Igreja celebra a III Jornada Mundial dos Pobres

O primeiro ponto a ser colocado é que não existe hoje nenhuma parcela da população que sofre mais negligência por parte da sociedade e poder público do que as pessoas em situação de rua. Por diversas vezes recebemos ligações da população ou de autoridades para que possamos fazer uma abordagem para tirar a pessoa do local onde está. Quando a abordagem não surte o efeito esperado, que é tirar a pessoa, começam as acusações: “mas está sujo, fedido, esta emporcalhando a rua”. Na realidade não querem ajudar, mas verem-se livre do problema. É a famosa higienização. Dizem que tecnicamente é errado dizer “ morador de rua” pergunta que não cala é: Onde ele mora?  

Neste ano a Campanha da Fraternidade refletiu sobre políticas públicas e o que denunciamos é um sistema que não vale; porque exclui e reproduz nos filhos a exclusão dos pais. Não queremos que os filhos dos presidiários de hoje sejam os presidiários do amanhã. Não queremos que os filhos dos que hoje estão na rua sejam as futuras pessoas em situação de rua.

Como a maioria deles não possuem documentos, eles não existem enquanto cidadãos, são invisíveis. Por isto afirmamos que a primeira coisa que estas pessoas perdem é a dignidade humana, perdem a autoestima e a vontade de viver e lutar. Isto porque são tratadas como ninguém. 

Na mensagem do Papa Francisco para a III Jornada Mundial dos Pobres, 17 de novembro de 2019, o lema é: “A esperança dos pobres jamais se frustrará” e em determinado trecho o santo Padre diz: “Quantas vezes vemos os pobres nas lixeiras a catar o descarte e o supérfluo, a fim de encontrar algo para se alimentar ou vestir! Tendo-se tornado, eles próprios, parte duma lixeira humana, são tratados como lixo, sem que isto provoque qualquer sentido de culpa em quantos são cúmplices deste escândalo. Aos pobres, frequentemente considerados parasitas da sociedade, não se lhes perdoa sequer a sua pobreza. (...) os pobres não são números, que invocamos para nos vangloriar de obras e projetos. Os pobres são pessoas a quem devemos encontrar: são jovens e idosos sozinhos que se hão de convidar a entrar em casa para partilhar a refeição; homens, mulheres e crianças que esperam uma palavra amiga. Os pobres nos salvam, porque nos permitem encontrar o rosto de Jesus Cristo”.

Fazendo um trocadilho com as palavras do Papa Francisco lembro-me da Regra de vida de nossa Comunidade que diz ser necessário enxergar o rosto de Cristo no pobre e aí eu pergunto, o que é mais difícil: Eu enxergar Cristo no pobre ou o pobre enxergar Cristo em mim? Confesso que a segunda alternativa é a mais difícil!
 
Diácono Francisco Ferreira Alves Neto
Comunidade Missionária Divina Misericórdia