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A experiência religiosa no meio urbano

O sujeito urbano atual vive num contexto de pluralismo religioso. O pluralismo liberta as pessoas de normas fixas, mas também as desorienta pela perda de referências fundamentais e gera fragmentação da vida e da cultura. Emerge, então, a perda do sentido comunitário da fé, com a privatização da experiência religiosa e a ressignificação dos conteúdos tradicionais da fé. A participação na vida eclesial tornou-se, cada vez mais, uma opção numa sociedade pluralista.

Outro aspecto que se acentua é a desconexão entre religião e ética, entre liturgia e compromisso social. É um sujeito que vive  a tensão entre o público e o privado, entre o seu mundo vital e o sistema que o rege é alguém que experimenta processo de exclusão social e tenta viver sua subjetividade por meio do esporte, do time do coração, do espetáculo, da beleza, da estética, da imagem, da fama por um minuto. Cada cidadão elabora sua relação com o transcendente. As pessoas querem muito mais o acompanhamento pessoal do que uma lista de doutrina e preceitos.

Constata-se, também, uma proliferação de novos grupos religiosos que atuam como um balcão de ofertas para o sujeito urbano carente nas suas múltiplas dificuldades. Não são mais as igrejas históricas nem os templos suntuosos que acolhem a maioria da população carente da cidade. Praças, vias públicas, antigos cinemas e teatros servem para acolher e oferecer saúde e prosperidade para uma população que vive no caos do sistema de saúde pública e na iminência constante do desemprego e subemprego. Esses grupos oram, recolhem ofertas, adquirem espaços amplos e usam meios eletrônicos e de comunicação para seduzir seus adeptos de forma enfática.

O cristianismo atual é interpelado pela cultura urbana. Trata-se de uma provocação positiva, segundo o Papa Francisco, pois a presença de Deus acompanha a busca sincera que indivíduos e grupos efetuam para encontrar apoio e sentido para a sua vida. Ele vive entre os citadinos, promovendo a solidariedade, a fraternidade. O desejo do bem, da verdade e da justiça (cf. EG, 71). Nas grandes cidades estão os marginalizados, os excluídos, os pobres que carecem de um bom samaritano. O lugar do cristão da cidade é no meio das lutas em defesa da vida, na conquista da liberdade e da igualdade, na promoção da solidariedade.

Se, por um lado, a ação da Igreja é criticada pela sociedade urbana, que a acusa de conservadora e atrasada, incapaz de se adaptar às inovações do tempo, por outro lado, se reconhece o valor dos organismos e serviços da Igreja que se dedicam a amenizar o sofrimento causado pelo caos urbano (hospitais, asilos, creches, centros de recuperação de toxicodependentes, pastorais sociais etc...). O atendimento aos mais pobres da sociedade ainda é garantido por obras que a Igreja mantém. Por outro lado, não é possível manter essa atitude sem identificar as causas dessa desigualdade bem visível na cidade. Na Carta Encíclica Laudato Si, o Papa Francisco denuncia uma opinião pública generalizada que não procura resolver os problemas dos pobres e limita-se a propor uma redução da natalidade. “Culpar o incremento demográfico em vez do consumismo exacerbado e seletivo de alguns é uma forma de não enfrentar os problemas” (LS, 50). A Igreja, portanto, garantindo a assistência aos idosos, às crianças, aos doentes e a todos os abandonados no isolamento da cidade, precisa ser uma voz profética que desmascare as causas dessa grande injustiça social.

Nossa ação evangelizadora precisa estar sensível a esta experiência religiosa no meio urbano.

(Fonte: Dom Leomar Antônio Brustolin em “Cultura Urbana: porta para o Evangelho: a conversão pastoral como chave para a evangelização das cidades”, Paulus, 2018, p. 136-138).


Dom Moacir Silva
Arcebispo Metropolitano

Igreja-Hoje - Novembro/2018