A centenária Capela Santo Antônio – Pão dos Pobres

A mais antiga igreja edificada em Ribeirão Preto, patrimônio cultural da cidade é a Capela Santo Antônio, localizada na Avenida Saudade,202, Campos Elíseos.

A história da Capela Santo Antônio remonta ao final do século XIX, quando milhares de imigrantes italianos dentre outros estrangeiros como portugueses, espanhóis chegaram a Ribeirão Preto para trabalhar atraídos pela riqueza do café ou em outras atividades.

O contexto favorável para a imigração trouxe milhares de pessoas para a região, que procedentes de outro país, outra realidade social, cultural, econômica e religiosa levaram a Igreja Católica e o Papa Leão XIII a se pronunciar em 1888, por meio de uma Carta de Recomendação, onde pedia-se a proteção dos italianos que imigraram para a América, incentivando a vinda de missionários para prestar assistência religiosa aos imigrantes.

Por outro lado, a Igreja Católica, separada do Estado desde a Proclamação da República, com o fim do Regime de Padroado Régio, em que o Estado (monarquia) administrava os negócios eclesiásticos e inclusive cobrava os dízimos, ela viu-se livre para organizar e administrar as paróquias, e atrair novas ordens religiosas para evangelizar a população. O momento era propício para expansão da Igreja sem as amarras do Estado, mas também de concorrência com outras forças. Era preciso fazer frente à modernidade, ao liberalismo, ao avanço de outras crenças e solidificar o catolicismo procedente da herança colonial.

Foi neste contexto que foi construída em Ribeirão Preto uma capela na periferia daquela época, na estrada para o Cemitério da Saudade, saída para Batatais, no bairro Campos Elíseos, bairro que começava a ser ocupado principalmente pelos imigrantes que desembarcavam na estação Barracão.

Padre Giberto Kasper, reitor da Capela Santo Antônio, Pão dos Pobres afirma que

“A pedra fundamental, segundo informações da Cúria da Arquidiocese de São Paulo, foi implantada em 1892. O templo é o mais antigo, em pé, da cidade de Ribeirão Preto. Foi capela da Vila Emília, depois da Família Proença da Fonseca e em 1989, através de inventário assinado pela então última herdeira viva, Hilma Proença da Fonseca Mamede, foi doada à arquidiocese de Ribeirão Preto “para cultivar a fé católica da Família Proença da Fonseca” (Kasper) .

A construção da Capela foi solicitada em 1899 pelo vice-cônsul de Portugal em Ribeirão Preto, Alfredo Vianna Pinto de Souza. O santo de dedicação era o popular santo reconhecido em Portugal e na Itália, local de procedência de milhares de imigrantes que chegavam a Ribeirão Preto.

A bênção da Capela de Santo Antônio dos Pobres, conhecida também como Santo Antoninho Pão dos Pobres, ocorreu no dia 10 de maio de 1903. Foi preparada uma grande festa com uma procissão, com as imagens de São Sebastião, padroeiro da cidade e Santo Antônio de Lisboa e Pádua, saindo da matriz de São Sebastião para a Capela.

A procissão foi acompanhada pelo padre coadjutor da paróquia de São Sebastião, Pe. Euclides Gomes Carneiro, pelo Frei Eugenio do Carmo, superior dos Agostinianos Recoletos e Frei Ângelo Sagastume das Dores, da Congregação Agostiniana e pelo sr. Alfredo Vianna Pinto de Souza, fundador da capela de Santo Antônio dos Pobres, dentre outras pessoas devotas do santo identificado com os descendentes de portugueses e italianos.

O documento feito pelo escrivão Salvador Balisa, se encontra no Arquivo Público de Ribeirão Preto, no Fundo José Pedro de Miranda, nos permite identificar os principais personagens envolvidos no ato de inauguração da Capela, pois contém as assinaturas de várias pessoas presentes.

Descrevemos de acordo com a grafia da época os nomes: Salvador Balisa, escrivão; Padre Euclydes Gomes Carneiro; Eugenio S. do Carmo, Frei Ângelo Sagastume das Dores; Alfredo Vianna Pinto de Souza; Luiz Pinto Furtado Motta; José Antonio Sarmento; João Passig; Antão Adelino Mendes; J. Jacinto de Oliveira; Francisco Ambrosio; Antonio Bellonzi; Elias Alves; Juvenal de Sá Macedo; Antonio Caetano Alves; José Cordeiro da Silva; João Machado T. Cavalcanti; Justiniano de Souza Pinto; Antonio Francisco Ricardo; José Augusto dos Santos; Joaquim José da Costa; Pedro Giroldo. (Documento Avulso).Após a benção da Capela Santo Antônio Pe. Euclides falou brevemente a respeito do tema da caridade. Em seguida foi rezada a ladainha com as preces e os fiéis junto com os padres retornaram em procissão para a matriz com o andor de São Sebastião.

Com a autorização das autoridades da Igreja a Capela de Santo Antônio estava oficialmente apta para que nela pudessem celebrar missas, batizados, casamentos e demais atos do culto católico.


Cópia da Ata de Bênção da Capela de Santo Antônio dos Pobres, AHRP, Fundo José Pedro de Miranda.

Quais os outros sinais por trás da inauguração desta capela? Nas décadas seguintes os imigrantes portugueses devotos de Santo Antônio de Lisboa e os imigrantes italianos devotos de Santo Antônio de Pádua encontraram acalento e mitigaram a saudade da terra natal na Capela sob a invocação de Santo Antônio.

