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Admirável poder da Cruz

Estamos avançando em nosso caminho quaresmal, em nosso retiro quaresmal. Já é tempo de começar a avaliar nosso processo de conversão. A quaresma, como tempo oportuno para  uma escuta mais prolongada da Palavra de Deus e para a oração, nos conduz à conversão do coração. Como estou vivendo o meu propósito para esta quaresma?

Na semana santa, nossos olhos se voltam de modo especial para a cruz do Senhor, para o Crucificado. Este olhar nos leva a contemplar o infinito amor de Deus por todos e cada um de nós. Para ajudar nossa reflexão e meditação, trago alguns trechos de um sermão de São Leão Magno, Papa. A certa altura, ele diz: “esforcemo-nos para que nossa inteligência, iluminada pelo Espírito da verdade, receba, com coração puro e livre, a glória da cruz, a qual se irradia para o céu e a terra; que seu olhar interior contemple o sentido destas palavras do Senhor, referentes à iminência da paixão: ‘É chegada a hora em que será glorificado o Filho do Homem’ e: ‘Minha alma está agora conturbada. Que direi? Pai, salva-me desta hora. Mas foi precisamente para esta hora que eu vim. Pai, glorifica o teu Filho’. Então, do céu veio a voz do Pai, dizendo: ‘Eu o glorifiquei e o glorificarei novamente’. Em seguida, dirigindo aos seus assistentes, disse Jesus: ‘Essa voz não ressoou para mim, mas para vós. É agora o julgamento deste mundo, agora o príncipe deste mundo será lançado fora; e, quando eu for elevado da terra, atrairei todos a mim”.

“Oh! Admirável poder da cruz! Oh, glória inefável da paixão. Nela se encontra o tribunal do Senhor, nela o julgamento do mundo, nela o poder do crucificado! Atraíste tudo a ti, Senhor, e, enquanto estendias durante todo um dia tuas mãos para um povo incrédulo e obstinado em contradizer-te, o mundo inteiro recebeu o entendimento para confessar tua majestade! [...] Atraíste tudo a ti, Senhor, porque, rasgado o véu do templo, o Santo dos Santos se retirou de pontífices indignos; a figura se mudou então em verdade; a profecia, em manifestação; a Lei, no Evangelho. Atraíste tudo a ti, Senhor, a fim de que o culto de todas as nações do  universo  celebre,  mediante  um sacramento pleno e manifeste, o que fazia num só templo da Judéia e sob a sombra de figuras.  Com  efeito, agora a  ordem dos levitas é mais ilustre, a dignidade dos anciãos é mais elevada e a  unção  dos  sacerdotes  é    mais   sagrada;  porque  a tua cruz é a fonte de todas as bênçãos, a causa de todas as graças;  por ela,  da  fraqueza os crentes recebem a força: do opróbrio, a  glória;  da morte,  a vida. Agora a diversidade dos sacrifícios carnais está terminada;  a  oferenda  única de teu corpo e de teu sangue consome todas as  diferenças  das vítimas; porque és tu,  o  verdadeiro Cordeiro de Deus, que  tiras  os  pecados  do mundo e completas em ti todos os mistérios, a fim de que todos os povos formem um só reino como todas as vítimas cedem o lugar a um só sacrifício”.

“Confessemos,  pois,   caríssimos,  o  que  a  voz  do bem-aventurado  doutor das nações, o apóstolo Paulo, confessou gloriosamente: ‘Fiel é esta palavra  e  digna de toda aceitação: Cristo  veio ao mundo para salvar os pecadores’. Por isso mais admirável é agora a misericórdia de Deus para conosco,  porque  Cristo morreu não por justos, nem por santos, mas por maus e ímpios. A natureza divina não podia receber o aguilhão da morte, mas, nascendo de nós, tomou o que poderia oferecer  por  nós. Outrora ele ameaçava a nossa morte com o poder de sua morte, dizendo pela boca do profeta Oséias:  ‘Ó  morte,  eu  serei  a tua morte; inferno, serei a tua moradia’. Com efeito, morrendo, ele se sujeitou às leis do túmulo, mas, ressuscitando, aboliu-as  e  assim  interrompeu  a   continuidade  da  morte, tornando-a temporal, de eterna que ela era. ‘Pois assim como todos morrem em Adão, em  Cristo  todos receberão a vida” (São Leão Magno – Oitavo Sermão sobre a Paixão do Senhor, in: Patrística 6, p. 151-153). Na expectativa desta realização,  Cristo  ressuscitado  vive   no coração de seus fiéis.

Desejo a todos uma feliz e santa Páscoa,  e  uma  profunda   vivência   da  espiritualidade  pascal,  que  se   caracteriza  pela participação na vida do Ressuscitado.


Dom Moacir Silva
Arcebispo Metropolitano

Igreja-Hoje - Março 2018