A ecoante voz do Arcebispo Franciscano (1965-1972)

Frei Felício, bispo. Imagem: Arquivo Metropolitano.

“Estava ele predestinado a um império sem ódio e a vitórias sem armas”. Dessa forma a vida de Dom Frei Felício César da Cunha da Vasconcelos, OFM, foi definida pelo Côn. Arnaldo Álvaro Padovani no réquiem a ele dedicado no sétimo dia de sua morte.

Sendo o primeiro religioso a governar a Arquidiocese de Ribeirão Preto, Dom Frei Felício César da Cunha Vasconcelos, do hábito franciscano, esforçou-se para estar próximo do clero, atender à falta de assistência religiosa nas comunidades, tal como aplicar pastoralmente as diligências do Concílio Vaticano II. À frente da Igreja particular como o terceiro arcebispo metropolitano, exerceu seu ministério em uma época marcadamente conflituosa e, apesar das dificuldades advindas de sua permanente doença, esteve disposto a defender os sacerdotes de seu presbitério e a amparar os fiéis que lhe solicitaram ajuda.

Arcebispo Coadjutor de Florianópolis. Imagem: Museu do Seminário Maria Imaculada. Brodowski – SP.

No ambiente característico da natureza dos pampas, em meio às tradicionais manifestações culturais gaúchas e à forte religiosidade, nasceu em 25 de maio de maio de 1904 César da Cunha Vasconcelos, no distrito de Dores de Camaquã, no município de Tapes/RS. A morte do pai, anos depois, legou-lhe a responsabilidade pela sua família, que se transferiu para Porto Alegre, onde ele trabalhou como bancário. No entanto, logo ingressou no seminário diocesano em São Leopoldo e, anos mais tarde, em 1933, foi ordenado presbítero. Então, exerceu seu vicariato em paróquias da capital sul-rio-grandense, compondo o clero secular.

Foi nessa época que lhe surgiu o desejo de tornar-se religioso missionário. Então, Pe. César ingressou na Ordem dos Frades Menores, a fim de viver de acordo com a regra de São Francisco de Assis e adotou o nome de frei Felício. Em sua experiência noviciária, que durou um ano, escreveu um poema devocional à Virgem Maria, livro o qual intitulou de Palavras e Gestos de Mãe. Logo professou solenemente seus votos e foi enviado a missionar no Estado do Rio de Janeiro. Sua homilética marcava os que o ouviam pela profundidade reflexiva que causava, aliada a uma voz forte que ao mesmo tempo era harmoniosa.

Bula de nomeação. Imagem: Museu do Seminário Maria Imaculada. Brodowski – SP.

Nomearam-no coordenador das missões franciscanas nos estados do sul do Brasil e frei Felício atuava nas comunidades rurais da região. Em 1949, o Papa Pio XII o elegeu bispo da Sé de Penedo no interior de Alagoas. Saía da simplicidade da vida missionária para ir à responsabilidade do episcopado. No sertão nordestino, trabalhou a fim de desenvolver materialmente a diocese e melhor assistir espiritualmente aquele povo. Assim, uniu-se aos lavradores e seminarista e foi aos campos plantar e colher coco objetivando levantar fundos para a construção de um seminário próprio.

Aclamação ao Arcebispo. Imagem: Arquivo Metropolitano.

Sua dinâmica vida missionária não cessou. Percorria o território diocesano que se estendia das margens alagoanas do Rio São Francisco até a divisa com Pernambuco. Assim permaneceu até o ano de 1957, quando foi nomeado arcebispo coadjutor de Florianópolis e passou a residir no convento franciscano da cidade. Dom Joaquim Domingos de Oliveira, o arcebispo titular, não lhe atribuía muitas funções, o que lhe dava abertura para fazer o que desejava: pregar aos padres. Isso acabou por aproximá-lo do clero, ajudando-o a encontrar soluções para os problemas que afligiam a realidade daquela Igreja.

Dada a transferência de Dom Agnelo Rossi para o arcebispado de São Paulo, o Papa Paulo VI nomeou Dom Frei Felício para a vacante Arquidiocese de Ribeirão Preto. Dupla festividade ocorreu naquele dia 19 de junho de 1965: o aniversário do município e a chegada do novo arcebispo. Em sua saudação, ele enfatizou, sobretudo, o anúncio da paz e a bondade a que buscava no exercício de seu ministério.

Bênção de Posse. Imagem: Arquivo Metropolitano.

Dom Frei Felício foi responsável por colocar em prática as matérias dos documentos do Concílio Vaticano II, o qual participou da 4ª sessão, pouco depois de sua posse. Dessa forma, instituiu o Conselho Presbiteral e fortaleceu a participação do laicato na Arquidiocese, a exemplo de seu apoio ao Movimento de Cursilhos de Cristandade. Pautando-se no Plano de Pastoral de Conjunto da CNBB, criou o Secretariado Arquidiocesano de Pastoral, cujo primeiro coordenador foi o ainda Côn. Angélico Sândalo Bernardino.

