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Homilia de Dom Moacir Silva na missa da Noite de Natal (2018)

Homilia de Dom Moacir Silva na missa da Noite de Natal na Catedral Metropolitana de São Sebastião (24.12.2018)


Queridos irmãos e queridas irmãs, hoje nasceu o nosso Salvador. Alegremo-nos. Deixemos que a riqueza da Liturgia desta Noite Santa penetre o mais profundo de nosso ser e, assim, alimente nossa vida cristã.

 “O povo que andava na escuridão, viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu”, escutamos na primeira leitura. Com esta imagem da luz, o profeta anuncia tempos novos para o Povo do Deus, tempos melhores, tempo de salvação.

Hoje, também queremos acolher esta palavra, esta luz como anúncio de salvação. Vivemos num mundo marcado pelas trevas do pecado, do egoísmo, da violência, da corrupção, da falta de solidariedade, do desrespeito ao valor inviolável da vida humana. No meio dessas trevas, rezamos ao nosso Deus que fez “resplandecer esta noite santa com a claridade da verdadeira luz” (Coleta), o Cristo Jesus.

Hoje uma luz brilhou para nós. Nesta noite a esperança é renovada. É possível um mundo de paz, justiça, amor e fraternidade. Pois, esta luz, que é Jesus, o Verbo que fez homem, afeta o íntimo do homem: a luz do bem que vence o mal, do amor que supera o ódio, da vida que vence a morte. “Com o Natal de Jesus, entrou no mundo a esperança... O Senhor entra no mundo e dá-nos a força de caminhar com Ele para a vida plena, de viver de maneira nova o presente com as suas fadigas” (Papa Francisco – Audiência Geral de 21/12/16).

No Natal, a graça de Deus se manifestou trazendo a salvação para todos os homens, como nos disse São Paulo, na segunda leitura. A “graça de Deus que se manifestou” em Jesus é o seu amor misericordioso, que preside a inteira história da salvação e a guia em direção à sua realização definitiva. A revelação de Deus na humildade da natureza humana constitui a antecipação, na terra, da sua manifestação gloriosa no fim dos tempos.

No natal, o céu e a terra trocam os seus dons, pois a humanidade e a divindade se unem no Menino de Belém. Em Jesus, Verbo encarnado, reconhecemos o Deus visível aos nossos olhos e aprendemos nele a amar a divindade que não vemos. Cristo, gerado antes dos tempos, entrou há história para erguer o mundo decaído.

Deus desce realmente e vem ao nosso encontro. Torna-Se criança, colocando-Se na condição de dependência total, própria de um ser humano recém-nascido. O Criador que tudo sustenta em suas mãos, de Quem todos nós dependemos, faz-Se pequeno e necessitado do amor humano. Deus está na pobreza de uma manjedoura.

No Evangelho, São Lucas descreve com algum pormenor a pobreza e a simplicidade que rodeiam a vinda ao mundo do Salvador dos homens: a falta de lugar na hospedaria, a manjedoura dos animais servindo de berço, os panos improvisados que envolvem o recém-nascido, a visita dos pastores…

Os pastores são os primeiros destinatários da notícia que toda a humanidade esperava: “Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor”. São eles pessoas pobres, simples e consideradas pessoas marginalizadas.

São Lucas coloca, precisamente, esses marginalizados como as “testemunhas” que acolhem Jesus. O evangelista sugere, desta forma, que é para estes pecadores e marginalizados que Jesus vem; por isso, a chegada de um “salvador” é uma “boa notícia”: a partir de agora, os pobres, os fracos, os marginalizados, os pecadores, são convidados a integrar a comunidade dos filhos amados de Deus. Eles vêm ao encontro dessa salvação que Deus lhes oferece, em Jesus; eles são convidados a integrar a comunidade da nova aliança, a comunidade do “Reino”.

O menino de Belém nos leva a contemplar o incrível amor de um Deus que se preocupa até ao extremo com a vida e a felicidade dos homens e que envia o próprio Filho ao mundo para apresentar aos homens um projeto de salvação. Nesse menino de Belém, Deus grita para nós a radicalidade do seu amor por nós.

São Paulo VI nos ajuda, com seu ensinamento, a mergulhar mais no mistério que estamos celebrando, o nascimento de Jesus; ele afirmou: “Deus poderia ter vindo revestido de glória, esplendor, luz, poder, assustando-nos, deixando os nossos olhos arregalados pela maravilha. Mas não! Veio como o menor dos seres, o mais frágil, o mais fraco. E porquê? Para que ninguém tivesse vergonha de se aproximar d’Ele, para que ninguém tivesse medo, precisamente para que todos pudessem senti-Lo vizinho, aproximar-se d’Ele, já sem qualquer distância entre nós e Ele. Houve um esforço, por parte de Deus, de mergulhar, afundar-Se dentro de nós, para que cada um possa familiarizar com Ele, possa ter confidência, possa aproximar-se d’Ele, possa sentir-se pensado por Ele, por Ele amado... por Ele amado. Reparai que esta é uma grande afirmação! Se compreenderdes isto, se lembrardes isto que vos estou dizendo, tereis compreendido todo o cristianismo” (Natal de 1971).

Agora podemos perguntar: Qual é a festa de Natal que agrada a Deus? Para descobrir os gostos de Deus, precisamos olhar como foi o primeiro Natal. Foi um Natal cheio de surpresas, obrigando Maria e José a ajustarem as suas vidas; mas a maior das surpresas aparece na noite de Natal: o Filho do Altíssimo é um bebê; o Verbo de Deus, a Palavra divina é um infante, ou seja, “incapaz de falar”; não vieram acolher o Salvador as autoridades do tempo, mas simples pastores que guardavam os rebanhos de noite. Quem o teria imaginado? Mas Natal é celebrar o inédito de Deus, ou melhor, um Deus inédito, que subverte os nossos planos e expetativas. Celebrar o Natal é acolher na terra as surpresas do céu.

Por fim, nossa gratidão. Obrigado, Menino de Belém, por vir partilhar conosco a Tua vida e, assim, nos tornar participantes desta vida. Ajuda-nos a viver intensamente este mistério, hoje e sempre. Amém!


Dom Moacir Silva
Arcebispo Metropolitano

24 de dezembro de 2018