Batismo: encontro com Cristo

“Nascemos duas vezes: a primeira à vida natural; a segunda, graças ao encontro com Cristo, na fonte batismal. Ali morremos para a morte, para viver como filhos de Deus neste mundo. Ali nos tornamos humanos como jamais poderíamos imaginar. Em nós vive e age o Espírito de Jesus, primogênito de muitos irmãos, de todos aqueles que se opõem à inevitabilidade das trevas e da morte. Que graça quando um cristão se torna verdadeiramente ‘Cristóforo’, ou seja, ‘portador de Jesus’ no mundo!

No dia do nosso batismo, ressoou para nós a invocação dos santos. Muitos de nós, naquele momento, éramos crianças, portanto, estávamos nos braços dos pais. Pouco antes de fazer a unção com o óleo dos catecúmenos, símbolo da força de Deus na luta contra o mal, o sacerdote convidou toda a assembleia a rezar por aqueles que estavam para receber o Batismo, invocando a intercessão dos santos. Aquela era a primeira vez em que, no curso da nossa vida, nos era presenteada essa companhia dos irmãos e irmãs ‘maiores’ – os santos -, que passaram pela nossa mesma estrada, que conheceram nossos mesmos cansaços e vivem para sempre no abraço de Deus. A carta aos Hebreus define essa companhia que nos circunda com a expressão ‘multidão de testemunhas’ (12,1). Assim são os santos: uma multidão de testemunhas” (Lições do Papa Francisco – Inspirações para uma vida melhor, Fontanar, 2019, pp. 96-97).

Assim podemos afirmar que o batismo nos torna seres divinizados. Não divinos. Seres divinizados aqui compreendido como candidatos à santidade. Mas não basta ser batizado. É necessário o esforço em busca da santidade, começando pelas atitudes e escolhas, as mais simples, propostas pelo Evangelho de Jesus Cristo. Santo é todo aquele que, morrendo, vir Deus como Deus é, e que nossos olhos humanos não conseguem enxergar. É a visão beatífica guardada para aqueles que se abrem à graça de Deus, ao Evangelho de Jesus e aos dons do Espírito Santo, ao longo da vida terrena.

Poderíamos nos comparar a uma esponja, aquela de lavar a louça. Geralmente a esponja tem um lado macio e outro mais áspero, para limpar o que lava, de gorduras e resíduos que o lado macio não consegue limpar. A fim de que a esponja exerça seu serviço de limpar copos, louças, talheres entre outros objetos, ela precisa estar enxarcada de água. Seca, a esponja risca o que deveria limpar. Machuca ao invés de fazer brilhar. Aquela água na qual fomos mergulhados no dia de nosso batismo, é expressão da presença do Espírito de Jesus, do Espírito Santo, que não só lava as criaturas, como também as robustece na fé recebida como dom gratuito e precioso.

Nossa tarefa é, portanto, nunca deixar a esponja que somos, secar. Na oração diária, participação comprometida com a Comunidade de Fé, Oração e Amor, seja nas celebrações dominicais da Eucaristia, seja em outras tantas atividades pastorais, mas sobretudo na prática da caridade.

Depois de 32 anos de ministério sacerdotal, encontro não poucas vezes pessoas pelo caminho que me dizem: “O senhor me batizou, o senhor me deu a primeira comunhão, o senhor fez meu casamento”. Quando pergunto a qual comunidade pertencem e em qual comunidade participam, fico profundamente entristecido: a maioria emudece ou diz não participar. Então me examino e no meu exame de consciência faço aquela célebre pergunta que muitos pais se fazem, quando os filhos desandam: “Onde foi que errei? O que deixei de fazer melhor?” E me pergunto, outrossim, onde estão as famílias das crianças que batizei, pelo menos, nesses 14 anos em que caminho com a amada Comunidade da Igreja Santo Antoninho? Muitos anciãos faleceram ou estão impedidos de vir à Igreja. Para elas somos a “Igreja do Ir”. Mas e os demais que prometeram mundos e fundos para batizarem seus filhinhos, onde estão?

 

Pe. Gilberto Kasper
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Mestre em Teologia Moral, Licenciado em Filosofia e Pedagogia, Especialista em Bioética, Ética e Cidadania, Professor Universitário, Docente no CEARP – Centro de Estudos da Arquidiocese de Ribeirão Preto, Assistente Eclesiástico do Centro do Professorado Católico, Assessor da Pastoral da Comunicação, Pároco da Paróquia Santa Tereza de Ávila, Reitor da Igreja Santo Antônio, Pão dos Pobres da Arquidiocese de Ribeirão Preto e Jornalista.

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