Apesar de manter-se integralmente responsável pelo governo arquidiocesano, solicitou ao Papa um arcebispo coadjutor que lhe auxiliasse nas atividades pastorais. Foi assim que Dom Bernardo José Bueno Miele chegou a Ribeirão Preto. Escreveu Côn. Arnaldo Álvaro Padovani que os dois arcebispos, “como verdadeiros irmãos, vivendo a amizade que se fundamenta no Coração de Deus, trabalharam juntos desde o primeiro até o último momento de fraternal convivência nesta Arquidiocese”.

Juntos, prepararam a criação da Diocese de Franca, que teve seu território desmembrado totalmente da jurisdição da Igreja de Ribeirão Preto, do mesmo modo que contribuíram para a formação da Diocese de Barretos.

D. Felício e Côn. Arnaldo Álvaro Padovani. Imagem: Arquivo Metropolitano.

Dom Frei Felício encarou com prudência as situações ocasionadas pela tensão própria do período político de seu tempo. O regime de exceção que se instalara no Brasil a partir do golpe civil-militar em 1964 se tornou mais rígido na época de seu arcebispado e o clero de Ribeirão Preto reagiu, sobretudo por meio do jornal Diário de Notícias, em que apresentava visão favorável às reformas de base propostas por João Goulart e colocava-se contrário às crescentes arbitrariedades que ocorriam. Alguns sacerdotes foram intimados a prestar depoimento e outros, ainda, conduzidos coercitivamente à delegacia mediante truculência.

A condição se extremou quando, em 1969, a Ir. Maurina Borges da Silveira, da Congregação das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição foi presa e violentamente interrogada. Como diretora do Lar Sant’Ana, que acolhia meninas órfãs da cidade, cedeu uma sala da instituição para jovens que se diziam de movimentos católicos, mas utilizavam o espaço para militância política voltada à luta armada. A freira, ao tomar conhecimento da natureza das reuniões, ordenou que se queimassem os materiais que ali haviam sido deixados pelos jovens.
Como resultado da Operação Bandeirantes (Oban), ela foi levada à delegacia, onde foi torturada física e psicologicamente. Dom Frei Felício, então, gozando de sua autoridade de arcebispo e apoiado por seu presbitério, optou por outorgar a excomunhão aos dois delegados – Soares e Lamano – que seviciaram Ir. Maurina. Essa atitude causou comoção nos meios oficiais, visto que grande parte dos policiais e militares se considerava católica.

D. Miele e D. Felício. Imagem: Museu do Seminário Maria Imaculada. Brodowski – SP.

Do mesmo modo, quando uma manifestação de universitários foi severamente reprimida pela cavalaria policial, os estudantes correram para o interior da Catedral Metropolitana de São Sebastião para se abrigarem e os policiais, tentando buscá-los dentro do templo, foram impedidos por Dom Frei Felício, que os proibiu de entrar e ordenou que fossem embora. Aconselhou, ainda, que os universitários regressassem a suas casas e continuassem os estudos pois o protesto já havia terminado.

O povo arquidiocesano e o clero se mantiveram obedientes e em unidade com o arcebispo franciscano que, mesmo enfermo, os acompanhava. Por consequência de um câncer, Dom Frei Felício César da Cunha Vasconcelos, OFM, sofreu um distúrbio circulatório e, após receber a bênção dos enfermos pelas mãos de seu coadjutor, Dom Miele, faleceu na tarde do dia 11 de julho de 1972. Seu governo na Igreja de Ribeirão Preto marcou as atualizações eclesiais propostas pelo Concílio, assim como respondeu às necessidades que o período político lhe impunha. Ecoa, ainda, a voz do arcebispo franciscano: “A Igreja, até hoje, jamais se omitiu na luta pelos direitos da pessoa humana”.

Bruno Paiva Meni
Arquivo Metropolitano “Dom Manuel da Silveira D’Elboux”

FONTES

CORREIA, Côn. Francisco de Assis. História da Arquidiocese de Ribeirão Preto (1908-2008). Editora Grafcolor, 2008.

LAURIANO, Monsenhor Dr. João. Bispos e Arcebispos de Ribeirão Preto. Cúria Metropolitana, 1975.

LIVRO TOMBO N° 11. Arquidiocese de Ribeirão Preto, Cúria Metropolitana. Arquivo Metropolitano “Dom Manuel da Silveira D’Elboux”.

PADOVANI, Côn. Arnaldo Álvaro. Traços biográficos de Dom Frei Felício da Cunha Vasconcellos. Arquivo Metropolitano “Dom Manuel da Silveira D’Elboux”.

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