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Em direção às periferias

Continuando nossa reflexão sobre a cidade e a evangelização, tomamos maior consciência de que a pastoral urbana é chamada a descobrir e potencializar a presença de Deus entre os cidadãos. Isso nos mostra que é urgente a ação missionaria em  direção  a  todas as periferias existenciais, sociais e geográficas. O estado permanente de missão, que acentua o  Documento de Aparecida (DAp), deve  ser  um  movimento missionário que passe de uma pastoral sedimentária, autorreferencial   e   estática, para uma pastoral itinerante, peregrina. A pastoral  urbana é   chamada  a materializar  o processo que leva a ir a todos, a desejar chegar aos últimos.

Este processo atualiza o caminho missionário de Jesus, o primeiro e o maior evangelizador, que nasceu numa periferia desconhecida do Império Romano, atuou em pequenas cidades de Israel e morreu crucificado na periferia de Jerusalém. O cristianismo se expandiu das periferias palestinenses até Roma, o grande centro da época. Isso deu ao cristianismo duas vantagens em relação às outras religiões, ou seja, acumulou uma rica experiência urbana desde as suas origens e surgiu como religião universal e missionária. A sua vocação universalista explica a rápida difusão que  teve  no   mundo antigo, povoado de crenças, filosofias, deuses, mestres e heróis. O seu crescimento aconteceu pelo impacto do Ressuscitado e a ação do Espírito Santo (At 10,45; 16,6).

O   principal   itinerário da primeira evangelização partiu de Antioquia, evangelizada por várias correntes missionárias (helenistas de Jerusalém, cristãos de Chipre e Cirene, Barnabé), onde pela primeira vez os discípulos foram chamados de cristãos (At 11, 19-26). Dali depois passou para Atenas e chegou a Roma. Gerou comunidades nas grandes cidades da Ásia Menor e da Grécia, como Tessalônica, Éfeso e Corinto, que superavam os 100.000 habitantes. A fé se difundiu de pessoa para pessoa por meio de uma transmissão capilar que passou da cultura das cidadezinhas da Palestina às grandes cidades mediterrâneas com as suas diferenças étnicas, sociais e religiosas.

A peregrinação missionária de Paulo terminou em Roma, cidade que tinha superado o milhão de cidadãos e era nos “confins da terra” (At 1,8; 28,14). O apóstolo viveu dois anos numa casa daquela cidade (At 28,15-16.30), ali proclamou o Reino de Deus e ensinou “o que se refere ao Senhor Jesus Cristo com toda intrepidez e sem impedimento” (At 28,31).

Hoje,  na Igreja de Jesus, nascida na periferia, se deve ir ao encontro das pessoas, famílias, comunidades e vilas, nas quais Deus está presente e age, para compartilhar a plenitude da Vida em Cristo. “Não podemos permanecer tranquilos,  mas  urge  ir em todas as direções” (DAp, 548). Esta linha de pastoral vem simbolizada pela palavra periferia. A Igreja latino-americana faz chegar  aos  “habitantes  dos centros urbanos  e das periferias, crentes  ou   não crentes” (DAp, 518) e quer estar presente “entre as casas das periferias urbanas e do interior” (DAp, 550). A Conferência de Aparecida se refere às periferias sociais e urbanas em âmbito territorial e integra também as periferias humanas e existenciais dos momentos limites e das situações críticas da vida.

“A  Igreja  fez  uma  escolha pela vida. Ela nos projeta necessariamente em  direção  as  periferias  mais  profundas  da  existência:  o nascer  e o morrer, a criança e o idoso,  o  sadio e o doente” (DAp, 417).

[Fonte:  A  Pastoral  das Grandes Cidades, Edições CNBB, p. 292-295).

Desejo  que  esta  reflexão  nos questione e nos impulsione em nossa ação evangelizadora.


Dom Moacir Silva
Arcebispo Metropolitano

 

Igreja-Hoje - Julho/2018