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Deus vive na cidade

A afirmação Deus vive na cidade, é um pressuposto teologal para a pastoral urbana. Ela se enriquece considerando as presenças de Cristo que são lugares de encontro com Cristo. Cristo vai ao encontro na Igreja, no homem e no mundo. Deus vive em Jesus Cristo e Cristo vive, em diversos modos, nos homens, nas famílias, nos povos urbanos e entre eles.

Deus habita a vida dos homens da cidade, em meio as suas alegrias, desejos e esperanças, como também em suas dores e sofrimentos, em cada realidade humana, cujos limites às vezes nos fazem mal e nos oprimem. Identifica-se com as nossas experiências humanas mais fortes: o amor e a morte, a alegria e a dor, a união e a exclusão. Deus se faz presente não obstante as sombras  que  caracterizam  a   vida   cotidiana  das  cidades,  como por exemplo,  a  violência,  a pobreza, o individualismo e a exclusão. Jesus vem nos outros que pedem nosso amor (Mt 25, 37-40) apaixonado e compassivo.

O encontro com Jesus nos pobres é uma dimensão constitutiva da nossa fé em Jesus Cristo (cf. Documento de Aparecida, 257). O cristão sabe que as realidades mais duras da cidade: “não nos podem impedir que busquemos e contemplemos o Deus da vida também nos ambientes urbanos” (Documento de Aparecida, 514). A fé é descobrir Deus no Cristo presente. O Cristo sofredor sofre nos irmãos que vivem muitas misérias, aceitas por Ele como Servo sofredor e paciente até a cruz pascal. Na cultura urbana é preciso descobrir  também o Cristo médico que ama, acode e cura o ferido com a misericórdia do Bom Samaritano. Num hospital, onde o peso de tanto sofrimento, doença, dependência, violência e angústia  é esmagador, se descobre  Jesus Cristo na dor de um doente crucificado e no amor de uma enfermeira samaritana. Descobre-se também Jesus em um idoso que viaja em pé no ônibus e no jovem que cede o lugar para sentar. Descobre-se também Jesus  nas  pessoas em situação de rua e  nas  pessoas que vão ao encontro delas para partilhar atenção, alimento, coberta, afeto.

O  Filho de Deus encarnado estabeleceu  com  todos os homens uma misteriosa solidariedade. A esta presença na dor se acrescenta aquela devida ao amor, por que Jesus não se aproxima apenas da miséria do necessitado que sofre, mas também do amor pelo qual  exerce  a misericórdia. O olhar cristão  penetra  na  dimensão divina das experiências humanas e citadinas. Este olhar da fé não tem ainda a clareza da visão.

Em  Cristo  o  Grande  se  fez     Pequeno,  a  fim  de que o pequeno possa fazer-se grande. O Deus pequenino  se  identifica  com os pequenos:  “todas  as vezes que fizestes isso a um  destes mais pequenos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes!” (Mt 25,40).  Bartolomeu de Las Casas dizia que “do mais pequenino e do mais esquecido Deus tem uma memória  muito  viva  e  fresca”. Os pobres são os relegados que Deus, na sua memória amorosa, Jamais esquece. Em Cristo o grande se fez pequeno, o forte se fez frágil, o rico se fez pobre. Cristo  crucificado  está presente nos gritos,  nos silêncios, nos olhos, nos olhares, nas lágrimas e nos gesto das vítimas  da exclusão pelos abusos de poder, dinheiro, sexo. O amor máximo de  Deus  se  apresenta  na  mínima  expressão  dos mais pequeninos, que podem ser crianças vulneráveis, jovens “nem...nem” (nem estudam nem trabalham), idosos abandonados, pessoas sozinhas e tristes, vítimas da violência. O Máximo se fez Mínimo e nos inspira a um amor que torna pequeno o grande e grande o pequeno.

Deus vive nos bairros modestos e esquecidos.  O bairro é uma determinada  comunidade  de cidadãos que convivem em um espaço geográfico e social caracterizado pela vizinhança. O bairro  é  uma  comunidade  humana pela convivência em lugar determinado, que  gera  uma  trama de ligações; é destinado  a  ser  uma  reunião de pessoas  e  famílias  vizinhas.   A   ação pastoral  no  bairro  deve  assumir e renovar, da fraternidade universal que a fé oferece, o sentido de pertença local, a fim de que seja potencializado  e  renovado.  Deus  vive no  bairro,  embora a obscura morte cotidiana  desbote  a  percepção  da   luz  divina.

(Fonte: A Pastoral das Grandes Cidades, Edições CNBB, p. 317-320).

 

Dom Moacir Silva
Arcebispo Metropolitano

Igreja-Hoje - Agosto 2018