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Homilia Dom Moacir Silva - Missa da Ceia do Senhor e Lava-pés

Catedral Metropolitana de São Sebastião
Quinta-feira Santa - 29.03.2018

Liturgia
Êxodo 12, 1-8.11-14
Salmo 115(116B)
1Coríntios 11, 23-26
João 13, 1-15


Queridos irmãos, queridas irmãs! Estamos reunidos em torno do Altar do Senhor, celebrando a Eucaristia, no dia em que ela foi instituída, como tão sublime sacramento. Que privilégio! Que dom para todos e cada um de nós!

“Tendo amado os Seus que estavam no mundo, amou-os até o fim" (Jo 13, 1).

“Deus ama a sua criatura, o homem; ama-o também na sua queda e não o abandona a si mesmo. Ele ama até ao fim. Vai até ao fim com o seu amor, até ao extremo: desce da sua glória divina. Depõe as vestes da sua glória divina e reveste-se com as [vestes] do servo. Desce até a extrema baixeza da nossa queda. Ajoelha-se diante de nós e presta-nos o serviço do servo; lava os nossos pés sujos, para que possamos ser admitidos à mesa de Deus, para que nos tornemos dignos de nos sentarmos à sua mesa o que, por nós mesmos, nunca podemos nem devemos fazer”. (Bento XVI – Missa da Ceia do Senhor – 2006)

“Tendo amado os Seus que estavam no mundo, amou-os até o fim" (Jo 13, 1).

Estas palavras, narradas no trecho evangélico que acabamos de ouvir, realçam bem o clima da Quinta-Feira Santa. Elas fazem-nos intuir os sentimentos vividos por Cristo "na noite em que foi entregue" (1 Cor 11, 23) e estimulam-nos a participar com profunda e íntima gratidão no solene rito que estamos realizando.

Entramos, nesta noite, na Páscoa de Cristo, que constitui o momento dramático e conclusivo, longamente preparado e esperado, da existência terrena do Verbo de Deus.

Jesus veio para junto de nós não para ser servido, mas para servir, e assumiu sobre si os dramas e as esperanças dos homens de todos os tempos. Antecipando misticamente o sacrifício da Cruz, no Cenáculo, quis permanecer conosco sob as espécies do pão e do vinho e confiou aos Apóstolos e aos seus sucessores a missão e o poder de perpetuar a sua memória viva e eficaz no rito eucarístico.

Por conseguinte, esta celebração envolve-nos misticamente a todos e insere-nos no Tríduo Sagrado, durante o qual também nós aprenderemos do único "Mestre e Senhor" a "estender as mãos" a fim de nos dirigirmos para onde nos chama o cumprimento da vontade do Pai celeste.

“Fazei isto em memória de mim" (1 Cor 11, 24). Com este mandamento, que nos empenha a respeitar o seu gesto, Jesus conclui a instituição do Sacramento do Altar. Também no final do lava-pés Ele convida a imitá-lo: "Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz" (Jo 13, 15).

Desta forma, Jesus estabelece uma relação íntima entre a Eucaristia, sacramento do seu dom sacrifical, e o mandamento do amor, que nos compromete a receber e a servir os irmãos.

Não podemos separar a participação na mesa do Senhor do dever de amar o próximo. Todas as vezes que participamos na Eucaristia, pronunciamos nós também o nosso "Amém" diante do Corpo e do Sangue do Senhor. Desta forma comprometemo-nos a fazer o que Cristo fez, "a lavar os pés" dos irmãos, transformando-nos em imagem concreta e transparente d'Aquele que se despojou "a Si mesmo, tomando a condição de servo" (Fl 2, 7).

Disse Jesus: “se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz” Jo 13,.14-15)

“Em que consiste "lavar os pés uns aos outros"? Que significa concretamente? Eis que, qualquer obra de bondade pelo outro especialmente por quem sofre e por quantos são pouco estimados é um serviço de lava-pés. Para isto nos chama o Senhor: descer, aprender a humildade e a coragem da bondade e também a disponibilidade de aceitar a recusa e contudo confiar na bondade e perseverar nela. Mas existe ainda uma dimensão mais profunda. O Senhor limpa-nos da nossa indignidade com a força purificadora da sua bondade. Lavar os pés uns aos outros significa sobretudo perdoar-nos incansavelmente uns aos outros, recomeçar sempre de novo juntos, mesmo que possa parecer inútil. Significa purificar-nos uns aos outros suportando-nos mutuamente e aceitando ser suportados pelos outros; purificar-nos uns aos outros doando-nos reciprocamente a força santificadora da Palavra de Deus e introduzindo-nos no Sacramento do amor divino”. (Bento XVI, Missa da Ceia do Senhor – 2006).

O amor é a herança mais preciosa que Jesus deixou para todos os que ele chama para ser seu discípulo, seu seguidor. É o seu amor, partilhado pelos seus discípulos, que é oferecido nesta noite a toda a humanidade.

"Ele que amou os Seus que estavam no mundo, levou até ao extremo o Seu amor por eles" (Jo 13, 1).

Voltemos o nosso pensamento e o nosso coração para o Cenáculo, naquela última Ceia de Jesus com seus Apóstolos! Reunimo-nos com fé em torno do Altar do Senhor, fazendo o memorial da Última Ceia. Repetindo os gestos de Cristo, proclamamos que a sua morte redimiu a humanidade do pecado, e continua a dar esperança de um futuro de salvação para os homens de todas as épocas.

Compete aos sacerdotes perpetuar o rito que, sob as espécies do pão e do vinho, torna presente o sacrifício de Cristo de modo verdadeiro, real e substancial, até o fim dos tempos.

Compete a todos os cristãos tornar-se servos humildes e atentos dos irmãos para colaborarem para a sua salvação. É tarefa de cada fiel proclamar com a vida que o Filho de Deus amou os seus "até ao extremo". Nesta noite, num silêncio cheio de mistério, alimenta-se a nossa fé.

Por fim, confessamos: unidos a toda a Igreja, anunciamos a tua morte, ó Senhor. Cheios de gratidão, já vivemos a alegria da tua ressurreição. Repletos de confiança, comprometemo-nos a viver na expectativa da tua vinda gloriosa. Hoje e sempre, ó Cristo, nosso Redentor. Amém.


Dom Moacir Silva
Arcebispo Metropolitano

29 de março de 2018