Atualização e Unidade: o governo de Dom Luís do Amaral Mousinho (1952-1962)

Primeiros anos de episcopado. Imagem: Dioc. de Cajazeiras.

“BENDITO O QUE VEM EM NOME DO SENHOR”. Essa antífona era repetida nas estações ferroviárias pelas quais passava o trem da Companhia Mogiana que levava, rumo a Ribeirão Preto, o terceiro bispo diocesano Dom Luís do Amaral Mousinho para sua posse.

Filho de José Gabriel Mousinho e de Feliciana do Amaral Mousinho, Luís nasceu na tropical região da Zona da Mata pernambucana, em Timbaúba, no ano de 1912. Oriundo de uma família numerosa e católica, ingressou no Seminário de Olinda aos 12 anos, onde realizou os estudos preliminares para em 1930 ir completar sua formação em Roma, licenciando-se em filosofia e teologia. Lá foi ordenado presbítero e permaneceu até 1939, quando regressou ao Brasil.

Diário de Notícias. Imagem: Biblioteca CEARP.

Em Pernambuco, trabalhou como professor e, posteriormente, foi provisionado para a função magistral de reitor do Seminário Maior de Olinda e Recife. Tendo ficado vaga a sé de Cajazeiras, na Paraíba, Pe. Luís foi nomeado seu bispo diocesano, visto que sua atuação já era reconhecida pela hierarquia eclesiástica nordestina. Logo após sua sagração episcopal, passou a residir e a exercer seu ofício nas terras cajazeirenses até em 1952, quando foi nomeado bispo da Diocese de Ribeirão Preto, que permanecia vacante desde a transferência de Dom Manuel da Silveira D’Elboux.

Então, Dom Luís chegou à diocese em 10 de junho de 1952 sob um “mau tempo então reinante, garoento e frio” que não atrapalhou a recepção preparada pelos seus diocesanos. No Boletim Diocesano, contou-se que havia “faixas estendidas ao alto e em estandartes conduzidos pelas representações de várias Paróquias da Diocese” que expressavam “a alegria da alma católica ribeiropretana que estava em festa”.

À frente do bispado que se consolidava na região e agregava mais pessoas à população católica – o que era desejado pela Santa Sé desde a criação da diocese no começo do século XX – Dom Luís se dedicou a visitar e conhecer a realidade das paróquias e a incentivar os estudos pastorais e sociais do clero. Aos leigos, orientava-os em sua participação nas Federações Marianas, estimulando a espiritualidade familiar, pois, em seu entendimento era a vida engajada que integrava os fiéis ao autêntico catolicismo.

Posse em Ribeirão Preto. Imagem: Museu do Seminário Maria Imaculada. Brodowski-SP.

Nessa perspectiva, visava atualizar o clero e o apostolado dos fiéis em consonância com os preceitos da unidade eclesial, conforme pode ser visto já em sua primeira carta pastoral, em que ele indicava quais seriam os rumos traçados em seu governo. Para ele, era preciso que se compreendessem as dimensões da Igreja: por um lado, é uma instituição divina e, por outro, uma comunidade social que necessita ser aperfeiçoada. No entanto, a atualização pretendida não é um mero reformismo, mas “uma prudente e moderada evolução […] nos métodos e iniciativas apostólicas, que devem ser ajustadas ou corresponder às atuais necessidades das almas e às contingências concretas de cada lugar”, nas palavras de Dom Luís.

Assíduo colaborador do Diário de Notícias, semanalmente escrevia ao povo ribeirão-pretano buscando lhes esclarecer acerca de variados temas caros ao período político e, também, informando sobre a Igreja particular, suas atividades e planos de trabalho. Incentivou os movimentos estudantil e operário que buscavam a espiritualidade católica e permaneceu impulsionando a Ação Católica, tal como seu antecessor.

Retiro do clero. Imagem: Museu do Seminário Maria Imaculada. Brodowski-SP.

