Apostolado Leigo e o ideal de Dom Luís

Consentire Romano Pontifici. O lema episcopal escolhido por Dom Luís do Amaral Mousinho – expressão latina que significa “Aderi ao Romano Pontífice” – representa um dos pilares fundantes de sua atuação na Igreja: a unidade. Ao colocar-se em união estrita com o Papa Pio XII em seu entendimento pastoral e teológico, Dom Luís desejou atualizar a Diocese de Ribeirão Preto para que o apostolado fosse praticado integralmente por todos os católicos, de modo especial pelos leigos, a fim de construírem “um novo mundo social para Cristo” (Acta Apostolicae Sedis, 1944).

Para isso, o bispo se dedicou a ensinar iniciando pela noção de diocese. Para ele, não se podia perder de vista que esta é uma parte delimitada territorialmente que está sob a jurisdição de um bispo, a quem se confia o governo em seus âmbitos espiritual e temporal. Da mesma forma como a Igreja deve estar em unidade com o papa, assim também a diocese deve estar próxima ao seu bispo. Dom Luís, portanto, insistia em falar da unidade mística da família diocesana e de seu espírito sadio.

É nesse contexto que se deve pensar a pastoral do bispo pernambucano na particular Igreja do interior de São Paulo. Os movimentos leigos se espraiavam de modo a fomentar sua participação na realidade eclesial: a Ação Católica foi ponto chave para que o catolicismo se difundisse e, desse modo, ocupasse novos espaços. Fundada em 1929 por ordem pontifícia de Pio XI, a Ação Católica objetivava expandir a influência do catolicismo na sociedade em setores que eram de precedência dos leigos, tornando-se subsidiária na missão de evangelização. No Brasil, a Ação Católica Brasileira como associação civil foi criada em 1935, passando a se desenvolver nas dioceses em seções específicas, próprias às mulheres e aos homens casados, aos jovens operários, aos universitários e aos secundaristas.

No plano internacional, o laicato se organizava a fim de melhor atuar socialmente. Ocorreu na cidade de Roma, em 1951, o I Congresso Mundial dos Leigos, sob os auspícios de Pio XII, que pregava a concórdia e a unicidade da ação, já que todos detinham o mesmo objetivo. Do mesmo modo, em 1957, o II Congresso trouxe outras contribuições ao laicato, chamando-o corresponsável pela Igreja e garantindo-lhe sua própria organização, com o auxílio da hierarquia eclesiástica. Sobre isso, Dom Luís comenta em um de seus artigos semanais: “Todo batizado é Igreja e responde pelos seus destinos, cometimentos e problemas” (Diário de Notícias, 13/10/1952).

O apostolado apresentava uma multiplicidade de formas, com ações individuais e coletivas, que estavam presentes nos campos cultural, caritativo, civil e religioso, sempre assistidos por clérigos. Todavia, na década de 1950 a Ação Católica no Brasil passou por uma reestruturação na qual se tornava mais independente das dioceses, aproximando-se dos modelos que vigiam na França e na Bélgica. Na Diocese de Ribeirão Preto, apesar disso, Dom Luís conseguiu impulsionar a Ação e tê-la como parte importante no seu incentivo à missão leiga.
Ele buscava, sobretudo, a atualização do apostolado que deveria se pautar na unidade de espírito e de ação. Esclarecia, portanto, que “ser atual […] não é modificar o Evangelho: é colocá-lo ao alcance dos homens obcecados, desajustados e sofredores dos nossos dias” (Primeira Carta Pastoral, 1952). Dom Luís pretendia tornar a fé católica interessante e atraente a todos os diocesanos, em consonância com o caminhar da Igreja pela direção do papa e com os princípios doutrinários. Por isso, falava diretamente aos trabalhadores – na figura do operário – e incentivava as instituições e os movimentos leigos, a exemplo das equipes marianas, dos vicentinos e da Liga das Senhoras Católicas.


Nesse sentido, a Igreja devia ser compreendida em suas duas dimensões: como instituição divina, era imaculada e expressão visível de Cristo no mundo; e como comunidade humana e social, falha e em constante necessidade de aperfeiçoar-se. Dom Luís entende, então, que a exposição da fé ao mundo é o ponto central do apostolado, que, ao estar atualizado, contribui efetivamente para a evangelização. Contudo, a atualização devia ser exercida à luz da prudência apostólica, considerando a região a ser trabalhada pastoralmente e suas características.

De fato, o apostolado dos leigos e a sua adequada formação foi uma das grandes preocupações expressas por Dom Luís. Preparar o laicato a fim de que obras culturais, assistenciais e sociais fossem comandadas por leigos era um caminho para mostrar que a diocese e seu bispo se abriam a todos e com todos cumpriam sua missão. Diz ele que, assim, “a Igreja atestará aos homens sua universal solicitude e os tornará simpatizantes ou propensos aos problemas e tesouros sobrenaturais” (Primeira Carta Pastoral, 1952).

Por esse motivo, era preciso dar as bases para a formação integral dos católicos militantes, para que estivessem preparados humana e intelectualmente para seu apostolado e seu serviço na diocese.

Bruno Paiva Meni
Arquivo Metropolitano “Dom Manuel da Silveira D’Elboux”

1º Artigo – Série Histórica: Especial 50 anos da Casa Dom Luís
(A partir de 14 de agosto de 2021, mensalmente no dia 14 de cada mês, publicaremos um artigo histórico por ocasião do jubileu de ouro da Casa Dom Luís) 

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