O centro da fé e da esperança está na ressurreição de Cristo
A tradução brasileira da terceira edição típica do Missal Romano, aprovada em 2023, dispõe na Instrução Geral do Missa Romano, das Normas Universais do Ano Litúrgico e o Novo Calendário Romano Geral (NUALC). Ao tratar do Tríduo Pascal o documento afirma no número 18: “Como Cristo realizou a obra da redenção humana e da perfeita glorificação de Deus principalmente pelo seu mistério pascal, quando morrendo, destruiu a nossa morte e, ressuscitando, renovou a vida, o sagrado Tríduo pascal da Paixão e Ressurreição do Senhor resplandece como o ápice de todo o ano litúrgico”. No número 19, podemos compreender melhor o Tríduo Pascal da Paixão e Ressurreição: “começa com a Missa vespertina na Ceia do Senhor, possui o seu centro na Vigília Pascal e encerra-se com as Vésperas do domingo da Ressurreição”. O NUALC no número 22 também afirma: “Os cinquenta dias entre o domingo da Ressurreição e o domingo de Pentecostes sejam celebrados com alegria e exultação, como se fossem um só dia de festa, ou melhor, como um grande domingo”.
Com o tema central: “Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus”, o Papa Leão XIV iniciou em agosto de 2025, um ciclo de Catequese dedicado ao mistério pascal, nas Audiências Gerais às quartas-feiras. Leão XIV ao refletir sobre a Páscoa nos leva a tê-la como a direção para um encontro pessoal com Jesus Cristo. “A Páscoa de Jesus é um acontecimento que não pertence a um passado distante, agora sedimentado na tradição como tantos outros episódios da história humana. A Igreja ensina-nos a fazer memória atualizante da Ressurreição todos os anos no Domingo de Páscoa e todos os dias na celebração eucarística, durante a qual se realiza de forma mais plena a promessa do Senhor ressuscitado: ‘E eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo’ (Mt 28, 20). Por isso, o mistério pascal constitui o eixo da vida do cristão, em torno do qual giram todos os outros acontecimentos. Podemos dizer, então, sem qualquer irenismo ou sentimentalismo, que todos os dias são Páscoa” (Audiência Geral, 05 de novembro de 2025)
O Papa também nos recorda da beleza do anúncio pascal e da boa notícia a nos contagiar e dar sentido à vida. “O anúncio pascal é a notícia mais bela, alegre e comovedora que ressoou ao longo da história. É o ‘Evangelho’ por excelência, que atesta a vitória do amor sobre o pecado e da vida sobre a morte, e por isso é o único capaz de saciar a demanda de sentido que inquieta a nossa mente e o nosso coração. O ser humano é animado por um movimento interior, voltado para um além que o atrai constantemente. Nenhuma realidade contingente o satisfaz. Tendemos para o infinito e para o eterno. Isso contrasta com a experiência da morte, antecipada pelos sofrimentos, pelas perdas, pelos fracassos. Da morte ‘nullu homo vivente po skampare’, canta São Francisco (cf. Cântico do irmão sol)” (Audiência Geral, 05 de novembro de 2025).
A esperança pascal nos impulsiona a viver diariamente o testemunho de Jesus Cristo: “A Páscoa não elimina a cruz, mas vence-a no duelo prodigioso que mudou a história humana. Também o nosso tempo, marcado por tantas cruzes, invoca o amanhecer da esperança pascal. A Ressurreição de Cristo não é uma ideia, uma teoria, mas o Acontecimento que está na base da fé. Ele, o Ressuscitado, através do Espírito Santo, continua a recordá-lo a nós para que possamos ser suas testemunhas também onde a história humana não vê luz no horizonte. A esperança pascal não decepciona. Acreditar verdadeiramente na Páscoa através do caminho diário significa revolucionar a nossa vida, ser transformados para transformar o mundo com a força suave e corajosa da esperança cristã” (Audiência Geral, 05 de novembro de 2025).
