A Política Melhor

A partir deste mês de maio, vou reproduzir neste espaço alguns pontos da Carta Encíclica Fratelli Tutti Sobre a Fraternidade e a Amizade Social, do Papa Francisco, especialmente do capítulo V, que tem como título “A Política Melhor”.

O Papa lembra que para se tornar possível o desenvolvimento de uma comunidade mundial capaz de realizar a fraternidade a partir de povos e nações que vivam a amizade social, é necessária a política melhor, a política colocada ao serviço do verdadeiro bem comum. Mas hoje, infelizmente, muitas vezes a política assume formas que dificultam o caminho para um mundo diferente.

Logo no começo deste capítulo, o Papa chama a atenção para a questão do populismo e do liberalismo. Ele afirma que o desprezo pelos vulneráveis pode esconder-se em formas populistas que, demagogicamente, se servem deles para os seus fins, ou em formas liberais ao serviço dos interesses econômicos dos poderosos. Em ambos os casos, é palpável a dificuldade de pensar num mundo aberto onde haja lugar para todos, que inclua os mais frágeis e respeite as diferentes culturas.

Nos últimos anos, os termos “populismo” e “populista” invadiram os meios de comunicação e a linguagem em geral, perdendo assim o valor que poderiam conter para compor uma das polaridades da sociedade dividida. Chegou-se ao ponto de pretender classificar os indivíduos, os grupos, as sociedades e os governos a partir da divisão binária “populista” ou “não populista”. Já não é possível que alguém manifeste a sua opinião sobre um tema qualquer, sem tentarem classificá-lo num desses dois polos: umas vezes para o desacreditar injustamente, outras para o exaltar desmedidamente.

Mas a pretensão de introduzir o populismo como chave de leitura da realidade social contém outro ponto fraco: ignora a legitimidade da noção de povo. A tentativa de fazer desaparecer da linguagem esta categoria poderia levar à eliminação da própria palavra “democracia”, cujo significado é precisamente “governo do povo”. Contudo, para afirmar que a sociedade é mais do que a mera soma de indivíduos, necessita-se do termo “povo”. Aqui é preciso ter presente que pertencer a um povo é fazer parte duma identidade comum, formada por vínculos sociais e culturais. E isto não é algo de automático; muito pelo contrário: é um processo lento e difícil… rumo a um projeto comum. Qual é o projeto comum para o povo brasileiro? Qual é o projeto de nação brasileira? Como cidadão e cristão é preciso refletir sobre isso. Em tempo de processo eleitoral é preciso trazer isso para a reflexão. A 6ª Semana Social Brasileira (SSB), em andamento, pode contribuir muito nesta reflexão.

A respeito das visões liberais, o Papa recorda que a categoria de povo, que inclui intrinsecamente uma avaliação positiva dos vínculos comunitários e culturais, habitualmente é rejeitada pelas visões liberais individualistas, que consideram a sociedade como uma mera soma de interesses que coexistem. Falam de respeito pelas liberdades, mas sem a raiz de uma narrativa comum. Em certos contextos, é frequente acusar como populistas os que defendem os direitos dos mais frágeis da sociedade.

Com relação ao mercado, o Papa constata que o mercado, por si só, não resolve tudo, embora às vezes nos queiram fazer crer neste dogma de fé neoliberal. Trata-se dum pensamento pobre, repetitivo, que propõe sempre as mesmas receitas perante qualquer desafio que surja. E o Papa observa: por um lado, é indispensável uma política econômica ativa, visando promover uma economia que favoreça a diversificação produtiva e a criatividade empresarial, para ser possível aumentar os postos de trabalho em vez de os reduzir. A especulação financeira, tendo a ganância de lucro fácil como objetivo fundamental, continua fazendo estragos. Por outro lado, sem formas internas de solidariedade e de confiança mútua, o mercado não pode cumprir plenamente a própria função econômica. E, hoje, foi precisamente esta confiança que veio a faltar.

No próximo mês, continuaremos.

Dom Moacir Silva
Arcebispo Metropolitano

Boletim Informativo Igreja Hoje
Maio/2022

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