Comentando a Palavra de Deus: 27º Domingo do Tempo Comum

“Somos servos inúteis; fizemos o que
devíamos fazer” (Lc 17,10b).

É Cristo que nos chama. É nossa fé que responde e nos move ao encontro com Ele e com os irmãos.

Somos, mais uma vez, convidados a tomar parte na Ceia do Senhor. Buscando nosso aperfeiçoamento, somos chamados a encontrar, no Pão da vida eterna, força e alimento para nossa vida de fé. Na escuta da Palavra de Deus, confiamos a Ele nossas aflições e dificuldades, na certeza de sua presença junto a nós.

Estamos iniciando o mês de outubro, Mês Missionário e também dedicado a Nossa Senhora e à recitação do Rosário. O testemunho de fé de Maria, junto à cruz, nos mostra o real valor da fé para aquele que crê. Sua esperança nos mostra o verdadeiro significado da espera e da confiança naquele que nos chama à vida em plenitude.

Reunimo-nos para reavivar em nós a chama do amor e da fé operante e transformadora, que nos compromete com o projeto de Jesus. O olhar da fé nos mostra o rosto sofrido de homens e mulheres desorientados pelas injustiças e necessidades do serviço e da missão da Igreja.

As leituras nos revelam que o justo vive pela fé. Fortalecidos por ela, não  nos envergonhamos do evangelho e conseguimos cumprir com humildade e gratuidade o serviço ao reino que Jesus nos pede.

O primeiro passo para a superação da violência é acabar com a impunidade e a injustiça. Somos motivados pelo evangelho a pedir ao Senhor que nos ajude a cultivar nossa fé, a fim de sermos generosos em benefício da comunidade. O autor da segunda carta de São Paulo a Timóteo nos convida a não ter vergonha de viver e proclamar a boa-nova de Jesus.

A eucaristia que celebramos adquire sentido e plenitude pela fé com que fazemos nossa ação de graças. A fé permite acolher o dom da libertação que Cristo nos oferece.

Os ensinamentos que da Palavra de Deus recebemos, neste domingo, devem ser levados e considerados com máxima atenção.  Uma vez mais Jesus fala da fé a seus discípulos, de sua importância, mas também e principalmente da forma como devemos tratá-la em nossa vida.

A fé não é um conjunto de verdades abstratas em que devemos simplesmente acreditar, com “olhos fechados”. A fé é, antes de tudo, uma atitude fundamental diante de Deus e das situações da vida e da história.

Para falarmos sobre a fé, tem um significado particular o célebre texto de Habacuc (primeira leitura), que apresenta a fé como resposta misteriosa e, no entanto, a única em que se pode confiar perante as injustiças e as violências do mundo, assim como face ao aparente silêncio de Deus. Só quem continua a ter fé pode viver e esperar, ao passo que quem não tem confiança nem retidão cai na ruína.

No Evangelho de Lucas, a fé, antes de ser uma palavra de Jesus, é um pedido explícito apresentado pelos apóstolos. E o pedido é dirigido ao Senhor, título solene atribuído a Jesus ressuscitado e que Lucas aplica com antecedência a Jesus pré-pascal. Os Apóstolos pedem, por isso, ao Senhor que lhes aumente a fé, sem a qual não estão em condições de seguir o Mestre e de cumprir os seus preceitos. Aqui não se trata, porém, de aumentar a fé, mas de começar de verdade a crer, de não se limitar à fé genérica e ineficaz, mas de confiar em Deus de uma forma total e incondicional. Então de verdade, tudo será possível.

Também a segunda leitura convida a tornar a fé operativa, reanimando o dom de Deus recebido, dando testemunho corajoso do Senhor.

Recebemos de Deus a fé como dom, mas como lidamos com ela? Exigindo o agir de Deus em nossas dificuldades? Esperando ações concretas de Deus em nosso meio?

“Somos servos inúteis; fizemos o que devemos fazer”. Somos chamados a viver a plenitude do Reino, no entanto, queremos, muitas vezes, nos satisfazer com a mediocridade de grandes e visíveis ações. O chamado de Jesus é para que saibamos encontrar força na graça, dom de Deus, mas muito além disso para buscarmos viver de forma a cooperar com Deus na construção do Reino de Amor.

Recebemos hoje, portanto, uma mensagem para valorizar a fé. Mas nossa fé não é uma espécie de fundo de garantia para que Deus nos atenda. Assim como ele não precisa prestar contas, também não é forçado pela nossa fé. Nossa fé é necessária para nós mesmos, para ficarmos firmes na adesão a Deus em Jesus Cristo. Deus mesmo, porém, é soberano, e soberanamente nos dá mais do que ousamos pedir.

Costumo pensar que no dia do nosso Batismo recebemos, como dom precioso, a fé na medida em que precisamos. Comparo-a a um anel de brilhantes, que o noivo oferece à noiva, para selar o compromisso, a aliança e a fidelidade, convidando-a ao sacramento do Matrimônio. No evento do pedido da moça em casamento, momento do noivado, o rapaz não leva o anel sem um estojo aveludado invólucro em um lindo papel de presentes. A moça recebe o anel de brilhantes, mas fica tão encantada com o invólucro, que nem se dá o trabalho de puxar a fitinha. Guarda o presente na última gaveta de seu criado mudo, para que ninguém lhe tome o anel. Assim, também nós, fazemos com a fé recebida no Batismo. Então nossa oração deveria ser “Senhor, ajudai-me a cultivar e a manifestar em atitudes concretas, minha fé. Que todos, vendo-a possam encontrar-se convosco!” Descubramos o dia de nosso Batismo e o celebremos, testemunhando nossa fé ao mundo, sem vergonha e sem medo. Sejamos corajosos, a fim de que nossa fé transforme nosso mundo. Não esqueçamos que o Reino de Deus é um Reino de Justiça. Todos os batizados são responsáveis por um Reino de amor, justiça, verdade, liberdade e de paz. Brilhe nossa fé ao mundo decaído, como brilha um anel de brilhantes no dedo da noiva, comprometida com seu noivo, na aliança e fidelidade!

Sejam todos muito abençoados, sentindo-se também missionários. Com ternura e gratidão, meu abraço fiel,
 

Pe. Gilberto Kasper
 

(Ler Hab 1,2-3; 2,2-4; Sl 94(95); 2Tm 1,6-8.13-14 e Lc 17,5-10).
Fontes: Liturgia Diária da Paulus de Outubro de 2019, pp. 32-35 e Roteiros Homiléticos da CNBB do Tempo Comum II (Outubro de 2019), pp. 37-40.