O mistério pascal tem o seu ápice na ressurreição, centro da vida e da espiritualidade cristã, revela Leão XIV: “O centro da nossa fé e o coração da nossa esperança estão bem enraizados na ressurreição de Cristo. Lendo atentamente os Evangelhos, compreendemos que este mistério é surpreendente, não só porque um homem – o Filho de Deus – ressuscitou dos mortos, mas também pela maneira como escolheu fazê-lo. Com efeito, a ressurreição de Jesus não é um triunfo retumbante, não é uma vingança nem uma desforra contra os seus inimigos. É o testemunho maravilhoso do modo como o amor é capaz de se levantar após uma grande derrota, para continuar o seu caminho irrefreável” (Audiência Geral, 1º de outubro de 2025).
O Papa Leão XIV nos motiva a enfrentar a aridez do cotidiano, a não desanimar diante dos desafios, das tensões, das crises, das limitações, das provações, mas encontrar na fonte de água gratuita a plenitude da vida. E esta nascente é o Cristo Ressuscitado. “A nossa vida é cadenciada por inúmeros acontecimentos, cheios de diferenciadas nuances e experiências. Às vezes sentimo-nos alegres, outras tristes, realizados, tensos, gratificados ou desmotivados. Vivemos atarefados, concentramo-nos para obter resultados, até chegamos a atingir metas elevadas, prestigiadas. Vice-versa, sentimo-nos suspensos, precários, à espera de sucessos e reconhecimentos que demoram a chegar, ou que nunca chegam. Em síntese, experimentamos uma situação paradoxal: gostaríamos de ser felizes, no entanto é muito difícil sê-lo de modo contínuo e sem sombras. Fazemos as contas com o nosso limite e, ao mesmo tempo, com o ímpeto irreprimível de o procurar ultrapassar. No íntimo, sentimos que nos falta sempre algo. Pensemos numa fonte de água. Quais são as suas caraterísticas? Sacia e refresca as criaturas, irriga a terra, as plantas, torna fértil e vivo o que, de outra forma, permaneceria árido. Refresca o viandante cansado, oferecendo-lhe a alegria de um oásis de vigor. Uma nascente aparece como uma dádiva gratuita para a natureza, para as criaturas, para os seres humanos. Sem água não se pode viver! O Ressuscitado é a fonte viva que não torna árido nem sofre alterações. Permanece sempre pura e pronta para quem quer que tenha sede. E quanto mais saboreamos o mistério de Deus, tanto mais nos sentimos atraídos por Ele, sem nunca nos saciarmos completamente” (Audiência Geral, 1º de outubro de 2025).
E o Papa Leão XIV acrescenta que a ressurreição de Jesus é o caminho para encontrarmos o sentido da vida. “Com a sua Ressurreição, Jesus garantiu-nos uma fonte permanente de vida: Ele é o Vivente (cf. Ap 1, 18), o amante da vida, o vitorioso sobre toda a morte. Por isso, é capaz de nos oferecer descanso ao longo do caminho terreno e de nos assegurar a perfeita quietude na eternidade. Só Jesus morto e ressuscitado responde às perguntas mais profundas do nosso coração: existe realmente um ponto de chegada para nós? A nossa existência tem sentido? E como pode ser resgatado o sofrimento de tantos inocentes? Jesus ressuscitado não faz descer uma resposta “do alto”, mas torna-se nosso companheiro nesta viagem muitas vezes cansativa, dolorosa, misteriosa. Só Ele pode encher o nosso cantil vazio, quando a sede se torna insuportável” (Audiência Geral, 15 de outubro de 2025).
Desejo a todos uma feliz e santa Páscoa, e uma profunda vivência da espiritualidade pascal, que se caracteriza pela participação na vida do Ressuscitado.
Dom Moacir Silva
Arcebispo Metropolitano
Boletim Igreja-Hoje
Março/2026



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