Ligações inconvenientes

Como reagimos diante de ligações inconvenientes? Refiro-me às ligações de telemarketings, que se tornaram uma espécie de “cultura de sobrevivência” para milhares de brasileiros, em tempo de pandemia, mas que há muitos anos vem ocorrendo, especialmente remetidas às pessoas aposentadas. Eu me irrito profundamente com tais ligações, que insistentemente oferecem produtos, os mais diversos. Trata-se de uma avalanche de ofertas supérfluas, incitando ao consumismo exacerbado.

Fui orientado a bloquear os números dos telefones que insistentemente ligam, geralmente nas horas mais impróprias. Já bloqueei uma centena de números, mesmo assim novos números ligam com as mesmas ofertas. São operadoras de telemarketing, de telefonia, de financeiras oferecendo empréstimos consignados, entre outros.

Conhecemos, também, ligações provenientes de Casas de Detenção. O Sistema Judiciário e Penitenciário de nosso País continua vulnerável, não conseguindo conter a entrada de celulares nas Penitenciárias, de onde vêm incontáveis ligações, algumas delas ameaçadoras, outras tentando clonar os celulares das pessoas de boa índole.

Outros tipos de ligações inconvenientes são as que simulam sequestros de filhos, de pais, avós ou amigos. Conheço inúmeras pessoas que já receberam ligações afirmando que em seu poder se encontrariam pessoas que sequer existem. Mães de filhos apenas do sexo masculino recebendo ligações mentirosas, de que uma de suas filhas fora sequestrada, com o intuito de bandidos querendo o pagamento de resgates. Tentativas de outros golpes similares são tão frequentes, a ponto de não atendermos mais ligações não identificadas, e por isso, deixarmos não poucas vezes, de atender pessoas que buscam auxílio espiritual, que desejam agendar um atendimento ou outro compromisso de real importância para ambos, de acordo com nosso ministério sacerdotal.

Algumas das medidas preventivas à COVID-19, como o isolamento social, também proporcionaram algumas ligações inconvenientes. Embora tão necessário para evitar maior contágio do vírus, o isolamento social descortinou uma carência afetiva na sociedade, ainda mais aguda, ou antes, velada, de pessoas especialmente muito ativas, então condicionadas a “ficar em casa”, bem como de pessoas já antes isoladas por pura exclusão tanto familiar como social. Aumentaram notoriamente os casos de depressão, fruto da mesma exclusão. Passamos a utilizar em demasia as novas tecnologias: Celulares, Notebooks, Internet, Whatsapp e Links para nos comunicarmos o quanto possível, sem o calor humano do abraço, do aperto de mão, da presença física, porém, para afirmar e reafirmar a todo o momento, de que estamos juntos, unidos, respirando a esperança de tempos melhores e valores redescobertos num mais breve possível pós-pandemia.

Não obstante as ligações inconvenientes, concluímos de que precisamos bem menos do que pensávamos para não simplesmente sobreviver, mas viver uma vida saudável, feliz, onde não se esgota a esperança de que sendo Anjos uns dos outros, seremos também verdadeiros protagonistas da paz entre as pessoas, onde ainda cheiramos o odor horroroso da mentira, da disputa, da busca desenfreada de poder e prestígio. Exalemos o perfume da paz, só então seremos felizes de verdade!

Pe. Gilberto Kasper
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Mestre em Teologia Moral, Licenciado em Filosofia e Pedagogia, Especialista em Bioética, Ética e Cidadania, Professor Universitário, Docente no CEARP – Centro de Estudos da Arquidiocese de Ribeirão Preto, Assistente Eclesiástico do Centro do Professorado Católico, Assessor da Pastoral da Comunicação, Pároco da Paróquia Santa Teresa D’ Ávila e Reitor da Igreja Santo Antônio, Pão dos Pobres da Arquidiocese de Ribeirão Preto e Jornalista.

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