Páscoa: passagem da morte para a vida nova em Cristo

Páscoa: passagem da morte para a vida nova em Cristo

A caminhada quaresmal iniciada na Quarta-feira de Cinzas nos ajudou a viver através da oração, da penitência, da esmola e do jejum, uma forte preparação para a Páscoa. O Papa Francisco na Mensagem para a Quaresma intitulada: “Através do deserto, Deus guia-nos para a liberdade” nos motivou a agir, a vivermos uma passagem de superação do pecado em direção a alcançarmos em Jesus Cristo uma vida renovada: “É tempo de agir e, na Quaresma, agir é também parar: parar em oração, para acolher a Palavra de Deus, e parar como o Samaritano em presença do irmão ferido. O amor de Deus e o do próximo formam um único amor. Não ter outros deuses é parar na presença de Deus, junto da carne do próximo. Por isso, oração, esmola e jejum não são três exercícios independentes, mas um único movimento de abertura, de esvaziamento: lancemos fora os ídolos que nos tornam pesados, fora os apegos que nos aprisionam”.

Aproxima-se a celebração do grande acontecimento da nossa salvação: o mistério pascal da sagrada Paixão, Ressurreição dos mortos, e gloriosa Ascensão de nosso Senhor Jesus Cristo. “Por este mistério, Cristo, morrendo, destruiu a morte e ressuscitando, recuperou a nossa vida” (SC, 5). Vamos mergulhar neste mistério de morte e ressurreição para morrermos para o pecado e ressuscitarmos para vida nova em Cristo.

Vivemos num mundo, no qual percebemos muitos sinais de morte (ex.: violência, injustiças, corrupção, polarização, narcotráfico, tráfico humano, aborto, terrorismo, exclusão social…). Num mundo marcado por sombras da morte, somos chamados como discípulos missionários de Jesus Cristo a realizar uma missão para comunicar a vida, pois “a proposta de Jesus Cristo a nossos povos, o conteúdo fundamental dessa missão, é a oferta de vida plena para todos” (DA, 360). Para isso, precisamos da força do Vivente, aquele que venceu a morte. Pelo seu mistério pascal Cristo infunde em nós esta força.

Na Solene Vigília Pascal ouviremos o anúncio da Ressurreição, o anúncio da vitória da vida sobre a morte. Esta é a grande notícia que nos enche de esperança, pois com a Ressurreição de Jesus a morte não tem mais a última palavra, ela foi vencida pela vida. Somos chamados a viver e anunciar esta verdade, defendendo e promovendo o dom da vida humana.

Viver a ressurreição, hoje, significa proclamar com fé que Jesus “morreu por nossos pecados” (1Cor 15, 3), “ressuscitou dos mortos” (1Cor 15, 20) e que o “Vivente… vive pelos séculos dos séculos” (Ap 1, 18). Tal é a convicção das primeiras testemunhas: “é isso que tanto eu como eles temos pregado e é essa a fé que abraçaste” (1Cor 15, 11). E é decisiva: “se Cristo não ressuscitou, a nossa pregação é sem fundamentos, e sem fundamento também a vossa fé” e “somos, dentre todos os homens, os mais dignos de compaixão” (1Cor 15, 14.17.19). Esta é a pregação dos apóstolos que chegou até nós e alimenta nossa fé e esperança.

A ressurreição de Cristo representa também a passagem obrigatória do homem para chegar a “uma esperança viva” (1Pd 1, 3). E se trata de uma garantia. De fato “se já morremos com Cristo, cremos que também viveremos com ele. Sabemos que Cristo, ressuscitado dos mortos, não morre mais. A morte não tem mais poder sobre ele” (Rm 6, 8-9). E também: “Ressuscitados com Cristo” nós devemos “buscar as coisas do alto” (Cl 3, 1). A nossa ressurreição com Cristo encontra Nele o seu fundamento e a realização, e apoia-se sobre a certeza de que Cristo ressuscitou dos mortos uma vez para sempre. Em Jesus Cristo nós passamos da morte para a vida. Mas esta passagem da morte para a vida, vivemos na esperança.

Na celebração da Páscoa somos chamados a contemplar o Ressuscitado, a crer na Ressurreição e testemunhá-la com nossa vida, no dia a dia. De que maneira podemos ser testemunhas da Ressurreição do Senhor? Somente se tivermos passado pela experiência da ressurreição. E o que significa passar pela experiência da ressurreição?

No batismo nós passamos da morte para vida. Se pudermos afirmar que, a partir daquele momento, a nossa vida mudou completamente e que nada restou em nós da vida antiga, podemos apresentar-nos como testemunhas da ressurreição.

Se nas nossas comunidades todos vivem como ressuscitados, se foram abandonadas as obras da morte: os ódios, os rancores, as invejas, se não foram mais cometidas violências, vinganças…, então podemos proclamar-nos testemunhas da ressurreição. Ninguém poderá duvidar do nosso testemunho: está fundado em fatos que todos podem verificar. Ser cristão é essencialmente ser testemunha, em atos e palavras, do significado da presença de Jesus no meio de nós.

Somos chamados a sermos testemunhas do Cristo vivo no nosso meio. Viveremos essa missão vivendo a vida nova orientada pelos valores do Evangelho; a vida nova marcada pela fé, pela esperança e pela caridade. Deixemos a riqueza da Ressurreição de Cristo invadir todo o nosso ser, para nos tornarmos melhores discípulos missionários.

Desejo a todos uma feliz e santa Páscoa, e uma profunda vivência da espiritualidade pascal, que se caracteriza pela participação na vida do Ressuscitado.

Dom Moacir Silva
Arcebispo Metropolitano

Boletim Informativo Igreja-Hoje
Março/2024

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