Aprendendo com a vida

O que a pandemia do novo coronavírus (Covid-19) e o isolamento social nos traz para reflexão? Que lições podemos tirar desta experiência vivida nos últimos tempos?

Acredito que esta experiência dolorida nos leva a redescobrir o essencial em nossa vida; estávamos preocupados com tantas coisas, com tantos afazeres que pareciam necessários em nosso dia a dia, e descobrimos que não eram tão necessários assim.

Nossa vida estava marcada por um frenético corre-corre, agendas cheias, o tempo era muito curto para tudo o que devíamos fazer e, de repente, tivemos que parar, tivemos que reinventar uma série de coisas; reaprender tantas outras. Um momento rico de criatividade.

Não tínhamos tempo para nós mesmos, para um encontro consigo mesmo, para uma reflexão pessoal; não tínhamos tempo para nossa família, para o nosso convívio familiar, para o fortalecimento dos laços familiares, para a oração em família. Então, aos poucos, fomos redescobrindo esses valores necessários em nossa vida e, que, portanto, não podem mais estar ausentes na nossa vida no dia a dia.

A privação da vida comunitária presencial, da comunhão sacramental da Eucaristia nos fez redescobrir o valor e a importância da comunidade de fé; nos fez perceber melhor a necessidade de termos a comunhão com Jesus Cristo; Ele é absolutamente necessário para nós. Um dia desses alguém me disse: ‘o dia que voltarmos a participar da celebração da Santa Missa e comungar Jesus na hóstia consagrada será uma grande choradeira’.

Agora, precisamos pensar: como será o nosso pós-pandemia? O Papa Francisco, numa reflexão, partindo do tema da Ressurreição, nos ajuda; ele propõe “Um plano para Ressuscitar” da emergência da Covid-19. A certa altura, ele diz:

“Uma emergência como a do Covid-19  é  derrotada  em  primeiro lugar  com  os anticorpos da solidariedade.  Lição  que  romperá  todo  o fatalismo no qual estávamos  imersos  e permitirá voltar a sentirmo-nos artífices e protagonistas de uma história comum e, assim, responder conjuntamente a tantos males que atingem milhões de irmãos  ao  redor do mundo. Não podemos nos permitir de escrever a história presente e futura em detrimento ao sofrimento de tantos”.

“Se atuarmos como um só povo, unido diante de outras epidemias que nos rodeiam, podemos ganhar um impacto real. Seremos capazes de atuar com responsabilidade diante da fome que muitos sofrem, sabendo que temos alimentos para todos? Continuaremos olhando para o outro lado com um silêncio cúmplice diante destas guerras fomentadas por desejos de domínio e de poder? Estaremos dispostos a mudar os estilos de vida que mergulham tantos na pobreza, promovendo e animando-nos a levar uma vida mais austera e humana que possibilite uma divisão equitativa dos recursos? Adotaremos como comunidade internacional as medidas necessárias para deter a devastação do meio ambiente ou seguiremos negando a evidência? A globalização da indiferença seguirá amenizando e tentando o nosso caminho… Esperemos que nos encontre com os anticorpos necessários da justiça, da caridade e da solidariedade. Não tenhamos medo de viver a alternativa da civilização do amor, que é ‘uma civilização da esperança: contra a angústia e o medo, a tristeza e o desalento, a passividade e o cansaço. A civilização do amor se constrói no dia a dia, de modo ininterrupto. Pressupõe o esforço comprometido de todos. Supõe, para isso, uma comprometida comunidade de irmãos’”.

Estamos atravessando a pandemia; mas não estamos sozinhos nesta travessia, o Ressuscitado caminha conosco nos animando e fortalecendo com sua mensagem: Alegrai-vos. A paz esteja convosco. Não tenhais medo. Estarei convosco até o fim do mundo.

Dom Moacir Silva
Arcebispo Metropolitano

Boletim Arquidiocesano Igreja-Hoje - Maio 2020