Comentando a Palavra de Deus - Oitavo Domingo do Tempo Comum

Na assembleia dominical, durante a celebração da Eucaristia, memorial da vitória da Vida sobre a morte, reconhecemos em Cristo a árvore boa que nos dá os melhores frutos de salvação. Hoje o Senhor nos motiva a nos empenharmos cada vez mais em sua obra, de modo que nosso falar e agir sejam de discípulos que buscam ser iguais ao seu Mestre. Ele nos ensine a ver com seus olhos nossas fragilidades e a externar as coisas boas do nosso coração.

Este domingo encerra a primeira parte do Tempo Comum, neste ano C. Esse primeiro conjunto de celebrações nos colocou à escuta da Palavra e do ministério de Jesus, como discípulos que se preparam à missão. A esperança é ideia central na liturgia deste domingo, esperança de que nossas obras demonstrem as motivações de nosso coração. Daí ser o verde a cor litúrgica.

Por meio de exemplos tirados da roça, o autor do Livro do Eclesiástico mostra como se pode conhecer o interior de uma pessoa por aquilo que ela fala. Ainda que as palavras possam enganar, as ações (os frutos) não enganam. Portanto, o melhor modo de conhecer uma pessoa é ver a correspondência entre o que diz e o que faz.

Com os diversos ditos do Evangelho de Lucas de hoje, Jesus dirige a seus discípulos várias advertências: não se pode guiar os outros se não se consegue guiar a si mesmo (caso do cego); antes de julgar os outros, olhar para os próprios defeitos (cisco no olho); a prática concreta revela o que a pessoa é (caso da árvore). Numa palavra, Jesus quer chamar a atenção para o cuidado que se deve ter antes de julgar ou condenar uma pessoa.

Paulo aos Coríntios proclama a vitória final da vida, até mesmo a própria morte. A fé na ressurreição nos leva a viver, desde agora, a vida nova. A morte foi vencida porque o pecado, causador da morte, foi destruído por Cristo ressuscitado.

A ideia principal deste conjunto de leituras é a revelação do coração por meio das obras e das palavras. Para os dias de hoje, cabem perguntas muito simples: Qual a impressão causada por nossas ações, nossas palavras, nosso jeito de ser e de nos relacionarmos? Será que a fé – sentida, experimentada e celebrada – fala por meio de nossas palavras? É comum ouvirmos que o mistério não precisa ser explicado porque fala por si mesmo. Também nossas ações são mistagógicas, porque falam por si mesmas, e falam do que está em nosso coração.

Hoje, percebemos uma grande dificuldade no que concerne no comprometimento da religiosidade com a prática. Ganham força estilos e práticas religiosas circunscritas ao eu, frutos do individualismo que adoece nossa sociedade. Encontro-me com Jesus, sinto-me restaurado e recebido por ele, minha vida prospera, e tudo parece ir bem. Mas não é aí que Jesus enxergou o ponto de chegada. Na verdade, é este o ponto de partida. O encontro verdadeiro com Jesus tem apenas uma consequência possível: o impulso ao outro, à vivencia do amor, à prática do Evangelho.

Ao instituir o amor como a marca de seus discípulos, Jesus não faz uma escolha dentre tantas outras possíveis, mas reconhece ser o amor a única resposta possível diante do Pai. Se pensamos de acordo com a liturgia de hoje, ações misericordiosas revelam um coração misericordioso e ações justas dão a conhecer a justiça do coração. Um ser alegre transmite a felicidade que está no interior enquanto a gratidão mostra o otimismo que está no pensamento. Mas só a vivência do amor revela quem é discípulo de Jesus, isso porque o amor segundo o modelo de Jesus – de serviço e doação – reúne todas as virtudes imagináveis: misericórdia, justiça, compaixão, sensibilidade, alegria, disposição, fé, esperança e tantas outras.

Desejando-lhes muitas bênçãos, com ternura e gratidão, meu abraço,


Pe. Gilberto Kasper

Ler: Eclo 27,5-8; Sl 91(92); 1 Cor 15,54-58 e Lc 6,39-45.
Fontes: Liturgia Diária da Paulus de Março de 2019, pp. 20-22 e Roteiros Homiléticos da CNBB do tempo Comum (Março de 2019), pp. 28-31.