhosa da Judeia. Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou sua prima Isabel. O encontro destas duas mulheres sempre me encanta ao mesmo tempo em que fico intrigado com a expressão “apressadamente”. Dá a impressão de que Maria se apressou em fugir das más línguas da pequena cidade de Nazaré. Ainda hoje, quando a filha da vizinha engravida do namorado, “fica mal falada”. Geralmente os bons cumpridores dos preceitos de nossas Comunidades, como também muitos de nós, clérigos, discriminamos tais pessoas, e depois, chamamos a menina de “mãe solteira”. Nunca ouvi ninguém chamar uma mãe, de “mãe casada”. À parte da Teologia Moral, “mãe é mãe, e pronto!”. Imaginemos a situação de Maria, em seu tempo, numa minúscula e escrupulosa cidade, Nazaré: grávida sem antes ter-se casado com José. Do ponto de vista humano, ela poderia ter fugido para a casa de sua prima, a fim de ficar longe de qualquer comentário maldoso. Isso me parece muito comum e normal.

Por outro lado, também do ponto de vista humano, ela poderia ter ficado em Nazaré, de pernas para o alto, nariz empinado, afirmando ser a Mulher mais importante da face da terra, uma vez escolhido o seu útero, para tornar-se o “porta-jóias do Salvador”. Poderia existir Mulher mais importante do que a Mãe do próprio Deus feito Menino?

Ainda, ela poderia ter calado, disfarçado a gravidez, guardando só para si mesma, a gravidez de Deus! Geralmente é esta a escolha de nossa sociedade. De alguns anos para cá, a maioria das crianças, afirma-se, nascem de sete meses. Será mesmo? Não estaríamos escondendo os dois primeiros meses de gestação? E a correria para casar, disfarçadamente, de branco? Guardamos somente para nós mesmos, a presença amorosa de Deus em nossa vida. Engessados, tímidos, envergonhados ou até mesmo ignorantes, não declaramos nossa “gravidez divina” à sociedade oca e vazia de um Deus louco de amor pela criatura humana. O Sínodo dos Bispos, sobre a Nova evangelização para manifestar nossa fé ao mundo, espera dos cristãos, justamente o que Maria fez: “levar Jesus, ainda nas entranhas da intimidade pessoal, a todos que encontramos pela frente!”, sem vergonha e timidez, mas ousados e corajosos. Trata-se da Fé, recebida como dom, anunciada como conduta, e vivida como valor essencial!

Já do ponto de vista teológico, Maria torna-se a primeira missionária. Segundo São Paulo VI, “A estrela da Evangelização”, porque não  guarda para si o fruto de seu ventre, Jesus, mas o leva adiante, chegando à região montanhosa de Judá. Põe-se a serviço da esterilidade e velhice. Sim, porque soube que sua prima já estava no sexto mês de gravidez, justamente aquela que era considerada estéril e já de idade avançada. Maria torna-se também, modelo de Fé, confiando que o Senhor pode tudo; até mesmo produzir vida da esterilidade e velhice. Quantas vezes nos sentimos estéreis e velhos, cansados e desanimados diante dos desafios da vida: confiemos, de que para Deus, nada é impossível!

As duas crianças pulam de alegria no ventre de suas mães. Oxalá, também nós sintamos Jesus pular de alegria em nossa intimidade, em nossas relações e saudações, que esperam de nós um pouco mais de humanidade, dignidade e divindade neste Natal, que já aponta em nossa vida cristã!

Desejando-lhes muitas bênçãos, com ternura e gratidão, o abraço sempre amigo e fiel,
 

Pe. Gilberto Kasper
 

(Ler Mq 5,1-4; Sl 79(80); Hb 10,5-10 e Lc 1,39-45).
Fontes: Liturgia Diária da Paulus de Dezembro de 2018, pp. 73-76 e Roteiros Homiléticos da CNBB do Tempo do Advento (Dezembro de 2018), pp. 25-27.