Dom Agnelo entre Ribeirão Preto e Roma (1962-1964)

“Enquanto para a humanidade surge uma era nova, obrigações de uma gravidade e amplitude imensas pesam sobre a Igreja, como nas épocas mais trágicas da sua história. Trata-se, na verdade, de pôr em contato com as energias vivificadoras e perenes do evangelho o mundo moderno […]”

Assim proclamou o Papa João XXIII ao convocar o episcopado para o Concílio Vaticano II. Da Sé de Ribeirão Preto estava presente em Roma Dom Agnelo Rossi, segundo arcebispo metropolitano, que havia tomado posse em seu ofício poucos dias antes.

Bula de nomeação de D. Agnelo. Imagem: Museu do Seminário Maria Imaculada – Brodowski.

Filho de imigrantes italianos, nasceu no distrito de Joaquim Egídio, no município de Campinas/SP em 1913. Ainda adolescente, ingressou no Seminário Diocesano, onde cursou o ginásio e principiou os estudos doutrinários. Partiu para Roma em 1932 a fim de continuar o curso de teologia e lá recebeu as ordens menores. Pela imposição das mãos de Dom Luigi Traglia, na Basílica de São João de Latrão, recebeu a ordenação presbiteral no dia 27 de março de 1937.

D. Agnelo, 2º arcebispo metropolitano. Imagem: Diário de Notícias.

De volta ao Brasil, dedicou-se à docência nos institutos campineiros que emergiam, assim como foi líder de formação dos militantes da Ação Católica. Pela sua atuação eclesial, passou a integrar o cabido diocesano como cônego honorário e, um tempo depois, recebeu o título de monsenhor.

A Diocese de Barra do Piraí, no Rio de Janeiro, recebeu a notícia em princípios de março de 1956 que teria um novo bispo: o Mons. Agnelo, que seria sagrado para o ofício. Seu ministério episcopal começava na Catedral de Nossa Senhora da Conceição, em sua cidade natal. Já atuando em sua diocese, trabalhou a fim de construir um seminário que atendesse o sul fluminense, do mesmo modo que visitava as paróquias, acompanhando de perto as necessidades do clero e incentivando a formação dos leigos.

Seu trabalho, em consonância com os novos caminhos que a Igreja traçava, levou-o à nomeação de segundo arcebispo metropolitano de Ribeirão Preto. Com a morte de Dom Luís do Amaral Mousinho, Dom Agnelo assumiu o governo da Arquidiocese em 30 de setembro de 1962 e continuou as obras que se desenvolviam, marcando-as com a impressão conciliar. Ele participou ativamente das três primeiras sessões do Concílio Vaticano II, presidindo a Comissão Central da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Chegada de D. Agnelo à Arquidiocese. Imagem: Diário de Notícias.

No entanto, tal participação lhe tolheu parte de seu tempo de governo na Igreja de Ribeirão Preto. Ainda assim, Dom Agnelo visitou todas as paróquias e em quinze realizou visita pastoral. Pôs em prática as diretrizes pastorais adotadas pela CNBB no denominado Plano de Emergência. Nessa perspectiva, surgia outro instrumento de formação arquidiocesano que deu suporte para o laicato e para o clero: a Casa Dom Luís. Ele aprovou o projeto e abençoou a pedra fundamental, dando as bases para a construção do local cujo nome foi dado pelo próprio Dom Agnelo em homenagem ao seu antecessor.

Foto oficial. Imagem: Pontifício Colégio Pio Brasileiro.

O jornal Diário de Notícias, que havia passado por um momento de dificuldade por conta da falta de colaboração de clérigos e leigos, foi por ele reorganizado a fim de melhor atender às necessidades arquidiocesanas, além de estruturar a Federação Mariana, que se tornou um só organismo. À frente do arcebispado, criou quatro paróquias, além de fomentar a adequação das matrizes de algumas cidades.

O golpe civil-militar de 1964 e o início do regime de exceção que se instalava no Brasil influíram também na ação eclesiástica. Dom Agnelo adotou a inicial postura de aprovação, na tentativa de exercer seu governo “sem partidarismos, mas com amor à Pátria e à Igreja” conforme disse décadas depois. Entretanto, o Diário de Notícias foi censurado, assim como padres foram conduzidos a prestar depoimentos sob violência policial durante a década de 60.

Cardeal Rossi. Imagem: Arquidiocese de São Paulo.

Durante a terceira sessão do Concílio Vaticano II, Dom Agnelo foi duplamente eleito: pelo escrutínio dos bispos brasileiros, tornou-se presidente da CNBB, e por ordem do Papa Paulo VI, foi nomeado arcebispo de São Paulo. Por isso, Dom Agnelo deixou o ofício de arcebispo de Ribeirão Preto com pouco mais de dois anos de governo. Na capital paulista, tomou posse em 20 de dezembro de 1964.

Foi criado cardeal em um consistório no ano seguinte e permaneceu à frente da Arquidiocese de São Paulo até 1970 quando se mudou para Roma para exercer a função de prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos. Dom Agnelo Rossi, o segundo arcebispo de Ribeirão Preto, é relembrado como o brasileiro mais expoente na hierarquia eclesiástica por ter sido decano – o mais antigo cardeal – do Colégio Cardinalício.

Já aposentado de suas funções, voltou a residir em Campinas. Faleceu aos 82 anos, em 1995, sendo sepultado em uma igreja por ele mesmo construída, dedicada à Virgem de Guadalupe.

Bruno Paiva Meni
Arquivo Metropolitano “Dom Manuel da Silveira D’Elboux”

Fontes

CORREIA, Côn. Francisco de Assis. História da Arquidiocese de Ribeirão Preto (1908-2008). Editora Grafcolor, 2008.

HUMANAE SALUTIS. João XXIII, Roma, 1961.

Disponível em: https://www.vatican.va/content/john-xxiii/pt/apost_constitutions/1961/documents/hf_j-xxiii_apc_19611225_humanae-salutis.html

IGREJA HOJE. Cúria Metropolitana, nº 184, 1981.

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