<

Homilia de Dom Moacir Silva - Solenidade do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo (2018)

Homilia de Dom Moacir Silva na Solenidade do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo - 25.12.2018

Queridos irmãos e queridas irmãs! Estamos aqui reunidos pelo Senhor, celebrando o seu Natal; o evento de Deus que se faz homem para salvar os homens; a manifestação do amor de Deus que não se limita a dar-nos algo ou a enviar-nos uma mensagem ou alguns mensageiros, doa-se a si mesmo a todos e cada um de nós; o mistério de Deus que toma sobre si a nossa condição humana e os nossos pecados para revelar-nos a sua Vida divina, a sua graça imensa e o seu perdão gratuito. É o encontro com Deus que nasce na pobreza da gruta de Belém para ensinar-nos a potência da humildade. Na realidade, o Natal é também a festa da luz que não é acolhida pala gente “eleita”, mas pela gente pobre e simples que esperava a salvação do Senhor.

A primeira leitura anuncia a chegada de Deus no meio do seu Povo. Para a cidade em ruínas, chega o mensageiro que traz a "boa notícia" da paz. Ele anuncia a "salvação" e proclama o reinado de Deus sobre o seu Povo e a sua cidade. Terminou, portanto, o sofrimento e a opressão.

A alegria pela libertação do cativeiro da Babilônia e pela "salvação" que Deus oferece ao seu Povo e à sua cidade, anuncia uma outra libertação, plena e total, que Deus vai oferecer ao seu Povo através de Jesus. O nascimento de Jesus - o Deus que veio ao encontro do seu Povo e da sua cidade com uma proposta de salvação – nos diz que a opressão terminou e que o "reinado de Deus" alcançou a nossa história.

A segunda leitura resume a história da salvação. Deus é o sujeito, o primeiro protagonista de tudo. Esse Deus, que criou e deu forma a tudo o que existe, tem um projeto de salvação para o homem; por isso, falou em palavras humanas, rompeu as distâncias, aproximou-se do homem. Numa primeira fase, ele falou através dos seus porta-vozes - os profetas - apresentando aos homens a sua proposta de salvação; mas, no nosso tempo, falou-nos através do seu próprio Filho, fazendo dele a Palavra plena, definitiva, perfeita, que nos apresenta o caminho da salvação.

O Filho identifica-se plenamente com o Pai e, como o Pai, tem um senhorio pleno sobre toda a realidade. Ele é superior aos anjos, pois é esplendor da glória do Pai, imagem do ser do Pai, a reprodução exata e viva da substância do Pai. Diante disso devemos, portanto, estar atentos ao Filho/Palavra, pois ele transmite, de forma perfeita, a proposta salvadora que o Pai quer fazer a todos e cada um de nós.

Hoje é Natal. Nasceu para nós um Salvador, que é o Cristo Senhor. Jesus Cristo é a Palavra viva e definitiva de Deus, que revela aos homens o caminho da salvação. Celebrar o seu nascimento é acolher essa Palavra. "Escutar" essa Palavra é acolher o projeto que Jesus veio apresentar-nos e fazer dela a nossa referência, o critério fundamental que orienta as nossas opções. Aqui perguntamos: a Palavra viva de Deus (Jesus) é, de fato, a nossa referência e orienta as nossas opções? Os valores do Evangelho são os nossos valores? É preciso escutar essa Palavra viva e ver nela a Palavra perfeita, plena e definitiva com que Deus nos diz que caminho percorrer.

O Evangelho desenvolve o tema esboçado na segunda leitura e apresenta a "Palavra" viva de Deus, tornada pessoa em Jesus.

A Palavra de Deus se fez carne. Deus não é mudo. Ele não permaneceu calado, encerrado para sempre no seu Mistério. Deus quis comunicar-se com todos e cada um de nós. Deus quis falar-nos; Ele quis revelar o seu amor a todos e a cada um de nós; Deus quis explicar-nos o seu projeto, o seu plano. Jesus é de fato o Projeto de Deus feito carne.

Mas Deus não se comunicou conosco por meio de conceitos e doutrinas sublimes que só os sábios podem entender. Sua palavra encarnou-se na vida profunda de Jesus, para que até os mais simples possam entendê-lo, os que se comovem diante da bondade, do amor e da verdade que encerra sua vida.

Esta Palavra de Deus habitou entre nós. Desapareceram as distâncias. Deus se fez carne e habita entre nós. Para encontrar com Ele não precisamos sair do mundo, mas aproximarmos de Jesus.

Ninguém jamais viu a Deus. Os profetas, os sacerdotes, os mestres da Lei falavam muito de Deus, mas nenhum tinha visto seu rosto. O mesmo acontece hoje entre nós: na Igreja, falamos muito de Deus, mas nenhum de nós o viu. Só Jesus, o Filho de Deus, que está junto ao Pai, foi quem no-lo deu a conhecer.

Jamais podemos esquecer que só Jesus nos contou como é Deus. Só ele é a fonte para aproximar-nos de seu mistério. Precisamos deixar-nos atrair e seduzir por esse Deus que nos é revelado em Jesus.

Como muda tudo quando captamos enfim que Jesus é o rosto humano de Deus. Tudo se torna mais simples e mais claro. Agora sabemos como Deus nos olha quando sofremos, como nos busca quando nos perdemos, como nos entende e perdoa quando o negamos. Em Jesus nos é revelada a graça e a verdade de Deus (cf José Antônio Pagola, in O caminho aberto por Jesus [Ev. João], p.18).

A Palavra se fez carne e habitou entre nós. Hoje contemplamos esta verdade no Menino de Belém. Por isso, com nosso coração cheio de gratidão, dizemos: Obrigado, Menino de Belém, por vir partilhar conosco a tua vida e, assim, nos tornar participantes desta mesma vida. Ajuda-nos a viver intensamente este mistério, hoje e sempre. Amém!


Dom Moacir Silva
Arcebispo Metropolitano

25 de dezembro de 2018