O encontro com o próprio Cristo na terra das ricas florestas paraenses

“Salve, ó terra de ricas florestas, fecundadas ao sol do Equador [...] Salve, ó terra de rios gigantes, D'Amazônia, princesa louçã! [...] Ó Pará, quanto orgulhas ser filho. [...] Do Brasil, sentinela do Norte, e a deixar de manter esse brilho, preferimos mil vezes a morte!” (Hino do Pará)


Começo esse texto com o trecho do hino do Estado do Pará, estado que tive a oportunidade de conhecer em janeiro de 2018. Escrevendo este texto, duas palavras vêm a minha cabeça: saudade e gratidão. Saudades de tudo que vivi, experimentei e senti naquelas terras de grandes castanheiras, terra de um povo de fé e repletos de esperanças. E gratidão por tudo aquilo que me ofereceram e ensinaram.

Essa décima primeira experiência missionária, que me acolheu nesse período, é realizada pelos seminaristas da etapa do discipulado (Filosofia) do Seminário São Pio X, da diocese de Santarém (PA). Ela foi realizada na Área Pastoral Jesus Bom Pastor, que completou um ano no período da missão. A área pastoral possui 46 comunidades e é assistida por um único padre, o amigo e guerreiro: padre Antônio Jorge Cruz Mesquita. Nós, seminaristas, fomos divididos em equipes de quatro ou cinco integrantes e enviados para essas comunidades onde ficávamos de quatro e cinco dias em cada uma e tínhamos a oportunidade de visitar as casas, realizar encontros com os jovens, crianças e casais, ou seja, ajudar a comunidade.

Estávamos em quase 30 seminaristas, de algumas dioceses do Brasil, liderados pelo padre Rubinei Valente Coelho, reitor da etapa da filosofia. Ele acompanhou toda a missão com a ajuda do padre Antônio Jorge e outros padres. Tive, nesse período, a oportunidade de conhecer quatro comunidades: Chapadão (Santo Expedito), Água Azul (Santa Edwiges). Porto Alegre (São Sebastião) e Guaraná (São Félix).

Foram 20 dias de encantos, surpresas e, o principal, dias de encontro com o próprio Cristo nas pessoas que me acolheram, que me trataram como um irmão, um filho, um neto, um sobrinho, um primo, um parente querido, um membro da família. Pessoas que deram o muito do pouco que tem. Nestes 20 dias que estive em tão rica e acolhedora terra, pude realizar atividades no âmbito social e espiritual. A experiência missionária me ajudou a redescobrir e reafirmar minha missão no mundo e na Igreja. O cenário amazônico e a realidade local me levaram a ter uma vivência em todas as dimensões da formação (intelectual, comunitária, afetiva, missionaria e espiritual), além de alimentar em mim a prática da caridade, do serviço e da comunhão.

Um  ponto  triste da missão foi ter tido contato como o desmatamento. Apertou-me o coração ao ver (árvores centenárias no chão), sentir (o carvão de várias árvores queimadas) e cheirar (a fumaça) o desrespeito pela natureza. Muitas árvores derrubadas ilegalmente, muitas  madeireiras construídas ilegalmente. Quantas vezes sentado perto de uma estrada, no despontar dos primeiros raios do sol e rezando as Laudes, pude ver  dezenas  de  caminhões passando carregados de madeira ilegal.  

Fecho os olhos e ainda posso sentir o cheiro daquelas ovelhas, posso sentir a terra daquelas estradas em meus pés. A mesma terra que muitos, ainda ao acordar, quando descem de suas redes descalços tocam com os pés. Terra essa que dá o pão de cada dia a todos. Quando Deus criou o céu e a terra, no seu infinito amor, ele passou para a humanidade o cuidado com a natureza.  Assim, esses homens têm que continuar lutando pela terra, por suas plantações, por suas famílias, pela vida de cada irmão.

Ainda com os olhos fechados surgem muitas imagens que ficaram na minha memória,  na  minha  vida e na minha vocação. E nunca as esquecerei. Recordações como a enorme vala por onde passavam canos para levar a água para algumas  casas;  vala que ajudamos a cavar e tampar.  Como  esquecer  da castanha  do Pará, daquele franguinho caipira,  da farinha, daquele açaí puro, daquela pescaria de tucunarés no rio Curuá-Uná?  Como  esquecer  da  fé daquele povo, a dedicação e o grande senso de comunidade, de respeito uns para como os outros e de união que brota do amor pela vida? Como esquecer de tanto amor dado, na gratuidade, a um paulista da cidade de Batatais, que eles nunca viram na vida, mas para o qual abriram as portas de suas casas como alegria e esperança?

Encerro este texto, escrevendo algo muito forte, que senti e vivi ao sair aqui do estado de São Paulo. Meu pensamento era que encontraria muita pobreza por onde passasse, mas diante da riqueza da alegria daquele povo de Deus, diante do encontro com o próprio Cristo Jesus naquela terra das ricas florestas, a única pobreza que eu encontrei foi a minha!


Rodrigo Barcelos
Seminarista -  Segundo ano de Teologia