<

Homilia Dom Moacir Silva - Sexta-feira da Paixão do Senhor

Catedral Metropolitana de São Sebastião
Sexta-feira da Paixão do Senhor - 30.03.2018

Isaías 52, 13-53, 12
Salmo 30(31)
Hebreus 4, 14-16;5, 7-9
João 18, 1-19, 42


Queridos irmãos e queridas irmãs, estamos reunidos, celebrando a Paixão e Morte de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual a nossa morte foi destruída. Diz Santo Efrém que “Nosso Senhor foi calcado pela morte, mas Ele, por sua vez, esmagou a morte como quem pisa aos pés o pó do caminho. Sujeitou-se à morte e aceitou-a voluntariamente, para destruir aquela morte que não queria morrer”.

A Sexta-feira Santa é um dia polarizado liturgicamente em torno da Paixão do Senhor e da sua morte na Cruz. Hoje se cumpriu o repetido anúncio de Jesus nos Evangelhos sobre a sua morte violenta em Jerusalém.

A Paixão de Jesus não é apenas um sofrimento físico como nunca visto, mas é, sobretudo, um sofrimento total que O envolve integralmente: espírito, alma e corpo. O sofrimento de sua alma ultrapassa todas as medidas, mergulhando em profundezas inimagináveis.

O valor da dor, da paixão e da morte de Cristo tem sua raiz no significado que recebem de uma finalidade superior: a salvação do homem, a quem Deus ama.

A Palavra de Deus, aqui proclamada, nos introduz no mistério da paixão e da morte de Cristo.

Escutemos de novo o profeta: “... ele tomava sobre si as nossas enfermidades e sofria, ele mesmo, nossas dores... ele foi ferido por causa de nossos pecados, esmagado por causa de nossos crimes; a punição a ele imposta era o preço da nossa paz, e suas feridas, o preço da nossa cura”.

O profeta nos ajuda a compreender a nossa parcela de responsabilidade no sofrimento de nosso Redentor: “ele foi ferido por causa de nossos pecados”. Eu e você, nós estávamos presentes no sofrimento de Jesus, pois como diz São Paulo na Carta aos gálatas: “o Filho de Deus me amou e se entregou por mim” (Gl 2, 20)

Diante dessa maior consciência de nossa parcela de responsabilidade no sofrimento de nosso Redentor, quais sentimentos brotam no nosso coração? Que apelos isso faz para o nosso comportamento, no dia a dia? Que apelos isso faz para o nosso relacionamento com Deus e com o próximo?

Meditando o Evangelho, especialmente os relatos da Paixão e os outros textos relacionados a ela, percebemos os sentimentos de Jesus diante do desafio do sofrimento da sua Paixão. (Pai se for possível, afasta de mim este cálice, contudo, não se faça a minha vontade, mas a tua); aqui pensamos tanto nos sofrimentos físicos: tortura, flagelação, coroação de espinhos, crucifixão, como também os sofrimentos psíquicos: traição de Judas, negação de Pedro, deserção geral dos discípulos, ingratidão do povo judeu, ódio dos seus chefes religiosos.

E Jesus aceita o plano do Pai, abraça o plano do Pai: “não se faça a minha vontade, mas a tua vontade”. “Nesta transformação do "não" em "sim", nesta inserção da vontade da criatura na vontade do Pai, Ele transforma a humanidade e nos redime. E nos convida a entrar nesse seu movimento: sair do nosso "não" e entrar no "sim" do Filho. Minha vontade existe, mas a decisiva é a vontade do Pai, porque esta é a verdade e o amor” (Bento XVI, Quarta-feira Santa 2011). O motivo e a razão da obediência de Cristo é a vontade do Pai, que é a salvação do homem.

Por nós e para nossa salvação, Jesus desceu do céu; se fez homem, obediente até morte e morte de Cruz. A segunda leitura afirma: “Mesmo sendo Filho, aprendeu o que significa a obediência a Deus, por aquilo que ele sofreu. Mas na consumação de sua vida, tornou-se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem”.

O mistério da cruz na vida de Jesus – e, portanto, também na nossa – é revelação máxima de amor, pois não há modo mais verdadeiro de expressar amor do que dar a vida por aquele a quem se ama. A história de amor que é a vida, paixão e morte de Cristo pede a todos e a cada um de nós uma resposta também de amor. Qual será a minha resposta? Em que ponto da minha vida, a vivência do amor está mais fragilizada?

Acreditamos e dizemos que a cruz é o sinal do cristão não por masoquismo espiritual, mas porque a cruz é fonte de vida e de libertação total, como sinal que é do amor de Deus pelo homem por meio de Jesus Cristo. O amor que testemunha a sua cruz é a única força capaz de mudar o mundo, se nós que somos seus discípulos seguirmos o seu exemplo.

Jesus podia ter salvado a humanidade com triunfo, poder e glória; isto é, a partir de fora, como um super-homem. Mas ele preferiu salvar a humanidade a partir de dentro de nossa condição humana; ele preferiu ser um de nós, testemunhando humildade, serviço, obediência e renúncia.

O Senhor nos convida a segui-lo na renúncia que nos liberta, abraçando com amor a cruz de cada dia, sempre presente de uma ou de outra forma, e da qual inutilmente tentaremos escapar. Saber sofrer por amor é grande sabedoria. O que quiser salvar a sua vida vai perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa, vai salvá-la, disse Cristo. Deixemo-nos guiar por Ele até a cruz; recebamos a oferta do seu corpo imaculado.

O segredo da cruz de Jesus é o amor, e a única maneira de entendê-la e convertê-la em fonte de vida é amar generosamente a Deus e aos irmãos.

Meus irmãos e minhas irmãs, abramos nosso coração e nosso espírito diante do mistério da Paixão e Morte de Jesus. Deixemos que o Espírito Santo nos relembre tudo o que aconteceu com Jesus neste momento supremo de sua vida terrena.

Por fim, peçamos a graça de vivermos de modo digno de remidos pela Paixão do Senhor. Amém.

Dom Moacir Silva
Arcebispo Metropolitano