Santo Antônio nasceu em Portugal e faleceu na Itália. Procedente de Lisboa, em Portugal

“onde entrou para a Ordem dos Cônegos Regulares da Santa Cruz. Estudou em Coimbra, doutor da Igreja, honra concedida pelo Papa Pio XII; morou em Portugal, Itália e na França. Entrou para a Ordem dos Frades Menores – OFM, onde fez parte do Capítulo Geral da Ordem convocado por São Francisco de Assis (fundador da Ordem). Como franciscano pregou contra os hereges, foi um teólogo reconhecido em seu tempo, místico, grande orador e asceta; seus sermões são conhecidos pela familiaridade com a Palavra de Deus. Foi professor nas Universidades de Bolonha na Itália, Toulouse e Montpellier na França (Freitas, Schiavinato, 2022, p. 82 ).”

O popular santo que conviveu com São Francisco de Assis, teve sua devoção propagada no Brasil desde o início da colonização portuguesa e é conhecido como um dos três santos juninos – Santo Antônio, São João e São Pedro.

Santo Antônio no imaginário coletivo deu nome a cidades, comércios variados, ruas, fazendas e sua festa é uma das mais populares no Brasil. A festa, no dia 13 de junho, é cercada de lendas, promessas que estão relacionadas ao casamento e a abundância de alimentos. Os pães bentos de Santo Antônio são distribuídos em todas as igrejas e estão identificados com a proteção do santo contra a fome nas famílias.

Com toda essa história do santo fica fácil entender o sucesso com que a identidade com o santo cresceu no Brasil. Em Ribeirão Preto, terra que recebeu milhares de imigrantes italianos e muitos portugueses, a popularidade da devoção ao santo levou os fieis a frequentar a capela que leva seu nome.

Inúmeros relatos do começo do século XX contam que os sermões das missas na Capela Santo Antônio eram proferidos em italiano, o que atraia os imigrantes. Outro fator de atração era a localização no bairro dos Campos Elíseos, região que acolheu muitos imigrantes e mais próxima da estação Barracão onde desembarcava a grande maioria deles.

A Capela de Santo Antônio desta maneira representava um espaço de reconhecimento das identidades culturais ligadas a língua, a devoção ao santo, local de encontro com os irmãos de pátria, seja italianos ou portugueses.

Por várias décadas ela permaneceu como este local de encontro de famílias e amigos até a construção da igreja Santo Antônio dos padres Beneditinos Olivetanos, situada nos Campos Elíseos a poucas quadras da capela de Santo Antônio.

Após a década de 1950 quando a Paróquia de Santo Antônio passou a funcionar com os padres Beneditinos, a pequena Capela de Santo Antônio foi deixada de lado por muitas pessoas que passaram a frequentar as missas e outras atividades como casamentos, batizados, etc. na paróquia, cuja arquitetura atraia cada vez mais pessoas.

A fragilidade arquitetônica da Capela mais antiga de Ribeirão Preto vem sendo testada por inúmeros contratempos como assaltos, roubos da fiação e de objetos litúrgicos, bem como a ação do tempo no edifício.

Em 2009 o CONPPAC, Conselho de Patrimônio do município reconheceu a Capela de Santo Antônio – como um dos patrimônios da cidade de Ribeirão Preto, não só por ser a mais antiga em funcionamento como também pela simbologia da história da Capela. O reconhecimento não garante a integridade do bem cultural. É preciso uma mobilização por parte da comunidade para a preservação do mesmo, o que não acontece no caso da frágil e importante Capela de Santo Antônio.

O que significa um patrimônio de uma cidade? Os bens culturais reconhecidos como patrimônio estão relacionados com a história da comunidade, com a identidade da mesma. Importa fazer memória das pessoas que ao longo de mais de um século frequentaram a pequena Capela dedicada ao popular Santo Antônio.

A edificação preservada para as gerações seguintes contam a história da cidade, dos imigrantes e de outras pessoas que por ali passaram para rezar, seja para pedir ou agradecer a Deus por bênçãos recebidas por meio de Santo Antônio.

Cabe a cada um de nós, independente da crença, (uma vez que estamos tratando de um bem cultural reconhecido) preservar e mais ainda, mostrar para as gerações futuras a importância deste espaço reconhecido como uma das edificações mais antigas da cidade de Ribeirão Preto.

Referências

DOCUMENTO AVULSO. Arquivo Público de Ribeirão Preto. Fundo José Pedro de Miranda.

LEÃO XIII. Carta de Recomendação para que protejam os italianos que imigraram para a América.

FREITAS, N. M. B. de. SCHIAVINATO, P. L. Memórias das devoções centenárias da Arquidiocese de Ribeirão Preto. Ribeirão Preto, 2022.

KASPER, G. Os 122 anos da Santo Antoninho.
Disponível em: https://arquidioceserp.org.br/os-122-anos-da-santo-antoninho/.


Nainôra Maria Barbosa de Freitas

Graduada, mestre e doutora em História – UNESP – Franca SP. Professora de História da Igreja no curso de Teologia do Centro de Estudos da Arquidiocese de Ribeirão Preto – CEARP; membro CEHILA – Centro de Estudos de História da Igreja Latino Americana – núcleo Brasil

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