Comentando a Palavra de Deus - Terceiro Domingo da Quaresma

"Na verdade, sois, Senhor, o salvador do mundo.
Senhor, dai-me água viva a fim de eu não ter sede!"(Jo 4,42.15).

Na caminhada rumo à Páscoa do Senhor, chegamos ao Terceiro Domingo da Quaresma. Um domingo marcadamente batismal. Pela escuta da Palavra de Deus, somos convidados a dar um passo novo na fé que recebemos no Batismo.

Sabemos o dia em que fomos batizados? O nome de quem nos batizou? Temos convivido com nossos padrinhos de Batismo? Celebramos apenas o dia de nosso nascimento, cuja data se encontra nos documentos que nos identificam como cidadãos de uma sociedade? Certamente a maioria comemora seu aniversário natalício com bolos, churrascos, "parabéns", recepções, enfim. Mas e o aniversário batismal é igualmente celebrado? Gosto de pensar, sem pré-julgar, que fica difícil comemorar, celebrar uma data que nem lembramos. E como ficam então os compromissos batismais? Quem não sabe o dia de seu Batismo, certamente não o celebra e não comemorando-o também não o assume, pelo menos conscientemente. Talvez haja um compromisso inconsciente ou meramente preceitual, o que empobrece nossa participação na adoção filial que acontece, quando mergulhados no útero da Igreja, passamos a ser herdeiros de Deus e de tudo que é d'Ele, principalmente integrando Sua grande família: a Família de Deus! Que tipo de filhos nos sentimos nesta família de Deus, a Igreja de Jesus Cristo?

A água, princípio de vida, é presença marcante na liturgia quaresmal. Celebrar a eucaristia é aproximar-se de Jesus, dom do Pai e fonte de água viva para a vida eterna. Vamos beber do poço que é o próprio Cristo, para que nos sustente na busca da vida plena. Somos convidados a não fechar o coração, mas ouvir a voz do Senhor, que se oferece como água viva para nossa existência. Junto com a samaritana, queremos nos aproximar do poço onde Jesus nos espera. A água é fundamental para que haja vida; comecemos a valorizá-la mais. A humanidade tem sede de Jesus. Cristo morreu por todos, estabelecendo a paz da humanidade com Deus.

Na celebração deste Terceiro Domingo da Quaresma, o Pai nos oferece o dom da água viva e nos convida a aderir pessoal e comunitariamente a Jesus, o Messias enviado de Deus. Jesus transforma as circunstâncias simples e comuns da vida, como o buscar água num poço, em momentos especiais, de graça e de salvação. Ele é a água viva para sede mais ardente que todos sentimos, essa sede que atinge a raiz mais profunda de cada um de nós. Como batizados, nos vemos refletidos no drama da anônima samaritana. Muitas vezes, também nós carregamos relacionamentos feridos, sedentos de verdade e de autenticidade. Tão sedentos ficamos que, clamando por água, reclamamos ou duvidamos da presença de Deus, a exemplo dos israelitas na travessia do deserto.

Quaresma é, para nós batizados, um tempo oportuno para sentarmos junto a tantos “poços” onde, corações inquietos e necessitados, bebemos da água, até nos saciarmos de tanta sede de vida nova. Quaresma é tempo propício para o diálogo calmo e sem preconceitos. Compartilhar a água que sacia verdadeiramente, vivifica e transforma. É a oportunidade para abandonar os “cântaros” inúteis e encher os espaços vazios da vida com novas atitudes de fraternidade e solidariedade, especialmente no que tange ao cuidado com a vida, como dom e compromisso.

Desejando a todos muitas bênçãos, com ternura e gratidão, nosso abraço amigo,


Pe. Gilberto Kasper

(Ler Ex 17,3-7; Sl 94(95); Rm 5,1-2.5-8 e Jo 4,5-42).

Fontes: Liturgia Diária da Paulus de Março de 2020, pp. 53-57 e Roteiros Homiléticos da CNBB da Quaresma (Março de 2020), pp. 27-33.