Um trabalhador no silêncio: o centenário do Diácono Del Lama

Antônio discursando no Seminário Maria Imaculada

Um trabalhador no silêncio: o centenário do Diácono Del Lama

Com o Concílio Vaticano II floresceu na Igreja um novo entendimento pastoral no qual o ministério diaconal se evidenciava como necessário para os novos tempos. Conferido a homens de serviço em suas comunidades, o diaconato permanente se difundiu pelas dioceses de todas as partes do mundo, sobretudo na América Latina.

Na carta apostólica Ad pascendum de 1972 em que o Papa Paulo VI trata sobre o diaconato, expõe as virtudes específicas para o exercício desse ministério que remonta à época dos apóstolos: “fidelidade a Cristo, integridade moral e submissão ao Bispo”. Tais disposições foram inteiramente observadas pelo Diác. Antônio Del Lama, o 3º diácono permanente ordenado na Arquidiocese de Ribeirão Preto, cujo centenário é celebrado hoje.

Filho de imigrantes italianos, Antônio ainda adolescente demonstrava interesse pelo trabalho na Igreja. Na década de 1940, sob a orientação dos monges beneditinos olivetanos, tornou-se professor de catecismo na Reitoria Santo Antoninho Pão dos Pobres, em Ribeirão Preto – SP, além de ser congregado mariano. A passagem do tempo apenas reafirmou o seu caráter servidor. Carpinteiro profissional de exímia habilidade técnica, colocava-se a serviço da Igreja através da feitura de móveis e da sua força de trabalho. Casou-se com Aparecida Carlucci, com quem teve 14 filhos. Ela o sustentava em sua vocação de ajudar os mais necessitados ao cuidar da família enquanto ele realizava com diligência as ações eclesiais.

Nas obras da Vila Carvalho

Nesse contexto, Antônio participou ativamente da construção de casas para as populações carentes no bairro Vila Carvalho. O trabalho não se restringia à edificação. Apesar de alguns homens caçoarem dele, ele aproveitava os períodos de descanso na obra para falar aos pobres sobre a fé católica. Do mesmo modo, em 1962, fez as camas para o uso dos seminaristas do Seminário Maria Imaculada, em Brodowski – SP, e integrou a comissão para a construção da Casa Dom Luís, na qual se empenhou laboralmente.

Falando aos moradores do bairro

Cultivou amizade com os arcebispos de Ribeirão Preto aos quais serviu de diversas maneiras, a exemplo de Dom Frei Felício César da Cunha Vasconcellos, OFM, que na época em que sua doença se agravou, Antônio lhe fazia os curativos em suas escaras. Dom Bernardo José Bueno Miele foi quem o chamou ao ministério diaconal em um momento de implementação desse serviço na Arquidiocese. Tendo o apoio da família, ele foi ordenado no dia 22 de maio de 1977, aos 54 anos, na Igreja Abacial Santo Antônio de Pádua, nos Campos Elíseos. Apesar da resistência à aceitação da presença dos diáconos permanentes em algumas localidades, Antônio, agora conhecido como Diác. Del Lama, exerceu seu ministério cuidadosamente a fim de atender a todos que necessitavam de assistência.

Sua ordenação diaconal
Diác. Del Lama durante celebração na Paróquia Nossa Senhora das Graças, hoje capela.

Dom Miele nele confiava e, pessoalmente, orientou o povo sobre o respeito e o trabalho em conjunto com o diácono. A Paróquia Nossa Senhora das Graças – hoje capela –, sita à Rua Padre Euclides, nº 49, por ele foi administrada durante anos, tendo sido provisionado como “Diácono paroquial”, já que à época, por falta de sacerdotes, os diáconos eram responsáveis por paróquias e comunidades em formação. Os arcebispos subsequentes permaneceram dando-lhe as condições para o trabalho. Ademais, a pedido de Dom Arnaldo Ribeiro, tornou-se responsável pelo Cemitério da Saudade, onde conseguiu organizar a assistência religiosa de modo a fomentar a participação assídua dos fiéis.

Mesmo com idade avançada, era constantemente procurado para realizar exéquias nos velórios da cidade. Contava com mais de 35 anos de ministério e permanecia atuante em suas funções litúrgicas, sendo o diácono permanente mais idoso do Brasil. Todavia, a morte de seu filho Maurício em 2013, juntamente com a morte de sua esposa no ano seguinte, deixou-o abalado e enfraquecido, o que fez com que sua família optasse por afastá-lo de suas atividades. Sua filha Margarida relata que essa decisão o entristeceu pois ele não queria deixar de dedicar-se à Igreja como fez durante a vida inteira. Pouco tempo depois, em 2016, aos 94 anos, Diác. Del Lama faleceu, deixando como lembrança seu exemplo de servidor e grandes obras realizadas em silêncio.

Bruno Paiva Meni
Arquivo Metropolitano “Dom Manuel da Silveira D’Elboux

 

D. Arnaldo e diáconos permanentes em 1990

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