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Misericordia et misera

Na conclusão do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, o Santo Padre, o Papa Francisco, presenteou a Igreja com a Carta Apostólica Misericordia et misera. Ele mesmo explica o sentido do título do documento: "Misericórdia e mísera (Misericordia et misera) são as duas palavras que Santo Agostinho utiliza para descrever o encontro de Jesus com a adúltera (cf. Jo 8, 1-11). Não podia encontrar expressão mais bela e coerente do que esta, para fazer compreender o mistério do amor de Deus quando vem ao encontro do pecador: 'Ficaram apenas eles dois: a mísera e a misericórdia'".

Em seguida, o Papa apresenta o motivo da carta, dizendo: "Esta página do Evangelho pode, com justa razão, ser considerada como ícone de tudo o que celebramos no Ano Santo, um tempo rico em misericórdia, a qual pede para continuar a ser celebrada e vivida nas nossas comunidades. Com efeito, a misericórdia não se pode reduzir a um parêntese na vida da Igreja, mas constitui a sua própria existência, que torna visível e palpável a verdade profunda do Evangelho. Tudo se revela na misericórdia; tudo se compendia no amor misericordioso do Pai" (1a).

Com sua linguagem simples e direta, o Papa vai mostrando que agora, após o Jubileu, "é tempo de olhar para diante e compreender como se pode continuar, com fidelidade, alegria e entusiasmo, a experimentar a riqueza da misericórdia divina. As nossas comunidades serão capazes de permanecer vivas e dinâmicas na obra da nova evangelização na medida em que a 'conversão pastoral', que somos chamados a viver, for plasmada dia após dia pela força renovadora da misericórdia. Não limitemos a sua ação; não entristeçamos o Espírito que indica sempre novas sendas a percorrer para levar a todos o Evangelho da salvação" (5a). 

O Papa Francisco mostra como as orações da Igreja, especialmente a  litúrgica  e  sacramental,  estão impregnadas de misericórdia e nos ajudam a constantemente celebrar a misericórdia divina (cf. 5). Também a Palavra de Deus; afirma o Santo Padre: "A Bíblia é a grande narração que relata as maravilhas da misericórdia de Deus [...] 'meu vivo desejo que a Palavra de Deus seja cada vez mais celebrada, conhecida e difundida, para que se possa, através dela, compreender melhor o mistério de amor que dimana daquela fonte de misericórdia'" (7a). 

Depois o Papa destaca o sacramento da Reconciliação como lugar, de forma muito particular,  da celebração da misericórdia. Aos sacerdotes, o Papa pede: "peço-vos para serdes acolhedores com todos, testemunhas da ternura paterna não obstante a gravidade do pecado, solícitos em ajudar a refletir sobre o mal cometido, claros ao apresentar os princípios morais, disponíveis para acompanhar os fiéis no caminho penitencial respeitando com paciência o seu passo, clarividentes no discernimento de cada um dos casos, generosos na concessão do perdão de Deus" (10).
    
No desejo de que nenhum obstáculo exista entre o pedido de reconciliação e o perdão de Deus, o Papa definiu: "concedo a partir de agora a todos os sacerdotes, em virtude do seu ministério, a faculdade de absolver a todas as pessoas que incorreram no pecado do aborto. Aquilo que eu concedera de forma limitada ao período jubilar fica agora alargado no tempo, não obstante qualquer disposição em contrário" (12a). Temos aqui uma novidade, pois antes, era reservado ao Bispo e ao Penitenciário. 

Outra novidade da Carta: o Dia Mundial dos Pobres. Diz o Papa: "À luz do 'Jubileu das Pessoas Excluídas Socialmente', celebrado quando já se iam fechando as Portas da Misericórdia em todas as catedrais e santuários do mundo, intuí que, como mais um sinal concreto deste Ano Santo extraordinário, se deve celebrar em toda a Igreja, na ocorrência do XXXIII Domingo do Tempo Comum, o Dia Mundial dos Pobres. Será a mais digna preparação para bem viver a solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo, que Se identificou com os mais pequenos e os pobres e nos há de julgar sobre as obras de misericórdia [cf. Mt 25, 31-46]" ( 21c).

Desejo que este texto desperte em cada um o desejo de ler a Carta Apostólica na íntegra e traduzi-la no comportamento diário.

Ajude-nos  o  nosso  Deus misericordioso.

Dom Moacir Silva
Arcebispo Metropolitano

Igreja-Hoje - Dezembro/2016