“Chamados pelo Espírito Santo” é o título de abertura da Parte I – O Coração da Sinodalidade, do Documento Final do Sínodo dos Bispos (2021-2024), e reúne os números 13 a 48. Na epígrafe o texto evangélico diz: “No primeiro dia da semana, ao amanhecer, enquanto ainda estava escuro, Maria Madalena foi a túmulo e viu que a pedra tinha sido removida. Então, saiu correndo e foi ao encontro de Simão Pedro e do outro discípulo, aquele a quem Jesus amava (Jo 20, 1-2)”. O caminho sinodal tem sua raiz na experiência comunitária do reconhecimento e do seguimento do Cristo ressuscitado. A Igreja missionária e sinodal deve testemunhar a ressurreição de Jesus como sinal da paz e dom do Espírito, esperança para vencer o medo, a dúvida e o pecado, e caminhar juntos na fé pascal.
O tópico “A Igreja Povo de Deus, sacramento de unidade” (n. 15-20), reforça o Batismo como a fonte da identidade do povo de Deus. É do batismo que como filhos de Deus nasce a Igreja sinodal missionária: “O povo de Deus a caminho do Reino é continuamente alimentado pela Eucaristia, fonte de comunhão e unidade”. A Igreja não se constitui como uma simples soma de batizados, mas reúne os batizados em contextos enraizados nas Igrejas locais, vivificada pela comunhão: “No santo Povo de Deus, que é a Igreja, a comunhão dos fiéis (communio Fidelium) é, ao mesmo tempo, a comunhão das Igrejas (communio Eccleisarum), que se manifesta na comunhão dos Bispos (communio Episcoporum), em virtude do antiquíssimo princípio de que ‘a Igreja está no Bispo e o Bispo está na Igreja’”. A igreja sinodal missionária é chamada a ser pobre – com os pobres, condição implícita na fé cristológica. Portanto, precisa “escutá-los e considerá-los promotores da evangelização, aprendendo juntos a reconhecer os carismas que eles recebem do Espírito.
Com o tema “As raízes sacramentais do Povo de Deus”, este tópico nos ajuda a olhar a Igreja sinodal missionária em sua diversidade de vocações, carismas e ministérios: “O Batismo é o fundamento da vida cristã, porque introduz todos no maior dom: ser filhos de Deus, isto é, participantes da relação de Jesus com o Pai no Espírito”. Uma dignidade que nos faz participantes do múnus profético de Cristo. Como participantes da missão profética de Cristo, através do testemunho de fé e caridade, fortalecida pelo sensus fidei, podemos entender intuitivamente e discernir a verdade na comunhão com os Pastores da Igreja. A compreensão do Batismo somente é assimilada na esfera da Iniciação Cristã, no itinerário “pelo qual o Senhor, mediante o ministério da Igreja e dom do Espírito, nos introduz na fé pascal e nos insere na comunhão trinitária e eclesial”. A ação pastoral revela a participação do povo de Deus para avançar na consciência sinodal. Outro ponto importante consiste na ligação entre a assembleia eucarística (synaxis) e a assembleia sinodal (synodos). “As assembleias sinodais são acontecimentos que celebram a união de Cristo com a sua Igreja por meio da ação do Espírito Santo”.
A prática eclesial de dialogar, discernir e decidir é uma constante prática eclesial na tradição da Igreja. O tópico “Significado e dimensões da sinodalidade” busca esclarecer o sentido da sinodalidade na vida da Igreja. “A sinodalidade é o caminhar juntos dos cristãos com Cristo para o Reino de Deus, em união com toda a humanidade, orientada para a missão, implica o encontro em assembleia nos diversos níveis da vida eclesial, a escuta recíproca, o diálogo, o discernimento comunitário, a formação de consensos como expressão da presença de Cristo no Espírito e a tomada de uma decisão em corresponsabilidade diferenciada”. De maneira detalhada a sinodalidade apresenta três aspectos distintos na vida da Igreja: 1) Um estilo próprio na vida e missão exprimindo a sua natureza de como caminhar juntos através da escuta comunitária da Palavra e da celebração Eucaristia, da fraternidade da comunhão e corresponsabilidade; 2) Um ponto de vista teológico e canônico das estruturas e processos eclesiais no campo institucional; e 3) Um acontecimento pontual de eventos sinodais específicos organizados pela disciplina eclesiástica para questões particulares. Enfim, na eclesiologia conciliar do Povo de Deus, o conceito de comunhão manifesta a substância profunda do mistério e da missão da Igreja, que encontra na celebração da Eucaristia a fonte e seu ponto culminante: a união com Deus Trindade e a unidade entre as pessoas humanas que se realiza em Cristo por meio do Espírito Santo.
No tópico “A unidade como harmonia” nos defrontamos com uma sociedade individualista, e o processo sinodal nos ajuda a perceber a dimensão das inter-relações: “Não é isolando-se que o homem se valoriza a si mesmo, mas relacionando com os outros e com Deus, pelo que estas relações são de importância fundamental (CV, n. 53)”. A Igreja sinodal se caracteriza pela “valorização dos contextos, das culturas, das diversidades e das relações entre si é uma chave para crescer como Igreja sinodal missionária e caminhar, sob o impulso do Espírito Santo, para a unidade visível dos cristãos”. A unidade não é uniformidade, mas o respeito a variedade dos dons do Espírito e das tarefas das comunidades. Aqui sobressai a imagem da orquestra e a variedade de instrumentos musicais necessárias para a beleza e harmonia da música.
A espiritualidade sinodal é uma disposição espiritual que permeia a vida cotidiana dos batizados nascida da ação do Espírito Santo e requer: escuta da Palavra de Deus, contemplação, silêncio e conversão do coração. Ela também exige ascese, humildade, paciência e disponibilidade para perdoar e ser perdoado. O caminho da espiritualidade sinodal exige o acompanhamento espiritual comunitário na comunidade. A profundidade espiritual firmada na graça traduzirá em frutos a experiência espiritual em processos comunitários. O instrumento para fazer a espiritualidade sinodal é a conversa no Espírito: “conversar ‘no Espírito’ significa viver a experiência da partilha à luz da fé e da procura do querer de Deus, em uma atmosfera na qual o Espírito Santo pode fazer ouvir a sua voz inconfundível”. Em nossa Arquidiocese temos incentivado nos encontros pastorais, nas reuniões, nas diversas ações evangelizadoras a metodologia da Conversação Espiritual.
O último tópico: “A sinodalidade como profecia social” trata da prática do estilo sinodal em cenários marcados pela desigualdade social, guerras, desencanto com a democracia, aumento das tendências autocráticas e autoritárias, o preconceito, a violência, em sermos voz profética respondendo ao isolamento social e ao individualismo, e praticando o cuidado mútuo, a promoção da justiça, do diálogo e do bem comum. “O modo sinodal de viver as relações é uma forma de testemunho à sociedade. (…) A disponibilidade para a escuta de todos, especialmente os mais pobres, contrasta fortemente com um mundo em que a concentração do poder exclui os pobres, os marginalizados, as minorias e a Terra, nossa Casa Comum”.
Caminhemos juntos de encontro ao coração da sinodalidade, expressão da missão e do testemunho do Cristo Ressuscitado.
Dom Moacir Silva
Arcebispo Metropolitano
Boletim Informativo Igreja-Hoje
Junho/2026



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