A Semana da Presença: Celebração e Apostolado

A fim de comemorar o cinquentenário da criação do bispado de Ribeirão Preto, Dom Luís convocou, em 1958, uma semana de reflexão que visava formar o povo diocesano acerca da fé católica na lógica da presença do cristão na sociedade. Por isso, foi denominada de Semana da Presença, com o objetivo de pensar a Igreja em seu papel de instituição divina, que se dividia regionalmente em dioceses para estar presente e acessível a todos os povos. Nesse sentido, se enfatizaria a emergente situação eclesial na segunda metade do século XX: o apostolado leigo e sua difusão na sociedade.

Discurso de Dom Luís

Em preparação para a supracitada semana, o Diário de Notícias passou a publicar, meses antes, lembretes sobre o evento, que ocorreria entre 1 e 8 de junho. O cronograma temático deveria ser pregado pelos vigários em todas as matrizes da diocese, assim como o bispo pregaria em Ribeirão Preto. Dom Luís colaborava semanalmente com artigos no jornal diocesano e, nessa ocasião, aproveitou para explicar sobre a comemoração que se aproximava. Insistiu em tratar sobre o primado pontifício e a obediência que todos os católicos devem ao papa, do mesmo modo que explanou sobre o múnus do bispo e sua função de governar buscando a unidade. Nesse ponto, explicava que “ninguém, portanto, pertencerá à Igreja de Deus senão através da Diocese” (Diário de Notícias, 04/05/1958) e que nesta deveriam congregar em harmonia os ministros ordenados, os consagrados e os leigos apóstolos.

Assim, a Semana da Presença representa, além de uma comemoração, a ocasião de formação sobre a vivência religiosa diocesana, visando atualizá-la para se alcançar a atuação apostólica consciente. O jubileu de ouro do bispado era o momento oportuno para acentuar que o cristão detinha uma missão enquanto batizado e crismado e sua tarefa contemplava a sua filial relação com Deus, a sua responsabilidade de adulto espiritual e “de missionário, de profeta e de apóstolo” (Diário de Notícias, 25/05/1958).

Leigos e Bispos

O símbolo feito para a Semana bem explica esse sentido: a cruz e a tocha unidas pelo anel. A cruz avermelhada memorava o madeiro em que Cristo remiu os pecados da humanidade ao passo que a chama da tocha significava o novo homem dotado da graça, além de remeter ao sobrenatural da vida humana e, por fim, o anel, que simbolizava a união discipular com Cristo.

O programa da Semana partia das pregações de caráter universal – a presença da Santíssima Trindade entre si e no ser humano – rumo ao particular – o leigo presente nas paróquias e na diocese. Tornava-se clara a senda trilhada, que buscava evidenciar o apostolado leigo. O encerramento, marcado para o dia 8 de junho, seria o grande dia da presença pois em Ribeirão Preto se concentrariam delegações paroquiais dos 56 municípios que à época compunham o território diocesano e, também, receberia bispos de diversas regiões do país.

Um dia antes do início do evento, em 31 de maio, chegou a notícia da elevação da diocese à arquidiocese e da nomeação de Dom Luís do Amaral Mousinho para arcebispo metropolitano. Por isso, a Semana foi também momento comemorativo dos fiéis da recém-elevada arquidiocese, que eram “mais de milhão” e estavam presentes desde “o rio Mogi até as barrancas do Rio Grande” (Nosso Comentário, Diário de Notícias, 01/06/1958).

As pregações de Dom Luís foram proferidas no Salão Nobre da Sociedade Legião Brasileira, com a participação de aproximadamente 500 pessoas e, nas matrizes das cidades, os seus vigários pregaram para a comunidade paroquial presente.

O encerramento se realizou na Praça das Bandeiras, na esplanada da Catedral, contando com a presença de seis bispos. Por não poder comparecer, o Núncio Apostólico Dom Armando Lombardi enviou a carta congratulatória do Papa Pio XII, assim como as suas felicitações, por meio do Mons. Mário Pio Gasperi.

Foi celebrado o pontifical durante a manhã e, à tarde, houve o desfile das delegações, que levavam os andores de seus padroeiros. A fala mais esperada foi a de Dom Hélder Câmara, bispo auxiliar do Rio de Janeiro e Secretário-Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), criada anos antes em outubro 1952. Ele encerrou a Semana da Presença com discurso proferido na praça para todos os fiéis concentrados.

Pregação

Em suma, a Semana da Presença contempla um aspecto que marca o governo de Dom Luís do Amaral Mousinho em Ribeirão Preto: o incentivo ao apostolado leigo no contexto da atualização e da unidade. A preocupação com a formação se tornou, desde sua chegada à diocese, um ponto central de ação pastoral, que permaneceu como objetivo até o final de sua vida.

Conta Monsenhor Lauriano em Bispos e Arcebispos de Ribeirão Preto que pouco mais de um mês antes de falecer, Dom Luís foi ao retiro de carnaval organizado pela Federação Arquidiocesana das Congregações Marianas para cumprimentar os participantes e dar-lhes a bênção. Falou, então, sobre seu objetivo de construção de um seminário dos leigos que ficaria ao lado do Seminário Arquidiocesano Maria Imaculada, em Brodowski – SP. Essa casa própria para o laicato continuaria a concretizar o seu ideal de formação e atualização do apostolado leigo da Igreja particular.

No entanto, combalido por um câncer que lhe esmorecera, não pôde contribuir de maneira ativa nos trabalhos preparatórios do episcopado brasileiro para o Concílio Ecumênico Vaticano II. Mesmo hospitalizado, ainda escreveu a Dom Hélder Câmara indicando suas sugestões, às quais consta a sua preocupação com a vivência da fé do povo e de sua ação apostólica. Dom Luís do Amaral Mousinho faleceu na Oitava de Páscoa em 24 de abril de 1962 aos 49 anos, tendo governado a Igreja de Ribeirão Preto por dez anos e buscado assiduamente a atualização do apostolado, sobretudo dos leigos católicos.

Bruno Paiva Meni
Arquivo Metropolitano “Dom Manuel da Silveira D’Elboux”

2º Artigo – Série Histórica: Especial 50 anos da Casa Dom Luís
(A partir de 14 de agosto de 2021, mensalmente no dia 14 de cada mês, publicaremos um artigo histórico por ocasião do jubileu de ouro da Casa Dom Luís)

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