Malandragem brasileira

Na noite do último dia 9 de agosto, na Rodovia Anhanguera em Orlândia, conforme amplamente divulgado pela Imprensa, aconteceu um acidente entre três caminhões, vitimando fatalmente dois dos três motoristas. Houve incêndio depois de um dos caminhões explodirem. No canteiro central mercadorias ficaram espalhadas. A Rodovia ficou interditada por mais de oito horas. Já no dia seguinte várias pessoas, arriscando a própria vida, atravessavam de um lado a outro da Rodovia para buscar aquela mercadoria espalhada no canteiro central. Corriam para buscar pacotes de amaciante. Certamente pensaram que uma vez extraviado o amaciante, já não mais pertencia ao dono originário e se sentiram no direito de encher carrocerias de caminhonetas e porta-malas de carros do produto espalhado após o sinistro.

A Polícia Rodoviária afirmou em entrevista, que multaria somente os motoristas que estacionaram irregularmente às margens da Rodovia e do canteiro central, sem aquela necessária emergência. Afirmou ainda, que não lhe competia punir os transeuntes que levaram os amaciantes lá espalhados. Eu, tampouco, pretendo emitir juízo de valores. Penso que as pessoas que se beneficiam com acidentes alheios não tiveram educação de berço, se encontram em situações desafiadoras de sobrevivência ou continuam nossa já conhecida malandragem brasileira.

Ao assistir esse cenário, lembrei-me de uma viagem que fiz de carona com uma Madre Religiosa na Alemanha, em 1986. Durante a viagem por uma larga rodovia, ela me ofereceu um lanche, que saboreei enquanto ela dirigia o automóvel. Depois de ter comido o lanche, abri o vidro do carro e joguei a embalagem pela janela. A Freira nada me disse, apenas olhou pelo retrovisor. Na primeira saída da rodovia ela retornou, sem nada dizer. Voltou ao local onde eu jogara a embalagem do lanche; encostou o veículo e descendo a recolheu numa sacolinha. Voltou ao volante e na primeira lixeira à beira da rodovia, tornou a parar, desceu do carro e jogou a embalagem na lixeira. Tudo isso, sem nada dizer. Só me olhava com um leve sorriso nos lábios. Já eu fiquei vermelho de tanta vergonha. Ao pedir desculpas, ela me respondeu que a natureza me agradeceria se eu tivesse aprendido a lição. Ao tentar me explicar, ela mudou de assunto, concluindo que sou fruto de uma cultura bem conhecida por ela, e que com o tempo eu poderia me libertar da malandragem brasileira sem deixar de ser brasileiro. Concluímos a viagem com um novo aprendizado.

Em outra ocasião, a propósito de multar ou não as pessoas, lembrei-me que certo dia, também na década de 1985, atravessei uma faixa de pedestre em sinal vermelho. Imediatamente o Guarda Municipal de Nuremberg, também na Alemanha, apitou e me pediu documentos. Perguntei o que fizera de errado e ele me disse que atravessei a Faixa de Pedestre, enquanto o sinal para mim estava vermelho. Retruquei de que não vinha carro de nenhum lado e que a rua estava livre. Ele me disse que precisaria me multar porque, mesmo a rua estando livre, a Faixa de Pedestre me impedia de atravessar, por estar com sinal vermelho. Fui multado na época em 40 Marcos Alemães.

Como seria bom se renovássemos nossa civilidade, deixando de lado a malandragem brasileira e nos tornássemos mais humanos e Anjos uns para com os outros!

Pe. Gilberto Kasper
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Mestre em Teologia Moral, Licenciado em Filosofia e Pedagogia, Especialista em Bioética, Ética e Cidadania, Professor Universitário, Docente no CEARP – Centro de Estudos da Arquidiocese de Ribeirão Preto, Assistente Eclesiástico do Centro do Professorado Católico, Assessor da Pastoral da Comunicação, Pároco da Paróquia Santa Tereza de Ávila, Reitor da Igreja Santo Antônio, Pão dos Pobres da Arquidiocese de Ribeirão Preto e Jornalista.

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