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Homilia Dom Moacir Silva - Vigília Pascal

Catedral Metropolitana de São Sebastião
Vigília Pascal - 01.04.2018


Queridos irmãos e queridas irmãs, estamos aqui reunidos em torno do altar do Senhor, mergulhados no sublime mistério desta Noite Santa, celebrando solenemente a Vigília Pascal, a celebração mais importante do ano, a mãe de todas as vigílias.

Iniciamos esta Vigília com a bênção do fogo. Com esse fogo acendemos o Círio Pascal, no qual vemos o Cristo ressuscitado. O Círio aceso foi trazido em procissão para dentro da Igreja, como a verdadeira luz que vem iluminar a nossa noite. Diante dessa luz, anunciamos a vitória do nosso Rei Jesus e, depois ouvimos o próprio Deus nos falando, quando foram proclamadas as leituras.

No inicio da criação, “Deus viu tudo quanto havia feito, e eis que tudo era muito bom” (Gn 1, 31). A Abraão Deus prometeu: “Por tua descendência serão abençoadas todas as nações da terra” (Gn 22, 18). Foi-nos proposto novamente um dos mais antigos cantos da tradição hebraica, que revela o antigo êxodo quando “o Senhor livrou Israel das mãos dos egípcios” (Ex 14, 30).

Nesta noite de Ressurreição inicia-se tudo novamente desde o principio; a criação recupera o seu autêntico significado no plano da salvação. É como um novo início da história e do cosmo, porque Cristo ressuscitou dos mortos “como primícias dos que morreram” (1Cor 15, 20).

No Evangelho, temos o relato da surpreendente experiência vivida por Maria Madalena e Maria, a mãe de Tiago, e Salomé que vão ao sepulcro no primeiro dia depois do sábado para venerar o corpo de Jesus, que, tendo sido crucificado na Sexta-Feira, foi envolvido às pressas num lençol e lá depositado.

Ao chegar lá, uma grande surpresa: a pedra que fechava o sepulcro tinha sido retirada. Um jovem está ali para tranqüilizar as corajosas mulheres e dar a grande notícia: “Não vos assusteis! Vós procurais Jesus de Nazaré, que foi crucificado. Ele ressuscitou. Não está aqui”! Temos aqui uma revelação de Deus, uma revelação que ilumina o estranho fato constatável do “não está aqui”. Isto nos diz que a fé na ressurreição não nasce do sepulcro vazio, mas de uma revelação divina; o túmulo vazio não é a explicação da ressurreição, mas é a ressurreição que explica o porquê do túmulo vazio.

Jesus, “morrendo destruiu a morte e ressurgindo, deu-nos a vida” (Prefácio da Páscoa I) Ele ressuscitou. A vida venceu a morte. Com sua ressurreição, Jesus abriu as portas da vida para todos nós. A morte não tem mais a última palavra.

O Apóstolo São Paulo, escrevendo aos cristãos de Roma, nos apresenta uma profunda reflexão sobre a ressurreição de Jesus, fazendo uma ligação com o Batismo.

Mergulhar na água (= batizar-se) era - e é – um jeito ritual da pessoa mergulhar em Jesus Cristo com tudo o que ele significa de total doação, solidariedade, entrega da própria vida, e vitória sobre a morte. É também, ao mesmo tempo, um deixar que este Cristo mergulhe e tome conta da pessoa que nele acreditou. É o que vai acontecer com quatro pessoas, logo mais, na liturgia batismal.

Batizados (mergulhados) que fomos em Cristo, é na sua morte que fomos batizados, nos diz Paulo. Não dá para esquecer isso. Assim sendo, fomos então sepultados (enterrados) com Cristo, para que, como ele ressuscitou dos mortos, “também nós levemos uma vida nova”. Esta vida nova consiste no serviço desinteressado ao Senhor. Foi o que pedimos na oração desta missa: “despertai na vossa Igreja espírito filial para que, inteiramente renovados, vos sirvamos de todo o coração”.

No Batismo, o Senhor entra na nossa vida pela porta do nosso coração. A realidade do Batismo consiste nisto: Ele, o Ressuscitado, vem; vem até nós e une a sua vida com a nossa conservando-nos dentro do fogo vivo do seu amor. Passamos a ser uma unidade: sim, um só com Ele e, deste modo, um só entre nós. Num primeiro momento, isto pode parecer bastante teórico e pouco realista. Mas quanto mais vivermos a vida de batizados, tanto mais poderemos experimentar a verdade desta palavra. As pessoas batizadas e crentes nunca são verdadeiramente estranhas uma à outra. Podem separar-nos continentes, culturas, estruturas sociais ou mesmo distâncias históricas. Mas, quando nos encontramos, reconhecemo-nos com base no mesmo Senhor, na mesma fé, na mesma esperança e no mesmo amor, que nos formam. Então experimentamos que o fundamento das nossas vidas é o mesmo. Experimentamos que, no mais fundo do nosso íntimo, estamos ancorados à mesma identidade, a partir da qual todas as diferenças exteriores, por maiores que sejam, resultam secundárias. Os crentes nunca são totalmente estranhos um ao outro. Estamos em comunhão por causa da nossa identidade mais profunda: Cristo em nós. Deste modo, a fé é uma força de paz e reconciliação no mundo: fica superada a distância, no Senhor tornamo-nos próximos (cf. Ef 2, 13)[cf. Bento XVI, Vigila Pascal 2009].

Que esta celebração pascal nos fortaleça em nossa caminhada de filhos e filhas de Deus e nos conserve sempre unidos no amor com que Cristo nos amou para anunciarmos o seu evangelho, a sua pessoa, vida, morte e ressurreição. Queremos realizar e celebrar o encontro pessoal com ele, nesta celebração comunitária. Queremos segui-lo e ajudar as pessoas a se encontrarem com Ele. Que o Senhor nos ajude, hoje e sempre. Amém!


Dom Moacir Silva
Arcebispo Metropolitano