Auxílio Moradia - Padre Gilberto Kasper

A discussão sobre o Auxílio Moradia para Magistrados, Procuradores da República e outros Servidores Públicos da União repercutiu muito mal entre os cidadãos brasileiros comuns, como este que lhes escreve. Mesmo sendo legal é sem dúvida imoral, principalmente quando requerido por Juízes e Procuradores que trabalham em suas cidades, proprietários de próprios imóveis, em alguns casos, mais do que um.

Os Magistrados Sérgio Moro de Curitiba e Marcelo Bretas do Rio de Janeiro, por exemplo, além de residirem em imóveis próprios, exigem os R$ 4.300,00 de Auxílio Moradia tanto para eles, como para suas digníssimas esposas, também Servidoras do Judiciário. A indignação advém dos discursos que tentaram aprovar uma insignificante Reforma da Previdência, argumentando “falsamente” que a mesma reforma acabaria com privilégios de uma grande minoria, paga com o suor da máxima maioria que ganha salários de miséria. Esse discurso, exigindo seus direitos, mesmo não sendo utilizados para tais fins, como o Auxílio Moradia, proveniente de Magistrados que ganharam a confiança de um povo desolado, não os desabilitaria a julgarem os corruptos e corrompidos de nosso País já tão esfolado por homens públicos que se servem de cargos, prestígios e funções para enriquecerem ilicitamente?

Igualmente estarrecedora é a opinião da Procuradora Geral da República Raquel Dodge, que defende o mesmo Auxílio Moradia a todos os Servidores da Procuradoria Geral, independentemente se possuem ou não casa própria na cidade onde atuam. Já o Presidente da Associação de Juízes Federais do Brasil (Ajufe), Roberto Carvalho Veloso, propôs para este dia 15 de março uma Greve Geral dos Associados, tentando pressionar o Supremo Tribunal Federal a manter e, se possível aumentar o Auxílio Moradia, porque para alguns Juízes o valor é insuficiente. A Presidente do STF, Carmem Lúcia, pautou o julgamento das ações pendentes para a sessão do dia 22 de março próximo.

Mesmo valorizando o árduo e desafiador trabalho dos Magistrados e Procuradores, na tentativa de combater uma República tão corrupta como a nossa, não me parece justo e moral, que além dos salários mais altos do País, ainda sejam agraciados com o Auxílio Moradia, além de tantos outros, como o Auxílio Toga. Sabemos que nossos Coletores de Lixo têm seus uniformes descontados do mísero salário que recebem mensalmente para correr e recolher nosso lixo fedido por 30 Km diários, só para lembrar uma Classe de Trabalhadores tão ou mais honestos do que nossos “Meritíssimos Juízes”.

Depois não venham falar em buscar igualar direitos, especialmente quando tratam dos Aposentados e Pensionistas de uma Nação ainda tão injusta, desigual e que necessita uma maioria de pobres e miseráveis que banquem a gritante minoria de privilegiados, declaradamente insensíveis com tantos brasileiros que não têm onde reclinar a cabeça e o corpo cansado no final de cada dia. Eis a Justiça de um Brasil tão promissor, mas que exclui seus verdadeiros cidadãos de bem da mesa comensal das riquezas mal distribuídas!

Deseja o prezado leitor Auxílio Moradia? Tente reivindicar e veja o que acontecerá! Dirão que enlouqueceu e precisa ser imediatamente internado!

Pe. Gilberto Kasper
pe.kasper@gmail.com

Mestre em Teologia Moral, Licenciado em Filosofia e Pedagogia, Especialista em Bioética, Ética e Cidadania, Professor Universitário, Docente e Coordenador da Teologia na Faculdade de Ribeirão Preto da UNIVERSIDADE BRASIL e UNIESP S.A., Assistente Eclesiástico do Centro do Professorado Católico, Assessor da Pastoral da Comunicação e Reitor da Igreja Santo Antônio, Pão dos Pobres da Arquidiocese de Ribeirão Preto e Jornalista.