Centenário de nascimento de Dom Bernardo José Bueno Miele (1923-2023)

Centenário de nascimento de Dom Bernardo José Bueno Miele (1923-2023)

“Os de ontem, todos se lembram de Dom Miele. Simples, sem protocolo, sem cerimônia, sem enfeites: límpido! Sua exposição era clara e convincente, sem alteração musical de voz. Nunca foi orador. Expunha como professor de matemática que demonstra um teorema. Metódico, sem rigorismo; convicto sem fanatismo; aberto e liberal; sempre pronto sem leseira e alegre sem extravasamentos emotivos. Dom Miele dava a impressão do equilíbrio”. (1)

† Benedito de Ulhôa Vieira
Arcebispo Metropolitano de Uberaba (MG)

Com mais essa pequena publicação, almejamos prestar uma última homenagem a Dom Miele, na comemoração do ano jubilar de seu nascimento. Vivendo o tempo do Advento, e para ser mais um sinal de fé, esperança e desejo de paz entre os homens, na expectativa e preparação para acolher o Senhor que vem ao nosso encontro na paisagem da candura e da pobreza do presépio, apresentamos uma de suas “Mensagens de Natal”, na certeza de que ela pode nos ajudar a pensar, discernir e rezar. Assim, contemplando o mundo hodierno com suas luzes e sombras, possamos agir buscando anunciar o Reino de Deus que se manifesta no Amor, instaurado por Nosso Senhor Jesus Cristo, que nos transmitiu seus ensinamentos por meio de obras e palavras, na concretude da vida humana, como lemos no Evangelho: o “Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 14).

No Mistério da Encarnação, lembra-nos Santo Agostinho, “o homem, que podia ser visto, não devia ser seguido; Deus, que não podia ser visto, devia ser seguido. Portanto, para que fosse mostrado ao homem, para que fosse visto pelo homem e por ele seguido, Deus se fez homem”. (2) Que a leitura da mensagem de Dom Miele nos ajude a ver com um pouco mais de clareza o mundo que nos circunda, como ele o fez em seu tempo, e a dar respostas concretas, reguladas pela virtude teologal da caridade, tendo em vista a edificação de uma sociedade mais justa, humana, fraterna e divina.

Brodowski, 05 de dezembro de 2023

Pe. Neuber Johnny Teixeira
Vice-Diretor do CEARP

Mensagem de Natal 1974

“Ressoa de novo, em nosso íntimo, o apelo de Deus para celebrar mais um Natal.
Por detrás das aparências exteriores que caracterizam esta data, na velocidade do mundo moderno, o Espírito de Deus nos convida a encontrar na meditação o sentido interior da festa do nascimento de Jesus.
A humanidade, sem esquecer as suas profundas feridas, se esforça nestes dias por revestir-se de alegria, querendo exprimir com música, com símbolos e cartazes, com luzes e cartões, com telefonemas e telegramas, com imagens de televisão e transmissões de rádio, com abraços e apertos de mãos, que alguma profunda mensagem interna comove as pessoas e se difunde na convivência humana.
Se soubermos penetrar além do barulho e da agitação da sociedade de consumo, além dos interesses e lucros do mundo de compra e venda, com um pouco de humanidade e de fé, perceberemos que a fala de Deus se torna mais forte, neste tempo, apontando de novo o caminho da solidariedade humana e reapresentando o nascimento de Jesus em Belém, como um fato que nos interessa hoje e que atinge a nossa vida de agora, pedindo nossa conversão.
Vivemos imersos num mundo que ao lado de tantos impulsos positivos para o bem, para a compreensão, para a justiça, para o amor, para a paz e a fraternidade, cria bloqueios e abalos bem fortes com as guerras, com as afirmações egoístas, com o desprezo da pessoa humana e de seus direitos fundamentais, com as manifestações de ódio, com os obstáculos sérios à paz e a vida fraterna que se manifestam pela miséria, pela fome, pela marginalização de tantos irmãos nossos.
O Natal vem tirar-nos da inércia, do comodismo, do desânimo, para lutar pacientemente por dias melhores para todos. Somos novamente conscientizados sobre a íntima aliança entre Deus e o homem, revivendo o dia em que Deus entrou na história humana para se tornar homem e viver uma vida humana, em tudo semelhante à nossa, menos no pecado.
O Filho de Deus Altíssimo assumiu a natureza humana nascendo de Maria como nosso irmão. O Messias prometido, o Cristo longamente esperado, torna-se presente, como centro de toda a história da humanidade, como força animadora e causadora do reencontro dos homens com Deus.
Veio viver entre nós, como expressão humana do Eterno amor divino, em busca da humanidade, que por causa do pecado sob todas as suas formas, insiste em orbitar longe de Deus, que é a sua única verdadeira felicidade. Veio renovar em nós a ‘imagem e semelhança de Deus’ criando novas e imensas possibilidades para cada ser humano participar da vida de Deus que é Amor
O nascimento de Jesus é já, em síntese, o mistério total de Cristo que tendo adquirido uma natureza humana, quer que todos os homens participem da vida divina. A vida que começou a se manifestar na manjedoura de Belém, vai desdobrar-se depois na pregação do Reino de Deus, na Paixão e Morte Redentoras, na Ressurreição e na Ascensão, na fundação e estabelecimento da Igreja – Corpo de Cristo; e continua no desenvolvimento irreversível desta Igreja, que, pela animação do Espírito Santo, deve continuar, em todos os tempos e em todos os lugares, a missão salvadora de Jesus.
É por isto que todas as comunidades católicas paroquiais e ambientais celebram o Natal, buscando no mistério de Cristo que nasceu como nosso Salvador, a força de continuar a ser no mundo o sinal da salvação. Queremos desejar um Natal bem vivido e feliz a todos os nossos caríssimos presbíteros e às suas comunidades.
O Natal é, por excelência, festa da família que vive a fé em Cristo. Gostaríamos de visitar cada família com o mesmo respeito e admiração com que visitaríamos a família que foi posta por Deus no ponto de partida do cristianismo: Jesus, Maria e José. Para dizer a cada família que vale a pena ser uma escola de sinceridade, de serviço fraterno, de amor e de paz, um testemunho da benignidade e da bondade de Deus. Desejamos que todas as famílias possam encontrar no Natal uma oportunidade para maior comunicação e valorização entre as pessoas; que todas tenham um Natal feliz e santificado por mais amor e esperança”. (3)

Ribeirão Preto, 24 de dezembro de 1974.

† Bernardo José Bueno Miele
Arcebispo Metropolitano

Fonte: Jornal Diário de Notícias

Referência bibliográfica

CORREIA, Francisco de Assis. História da Arquidiocese de Ribeirão Preto (1908-2008). Brodowski: Ed. Grafcolor, 2008.
TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica: o Mistério da Encarnação. vol. VIII. São Paulo: Ed. Loyola, 2002.

Notas

(1) Trecho do Sermão Gratulatório, proferido em 04 de dezembro de
1983, por ocasião dos 75 anos da criação da Diocese de Ribeirão
Preto e 25 anos de Arquidiocese. CORREIA, Francisco de Assis.
A história da Arquidiocese de Ribeirão Preto (1908-2008), p. 320.

(2) Cf. TOMÁS DE AQUINO, S. Th., VIII, q. 1, art. 2.

(3) Jornal Diário de Notícias – 25 de dezembro de 1974 – nº 15.947, p. 01.

Veja também: