Formação e vida comunitária em tempo de pandemia no Canadá

Saudações a todos, de maneira particular ao nosso arcebispo Dom Moacir Silva e a todos os meus irmãos no sacerdócio, paz e proteção a todos. Quero através deste texto apresentar a realidade que estamos vivenciando e vos apresentar a minha experiência, na outra extremidade da América. Desde 21 de junho de 2018 realizo os estudos em Montreal, Canadá, no Instituto de Formação Humana Integral de Montreal, que tem como objetivo ajudar a pessoa humana a se apropriar de suas forças vitais humanas e desenvolvê-las para enfrentar os desafios do mundo, das relações e da própria vida, no que diz respeito às nossas emoções, das quais o amor é o motor principal que nos põe diante da representação da realidade, fazendo-nos agir mediante nossas iniciativas, mantendo especialmente uma consciência social abrangente e eficaz diante das diversas situações difíceis que encontramos no mundo atual e tendo como referência a pessoa humana na sua totalidade e dignidade.

Quarentena: No dia 12 de março foi sugerido a todos os profissionais e estudantes do Instituto, através da conferência de Marie-Marcelle Desmarais, diretora do Instituto, de entrarmos em quarentena voluntária, pois recentemente algumas pessoas tinham chegado de viagem passando por outros países já atingidos por um alto número de contaminação do coronavírus. Outra referência foi uma carta que a diretora recebeu do reitor da Universidade de Harvard, que orientava alunos e professores sobre a pandemia para se anteciparem antes mesmo de qualquer atitude do governo dos Estados Unidos, pedindo a todos para se isolarem e se protegerem, bem como continuar os estudos através da internet, mantendo assim a continuidade da formação a distância. Logo, a orientação de Marie-Marcelle apoiou-se nesse mesmo pensamento, a princípio nos fez um convite de nos colocarmos em quarentena, para protegermos a nossa própria vida e também a dos outros, mas pedindo ao mesmo tempo que nós nos engajássemos em um projeto coletivo de urgência, para a partir das nossas residências pudéssemos tomar atitudes concretas para proteger a vida visando um planejamento para enfrentar o período de quarentena, evitando assim sair da residência para não contrair o novo coronavírus (Covid-19), quer pelo contato físico e social, quer através de outras formas. E desde então, nos assegurou que o Instituto já estava tomando providências para que pudéssemos continuar a nossa formação à distância, pela internet, com o uso dos aplicativos Skype, WhatsApp, E-mail e  Zoom, que tornaram-se nossas ferramentas de comunicação e de continuidade da  formação humana e integral.  

Comunidade: Resido em uma comunidade da Ordem dos Freis Hospitaleiros de São João de Deus, na qual residem 3 freis canadenses, sendo um deles padre, de idades de 78, 86 e 89 anos, bem como com outros estudantes padres da África: Ruanda, Congo e Senegal, de idades de 37, 55 e 62 anos. E nossa atitude foi seguir as orientações do governo do Canadá, especialmente do Primeiro Ministro da Província de Québec, François Légault, que todos os dias nos orienta juntamente com sua equipe na tomada de medidas que nos ajudam a nos proteger e nos assegurar, tendo em conta a realidade da saúde, mas bem como a realidade econômica nesse período. A humanidade, a simplicidade e sobretudo a forma de liderar de Legault nos transmite segurança e cuidados, pois seu olhar é bem abrangente e toca a cada setor e a cada pessoa, pois seu convite é de sermos solidários nesse momento, especialmente aos desfavorecidos e as pessoas que estão na faixa de risco, de forma bem explícita os idosos.

Das orientações que nos ajudam a proteger a vida são: evitar tocar os olhos, boca e o nariz com as mãos; manter a higiene pessoal, especialmente lavando bem as mãos regularmente e também estando mais vigilantes com a limpeza em casa, de forma atenta nas maçanetas das portas; quando espirrar usar lenço de papel ou o braço evitando a propagação do espirro; não reutilizar o lenço de papel, assim que usar deve-se jogá-lo no lixo e em seguida lavar bem as mãos; respeitar o distanciamento social, o contato físico, evitando reuniões de pessoas, guardando a distância de 2 metros, mesmo dentro de casa; escolher apenas uma pessoa para sair de casa para as situações essenciais e urgentes, como para fazer compras no supermercado ou farmácia, em seguida higienizar tudo o que irá entrar na casa mesmo as próprias vestes ou sapatos; usar cartões de crédito ou débito para evitar o uso e o contato com moedas e dinheiro em espécie; praticamente todo comércio e outros estabelecimentos estão fechados, bem como igrejas e escolas, somente os armazéns, mercados, supermercados, farmácias, bancos e toda área da saúde e de serviços públicos essenciais estão abertos, porém seguindo todos os cuidados para evitar aglomeração de pessoas.

Celebrações: A respeito das celebrações, mesmo realizadas em capelas particulares, o número é totalmente restrito conforme orientações do arcebispo local, Dom Christian Lépine, apenas 2 ou 3 pessoas e respeitando o distanciamento de 2 metros para evitar o contato físico. Atualmente as orientações do governo para os que desrespeitam as medidas apresentadas é que serão multados e os valores variam entre 1 a 6 mil dólares canadenses.

