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Paixão

O Mistério Pascal incluiu a Paixão, a Morte, a Ressurreição e a Ascensão de Jesus. Trata-se de fatos decisivos da vida de Jesus e por isso Ele anunciou aos discípulos. Os discípulos não compreenderam o sentido de tais anúncios, nem conseguiram explicar como poderia sofrer aquele que dá a vida aos outros. Somente depois da ressurreição e da vinda do Espírito Santo, compreenderam. Então entenderam a importância fundamental do Mistério Pascal, até o ponto de torná-lo em objeto privilegiado e principal da pregação. Assim nasceu o Kerigma (anúncio), isto é, apresentação essencial do que é preciso conhecer e viver para participar da salvação trazida por Jesus. É o evangelho apresentado pelo apóstolo Pedro no dia de Pentecostes: “Jesus de Nazaré [...] Deus, em seu desígnio e previsão, quis que Jesus fosse entregue pelas mãos dos ímpios, e vós o matastes, pregando-o numa cruz. Deus, porém, o ressuscitou...” (At 2, 22-24).

Os relatos da Paixão, Morte e Ressurreição, precisamente por sua importância fundamental, foram os primeiros relatos da vida e ação de Jesus que encontraram uma organização ordenada. Eram recordados de maneira habitual ao celebrar a memória da ceia e ao falar de Jesus. Não se tratava de um simples relato de cronista, como se fosse um tributo que é preciso pagar à informação ou à curiosidade, mas um anúncio carregado de fé. Trata-se de pessoas crentes que falam a outras que já creem ou que pretendem abrir-se à fé. Também hoje a acolhida destes relatos será frutuosa na medida de nossa participação na fé. Sem dúvida, estamos diante de fatos reais, lidos à luz de todo o plano divino (basta ver a abundância das citações bíblicas) e apresentados com um realismo desconcertante.


A comunidade primitiva jamais pregou a Paixão sem uni-la de uma maneira imediata e direta com a ressurreição; sem a ressurreição, a Paixão não teria significado. Separada da ressurreição, a morte de Jesus se parece com a morte de grandes homens do passado: teríamos um herói, mas não o Salvador da humanidade. Jesus seria como um derrotado, uma das vítimas inocentes e impotentes de um sistema tirânico e homicida. Entraria na regra geral e não seria notícia, e muito menos “Boa Notícia”, ou seja, precisamente Evangelho. Jesus, pelo contrário, constitui uma exceção e como tal sua vida tem sido anunciada. Jesus imprimiu uma novidade na história que permanece no tempo. Passados mais de dois mil anos, Ele continua surpreendendo e, o que é mais importante, encontrando seguidores.

Em Jesus toma corpo a figura do Servo Sofredor anunciado por Isaías, que meditaremos na Semana Santa. Sofre, porém sem culpa; morre, porém não por um castigo. Ao morrer demonstra sua solidariedade com todos os homens. Sua morte não é uma situação definitiva e, de fato resultará fecunda como o grão de trigo caído na terra (cf. Jo 12, 24).

O mistério da Ressurreição de Cristo é o mistério central do cristianismo, como recorda o apóstolo Paulo: “se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa pregação, e vã a nossa fé” (1 Cor 15, 14). Agora, a diferença da morte, que é facilmente verificável porque pertence a experiência humana, a ressurreição não se pode comprovar com os instrumentos normais de investigação. Pertence ao mundo do divino e somente por um dom pode ser conhecida e acolhida pelos homens (Fonte: Giorgio Zevini y Pier Giordano Cabra. Lectio Divina para la vida diária. Editoria Verbo Divino [Navarra], p. 5-7).

Vivamos intensamente o Mistério Pascal de Nosso Senhor Jesus Cristo, entrando na sua dinâmica de passagem da morte para a vida, das trevas para a luz, do egoísmo e do pecado para a vitória da ressurreição.

Uma feliz e santa Páscoa!


Dom Moacir Silva
Arcebispo Metropolitano

Igreja-Hoje - Abril 2019