Fraternidade e amizade social

A Campanha da Fraternidade (CF) é, desde as suas origens, há 60 anos, uma ação evangelizadora da Igreja do Brasil, uma expressão eloquente da necessária e desejada Pastoral de Conjunto. Não é uma ação desta ou daquela pastoral, desta ou daquela comunidade, paróquia ou Diocese, mas de toda a Igreja Católica Apostólica Romana presente no território brasileiro e reunida na comunhão de seus Bispos, legítimos sucessores dos Apóstolos, na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
A CF tem clara consciência de ser uma campanha quaresmal que une em si as exigências da conversão, da oração, do jejum e da esmola vividas na linha de uma questão humana e social relevante para o país como um todo. A CF é o modo brasileiro de celebrar a Quaresma.
Neste ano a CF tem como tema: “Fraternidade e amizade social” e como lema a afirmação de Jesus: “Vós sois todos irmãos e irmãs” (cf. Mt 23,8).
O Texto-Base (TB) é a grande orientação da CF e impulsiona à reflexão. Introduzindo o tema, ele afirma: “A amizade, esse sentimento fiel de estima entre as pessoas, é um dom de Deus, um fenômeno humano universal, que nasce da livre oferta de si mesmo para abrir-se ao mistério do outro” (TB 6). Em seguida, busca nos clássicos (Platão, Aristóteles, Santo Tomás de Aquino…) o conhecimento do significado da amizade. Depois o TB se volta para a Encíclica Fratelli Tutti (FT) do Papa Francisco, na qual ele apresenta o seu projeto de fraternidade, baseado na amizade social e no amor político, tendo o diálogo como caminho necessário para a cultura do encontro (cf. TB 15).
O número 16 do TB é muito importante: “Mas, o que é amizade social? Deixemos que o próprio Papa Francisco nos responda: amizade social é “amor que ultrapassa as barreiras da geografia e do espaço” (FT, 1); amizade social é “uma fraternidade aberta, que permite conhecer, valorizar e amar todas as pessoas, independentemente da sua proximidade física” (FT, 1); amizade social é  um amor “desejoso de abraçar a todos” (FT, 3); amizade social é “comunicar com a vida o amor de Deus, recusando impor doutrinas por meio de uma guerra dialética” (FT, 4); amizade social é viver livre “de todo desejo de domínio sobre os outros” (FT, 4); amizade social é “o amor que se estende para além das fronteiras” (FT, 99), “para todo ser vivo” (FT, 59); amizade social é o “amor que rompe as cadeias que nos isolam e separam, lançando pontes; o amor que nos permite construir uma grande família na qual todos nós podemos nos sentir em casa (…). “Amor que sabe de compaixão e dignidade” (FT, 62); amizade social é a nossa “vocação para formar uma comunidade feita de irmãos que se acolhem mutuamente e cuidam uns dos outros” (FT, 96); amizade social é “a capacidade diária de alargar o meu círculo, chegar àqueles que espontaneamente não sinto como parte do meu mundo de interesses, embora se encontrem perto de mim” (FT, 97); amizade social é “o amor [que] implica algo mais do que uma série de ações benéficas. As ações derivam de uma união que propende cada vez mais para o outro, considerando-o precioso, digno, aprazível e bom, independentemente das aparências físicas ou morais. O amor ao outro por ser quem é impele-nos a procurar o melhor para a sua vida. Só cultivando essa forma de nos relacionarmos é que tornaremos possível aquela amizade social que não exclui ninguém e a fraternidade aberta a todos” (FT, 94).
A primeira parte do TB é o VER a realidade, motivado pela frase bíblica: “Onde está o teu irmão?” (Gn 4,9) e afirma: somos todos irmãos. Em seguida apresenta os sinais de divisões e inimizades, sobras de um mundo fechado; lembra as marcas da nossa sociedade: “Nossa sociedade, hoje, está dividida” (TB, 42). Lembra a crise do pertencimento e a questão das identidades, a síndrome de Cain, as causas que geram e alimentam a inimizade. Por fim, destaca os sinais que suscitam e sustentam a amizade social.
A segunda parte é o ILUMINAR, motivado pela frase: “Vós sois todos irmãos e irmãs” (Mt 23,8), lembrando que o único Mestre é Jesus, que o único Pai é o do céu e que o único guia é o Espírito Santo que gera diversidade de carismas e ministérios. Chama a atenção para a espiritualidade de comunhão e afirma que a fraternidade está no coração do Evangelho.
A terceira parte é o AGIR, motivado pela frase: “Alarga o espaço da tua tenda” (Is 54,2), apresenta sugestões de ação para alargar o espaço da minha tenda pessoal, da nossa tenda comunitário-eclesial e da nossa tenda social. No Domingo de Ramos participaremos da Coleta Nacional da Solidariedade, fruto de nossa penitência quaresmal. Avancemos em nossa conversão quaresmal, concretizando a amizade social no nosso dia a dia.
Dom Moacir Silva

Arcebispo Metropolitano

 

Boletim Informativo Igreja-Hoje
Janeiro/Fevereiro – 2024

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