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A cultura urbana fascina e frusta

O sujeito imerso na cultura urbana contemporânea convive com dois extremos: o individualismo e o coletivismo. O espaço urbano é pensado no sentido coletivo, no nível população como comunidade urbana que se organiza para melhor usufruir dos bens públicos. É na coletividade que se suprem as necessidades básicas do ser humano. É preciso pensar a cidade como uma realidade coletiva. Por outro lado, nesse contexto, o indivíduo pode isolar-se no meio da multidão. Pode viver a solidão e o desencontro no embate com as massas humanas.

Se a coletividade é importante, sabemos que não é menos importante o interesse do cidadão pela liberdade. É na liberdade que a pessoa pode se construir como pessoa.

A cidade proporciona a possibilidade de uma vida privada; oferece condições para o individualismo proliferar. Além disso, multiplica-se a formação de grupos desde os condomínios fechados até as grandes favelas que coexistem alternativamente ao conjunto da vida urbana, com suas regras próprias de convivência. Assim, a cidade não é um todo, mas uma unidade que engloba múltiplos mundos urbanos, que coexistem entre si.

Entre o individualismo, o coletivismo e os múltiplos grupos urbanos, convive-se com a ambiguidade que fascina e frustra. As vantagens de viver na cidade são muitas. Nela estão o centro administrativo, o comércio, os serviços públicos, o transporte, a energia, a assistência médica, o trabalho, o lazer e a cultura. A cidade é novidade, diversidade e movimento. Os apelos visuais, a moda, os novos comportamentos, tudo irrompe no mundo urbano. A cidade é uma exposição permanente de estilos diferentes, de pensamentos diversos, de opiniões e atitudes livres. A cidade dá liberdade para se inventar a vida. Ela aceita a novidade e recria seus espaços. A cultura urbana impregna a realidade humana nas cidades e no campo. Ela marca sua presença com seus símbolos no cotidiano da vida das pessoas.

A cidade atrai porque é lugar do encontro, da liberdade e da vida. A cultura urbana propicia ao indivíduo reter o “segredo”, isto é, cria um processo de socialização que facilita ao indivíduo a exteriorização de sua liberdade. A liberdade como ideal é a mola propulsora de muitos que optam pela vida urbana. É na liberdade que a pessoa pode se construir como pessoa. Esse espaço de liberdade supõe uma comunidade que permita um tipo de vivência social em que o indivíduo saia do anonimato e da frustração de ser apenas mais um na multidão.

Na cultura urbana, a aceitação do outro é uma relação de gratuidade, não de obrigação, pois as opções são em maior número e quantidade. A pessoa passa a criar novas necessidades e a utilizar os bens com fácil descartabilidade. Desse consumo depende a vida da cidade: seu comércio, suas relações de trabalho e economia, seus serviços e projeto.

Mas não só de vantagens vive o cidadão. “A vida urbana e as transformações industriais levantam problemas até agora desconhecidos. Em seu interior se modificam os modos de vida e as estruturas habituais da vida: a família, a vizinhança, a organização do trabalho” (Documento de Puebla, 431). A violência e a insegurança, a criminalidade e o alcoolismo, a droga e a prostituição, a mendicidade e as gangues juvenis passam a fazer parte do cenário da vida de quem está na cidade. Todo esse clima tenso afeta a pessoa e exige reações de defesa, precaução e cautela nos relacionamentos interpessoais. Toda essa realidade chega a todos os recantos rurais pelas redes sociais que permitem acesso e contato com toda essa pluralidade de contrastes.

Para quem vive especificamente no meio urbano, há também o desencanto que atinge os ideais de liberdade e autonomia. O tempo de trabalho, a burocracia, o transporte coletivo, a dependência dos proprietários de casa e favelas são alguns indicadores dessa experiência limitante.

Nossa ação evangelizadora precisa estar sensível a esta cultura urbana que fascina e frustra.


(Fonte: Dom Leomar Antônio Brustolin em “Cultura Urbana: porta para o Evangelho: a conversão pastoral como chave para a evangelização das cidades”, Paulus, 2018, p. 133-135).


Dom Moacir Silva
Arcebispo Metropolitano

Igreja-Hoje - Outubro/2018