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Homilia de Dom Moacir Silva na Missa Crismal (2019)

Homilia de Dom Moacir Silva na Missa Crismal
Catedral Metropolitana de São Sebastião
Ribeirão Preto - 18 de abril de 2019

 

Os textos litúrgicos desta Missa Crismal nos apresenta Jesus Cristo como o Ungido com o Espírito Santo (coleta), o Ungido com o óleo da alegria (Cons. do Crisma), o consagrado com a unção (Ev), o Pontífice da nova e eterna aliança (Pref.) e a testemunha fiel (Ap).

A nossa vida cristã nasce de uma vinculação com este Jesus Cristo. No Batismo fomos configurados com Jesus Cristo, a testemunha fiel. Então, também nós podemos ser testemunhas fiéis; fomos capacitados em Cristo para isso.

Aqui vale lembrar nossos compromissos batismais. No Batismo prometemos renunciar ao pecado para vivermos na liberdade dos filhos de Deus. Estou sendo fiel a esta renúncia? Como trabalhei minha conversão pessoal e comunitária ao longo desta quaresma?

No Batismo, renunciamos a tudo o que causa desunião para vivermos como irmãos. Estou atento a situações, comentários, juízos que causam desunião em casa, na família, na comunidade, no clero, no presbitério? Jesus é a testemunha fiel, e eu, estou sendo fiel a esta renúncia?

No Batismo, renunciamos ao demônio, autor e princípio do pecado para podermos seguir Jesus Cristo. Seguir Jesus Cristo comporta a luta constante contra o inimigo; o demônio, que Santo Inácio de Loyola designava como inimigo na natureza humana. Não foi atoa que Jesus ao nos dar a oração do Pai Nosso quis que a concluíssemos pedindo ao Pai que nos livrasse do Maligno.

A vida cristã é uma luta permanente. Requer força e coragem para resistir às tentações do demônio e anunciar o Evangelho. Jesus é a testemunha fiel e me capacitou para a fidelidade. Estou sendo fiel a esta renúncia batismal?

Queridos padres, Jesus é o Pontífice da nova e eterna aliança; e Ele, por amor de predileção para com todos e cada um de nós, nos associou a esta sua missão. Ele quis contar conosco. E Ele espera que sejamos, como Ele, testemunha fiel nos compromissos assumimos em nossa ordenação diaconal e sacerdotal.

Na ordenação diaconal, assumimos o compromisso de sermos colaboradores da Ordem sacerdotal [os diáconos permanentes também]; na ordenação sacerdotal assumimos a missão de sacerdote como fiel colaborador da Ordem episcopal. Fiel colaborador da Ordem episcopal! Que implicação tem para minha vida e ministério este ser fiel colaborador da Ordem episcopal? Como estou vivendo esta colaboração? Quando minha visão pastoral está acima das Normas Diocesanas; quando o trabalho que realizo é a prioridade das prioridades, estou sendo fiel colaborador da Ordem episcopal? Jesus é a testemunha fiel, e eu?

Em nossa ordenação diaconal prometemos guardar para sempre o celibato por amor ao Reino dos céus, a serviço de Deus e da humanidade. A verdadeira e profunda razão do celibato é a escolha duma relação pessoal mais íntima e completa com o mistério de Cristo e da Igreja, em prol da humanidade inteira. Nesta escolha há lugar, sem dúvida, para a expressão dos valores supremos e humanos no grau mais elevado... A escolha do celibato não comporta ignorância, ou desprezo do instinto sexual ou da afetividade, o que teria consequências certamente prejudiciais para o equilíbrio físico e psicológico do sacerdote, mas exige lúcida compreensão e atento domínio de si mesmo” (São Paulo VI, Celibato Sacerdotal, 54-55). Jesus, a testemunha fiel, nos interpela também neste aspecto da nossa vida e ministério.

Na nossa ordenação sacerdotal assumimos o compromisso de celebrar com devoção e fidelidade os mistérios de Cristo sobretudo pelo Sacrifício eucarístico e o sacramento da Reconciliação. Aqui vale a pena ter presente uma observação do Papa Emérito Bento XVI: Nossa forma de lidar com a Eucaristia só pode gerar preocupação. O Concílio Vaticano II concentrou-se justamente em devolver este sacramento da presença do corpo e do sangue de Cristo, da presença da sua pessoa, da sua paixão, morte e ressurreição, ao centro da vida cristã e à própria existência da Igreja. Em parte, isso realmente aconteceu e devemos ser gratos ao Senhor por isso.

E ainda assim uma atitude muito diferente prevalece. O que predomina não é uma nova reverência pela presença da morte e ressurreição de Cristo, mas uma maneira de lidar com Ele que destrói a grandeza do Mistério (Artigo em www.acidigital.com). Jesus, a testemunha fiel, espera nossa fidelidade ao tratarmos os Seus mistérios.

Jesus é o consagrado com a unção. Na nossa ordenação, cada um de nós se dispôs a ser consagrado com ele a Deus para a salvação da humanidade. Isso significa que não nos pertencemos mais; tudo em nós está consagrado com Cristo a Deus em vista da salvação da humanidade. Qual a consciência que tenho desta realidade? Como tenho vivido esta consagração? Jesus, a testemunha fiel, conta com nossa total dedicação.

Aproveitemos, queridos padres, este dia do nascimento do nosso sacerdócio, para refletir, redescobrindo a beleza do aconteceu em nós pela nossa ordenação, a beleza do nosso sacerdócio, a beleza de sermos na Igreja e para a Igreja uma representação sacramental de Jesus Cristo Cabeça e Pastor.

Que Maria, Mãe do Sumo e Eterno Sacerdote, nos acompanhe sempre com sua materna proteção. Amém.

 

Dom Moacir Silva
Arcebispo Metropolitano