Formação: No que concerne a formação, o convite de Marie-Marcelle é para nós uma oportunidade de vivermos uma criatividade que nos coloca diante de um momento de urgência, tendo o objetivo de proteger a vida, nesse momento em que o mundo inteiro está sob a ameaça do coronavírus, mas que de certa forma nos faz antecipar nossa missão, junto ao nosso povo, para encontrarmos soluções e projetos eficazes diante da urgência, sem perder a visão da totalidade de nossa própria humanidade e sua necessidade básica e fundamental. E nos faz olhar a beleza e a importância da formação que recebemos para que nesse momento de urgência percebamos como reagimos e nos comportamos, para estarmos assim, cientes das nossas forças vitais humanas que nos fará ir ao encontro do outro para atualizarmos suas forças vitais humanas e de mantê-los em movimento, mesmo estando dentro da limitação do espaço de nossa casa, porém, conscientes da nossa contribuição pessoal, dignidade e competências, que nos conduz a uma precisão de nossa reserva de energia (física, psíquica e espiritual) e também a gerar tudo isso que se passa ao nosso redor.

Primordialmente é bom mantermos nossa consciência social aguçada, pois ela nos ajudará a perceber de fato a realidade, para não minimizarmos ou dramatizarmos as coisas, porque é natural sentirmos algumas emoções tais como incerteza ou medo, porém podemos administrá-las e mesmo contorná-las, afim de não nos paralisarmos, mas antes de tudo nos mantermos sempre em movimento, em ação com o objetivo de salvar vidas, começando pela nossa, destacando o sentido e o valor que damos à vida. E mais, o corpo é a nossa estrutura e nossa casa, mesmo no isolamento podemos e devemos realizar atividades físicas, exercícios de contração e descontração para manter a saúde do corpo, da mente e do espírito.

Para mim pessoalmente esse é um momento de purificação de nossa própria humanidade, que nos faz não só reconhecermos a presença de Deus, bem mais presente do que antes em nossas vidas, porque antes minha impressão é de que Ele nos procurava a todo momento e agora somos nós que o procuramos, mesmo pelos diversos questionamentos dos tempos atuais, quando muitos se questionam dizendo: onde está Deus? Desse modo vemos uma oportunidade de resgatarmos aquilo que constitui nossa própria humanidade, nossa inteligência, nossas emoções, nosso corpo, nossa saúde, nossa espiritualidade e tudo mais que nos faz reconhecer a realidade de sermos seres humanos. E por outro lado percebemos hoje o que nos põe face a situação de risco, de perigo, de dificuldade, de isolamento, de limite, de dor, de sofrimento, de morte, tal como o próprio tempo atual nos apresenta constantemente essa triste e verdadeira realidade.

Jesus é a grande esperança da vida humana e os fatos de sua vida são tão atuais que nos ajudam a superar os desafios desse tempo presente, porque existem outros vírus que são muito mais destruidores e matam interiormente a cada dia as pessoas, como: o ódio, a vingança, a cólera, a inveja, a falta de perdão, a traição, a injustiça, a indiferença, o egoísmo, a ignorância e tantos outros. E a nossa esperança está numa vacina fabricada por Deus, que é capaz de salvar toda a humanidade, capaz de refazer a beleza interna e externa do ser humano, que se importa realmente com o valor e a totalidade da pessoa, vendo-a como uma pessoa humana, por vezes portadora da sua fragilidade e fraqueza humana e por muitas outras portadora de forças vitais que a mantém de pé, consciente do seu papel, de sua competência, de sua dignidade e do alcance que ela pode atingir quando ela é motivada por essa consciência que a habita fisicamente, psiquicamente, espiritualmente e humanamente. “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). Ao meditar este versículo de João, mas se também meditarmos os 107 versículos bíblicos que falam sobre o Amor, poderemos perceber que o AMOR é a grande vacina capaz de nos purificar e de nos colocar diante do combate constante desse mundo, onde especialmente encontramos a vida em perigo, para que como Deus possamos criar, recriar ou salvar a vida por amor, ou mesmo, como Jesus Cristo que deu à sua própria vida por amor para que todas as outras vidas sejam salvas. E nada mais oportuno do que aproveitar o que acontece hoje no mundo inteiro para refletirmos sobre o mistério de Cristo, de modo profundo na semana santa, totalmente atípica, que nos faz buscar um modo diferente de experimentá-la e vivê-la, porque nossa sede de Deus é constante e nossa busca em conhecer, seguir, imitar e amar Jesus vai muito além dos limites do mundo, pois Ele é também Deus e para alcançarmos essa realidade precisamos enfrentar todas as barreiras e os limites humanos afim de viver uma conexão direta com Deus, na qual a espiritualidade nos ajuda, mas exigindo a totalidade do nosso ser para poder não só compreender essa experiência, mas interiorizá-la e traduzi-la em gestos concretos no presente momento, no qual podemos salvar vidas.

Que Cristo fonte de nossa esperança, vida, amor e fé, possa realmente nos transformar nesse tempo de purificação, para que de fato os nossos próprios olhos vejam os sinais dessa vida transformada e ressuscitada. E com Maria percorremos essas estradas da vida, onde a dor e a poeira da fragilidade humana nos exige simplicidade, confiança e entrega, para que também Deus nos faça cantar a alegria da libertação. Recebam com carinho um abraço totalmente protetor e confortador, repleto de amor. E que essa Páscoa possa marcar e confirmar a nossa fé em Jesus Cristo, Nosso Senhor e Salvador. Uma Santa Páscoa a todos.


Padre Luciano Roberto Camargo
Presbítero da Arquidiocese de Ribeirão Preto em estudos no Instituto de Formação Humana Integral de Montreal - Canadá

06 de abril de 2020