Identificava que um dos problemas urgentes que incidiam na diocese era a falta de uma casa mais adequada que formasse os sacerdotes, visto que a cada ano as vocações aumentavam e mais jovens ingressavam no seminário. Por isso, a edificação do novo Seminário Diocesano Maria Imaculada foi o principal projeto entre seus planos. Em dezembro de 1955, em Brodowski/SP, reuniram-se, ao redor do bispo, clérigos e fiéis na cerimônia de lançamento da pedra fundamental, abençoada em Roma pelo Papa Pio XII. Começava a se concretizar, então, o projeto que levou o esforço e o ideal de Dom Luís, que viu em 1961 sua obra concluída.

Desse modo, era evidente como procurava atualizar a diocese, segundo explica José Pedro de Miranda:

“Outra não foi sua preocupação: Dar mais padres Conscientes e Leigos Adultos para a Igreja de Deus. Enquanto planejava com seus sacerdotes, instruía aos leigos, criando para isso conferências especiais para as várias classes de católicos leigos”

Em 19 de abril de 1958, pela bula “Sacrorum Antistium”, o Papa Pio XII elevou a Diocese de Ribeirão Preto à Arquidiocese, criando, assim, uma nova província eclesiástica a que Dom Luís seria arcebispo metropolitano. No mesmo ano, em novembro, o Núncio Apostólico Dom Armando Lombardi solenemente instalou a Arquidiocese e empossou o novo arcebispo. Nesse ofício que lhe foi confiado, a Dom Luís cabia supervisionar as dioceses sufragâneas – que à época eram de Jaboticabal e de São José do Rio Preto – e com estas manter uma relação de harmonia ante a hierarquia. Dedicou-se, em seu arcebispado, à criação de outras dioceses no interior paulista, desmembrando seu território de jurisdição.

Foi Dom Luís que, atento às orientações pontifícias, preparou a Arquidiocese para o Concílio Vaticano II. Após a convocação do Papa João XXIII, uma ampla pesquisa de cunho econômico, social e religioso passou a ser feita no território do arcebispado a fim de melhor compreender os anseios da evangelização dos povos buscada pela visão conciliar.

Semana da Presença, 1958. Imagem: Arquivo Metropolitano.

Por se encontrar enfermo, não pôde participar dos iniciais trabalhos que o episcopado brasileiro preparava para levar a Roma. Ainda preocupado em contribuir, escreveu a Dom Hélder Câmara apresentando suas sugestões para a atualização na formação dos presbíteros, para o diaconato permanente, para a melhor celebração litúrgica, dentre outros assuntos de importância que seriam tratados pelos bispos durante o Concílio.

Apesar do seu esforço, não conseguiu participar da grandiosa assembleia episcopal que marcaria a história da Igreja no século XX. Vitimado por um câncer, faleceu aos 49 anos, em 24 de abril de 1962, meses antes da realização da primeira sessão do Concílio Vaticano II. De fato, os dez anos de governo de Dom Luís do Amaral Mousinho trouxeram a atualização da Igreja de Ribeirão Preto à luz do cuidado pastoral atencioso e da defesa do catolicismo no seio da sociedade.

Bruno Paiva Meni
Arquivo Metropolitano “Dom Manuel da Silveira D’Elboux”

FONTES

BOLETIM DIOCESANO, nº 216 (maio, junho e julho), 1952.
CORREIA, Côn. Francisco de Assis. História da Arquidiocese de Ribeirão Preto (1908-2008). Editora Grafcolor, 2008.
CORREIA, Pe. Francisco de Assis. Artigos de D. Luís (1955-1957). Volume II. Arquivo Metropolitano “Dom Manuel da Silveira D’Elboux”, 2005.
LAURIANO, Monsenhor Dr. João. Bispos e Arcebispos de Ribeirão Preto. Cúria Metropolitana, 1975.
MIRANDA, José Pedro de. Ribeirão Preto: de Ontem e de Hoje. Editora El Dorado, 1971.
MOUSINHO, Dom Luís do Amaral. Primeira Carta Pastoral: Unidade e Atualização do Apostolado. Cúria Metropolitana, 1952.

Foto oficial, 1960. Imagem: Arquivo Metropolitano.

 

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