Relacionamento Humano

O Relacionamento Humano, sem dúvida, passa por uma profunda crise. Animalizou-se o “Humano”, remetendo a pessoa a um egoísmo ímpar. Além das inúmeras desculpas e a transferência de responsabilidades, penso que deveríamos fazer algumas releituras: precisamos reler o Estatuto da Criança e do Adolescente, que na minha modesta opinião é aplicado erroneamente. Precisamos reler a educação precária oferecida às crianças, aos adolescentes e jovens de nosso País, parando de culpar a pandemia. Somos tão criativos para tantas situações. Não podemos deixar-nos engolir pelo desencanto da visita de um vírus revestido de diversas variantes, atraído por nosso próprio descuido para com a natureza e o planeta. Basta olharmos ao nosso redor, e constatar o quanto o meio ambiente anda desequilibrado, gritando por socorro e maior respeito. Precisamos reler a possibilidade de pré-adolescentes poderem exercer algum trabalho antes dos 16 anos de idade, ao invés de tentar reduzir a “Maioridade Penal”, engaiolando adolescentes em penitenciárias indecentes e desumanas, que jamais re-socializam pessoas, antes alvoroçam ainda mais o instinto animal dos amontoados de detentos, ociosos, sem nada para fazer e sem as mínimas condições de repensarem suas vidas. Fala-se tanto que nossas penitenciárias são escolas e faculdades do crime (organizado) sofisticado. E não por último, é urgente que o Estado assuma sua fragilidade, sua incapacidade, seu descaso e seu covarde modo de tratar os cidadãos, sem o mínimo de dignidade.

Por que não utilizar os bilhões de reais desviados, e que ainda não foram devolvidos, para repensar o Sistema Penitenciário de nosso rico Brasil? Se nas Penitenciárias houvesse Fábricas, Oficinas e Escolas eficientes, os detentos trabalhariam e aprenderiam algum ofício, durante o cumprimento de suas penas. Ao invés de obrigar os brasileiros a contribuírem com o “Auxílio Penitenciário”, cada detento honradamente sustentaria sua família, pagaria suas despesas, enquanto presos, que não são pequenas, e ainda teriam uma poupança, quando de volta à sociedade, certamente melhores do que entraram. Isso é possível, porque conheço penitenciárias europeias que o fazem. Em Novo Hamburgo (RS) onde cresci havia uma Fábrica de Calçados na Penitenciária e todos aprendiam a fazer sapatos e saiam com emprego garantido. Hoje há tantas maneiras de profissionalizar ao invés de animalizar as pessoas. Saem discriminados e a única alternativa é voltar ao crime!

Comecei a trabalhar muito cedo, antes de completar 13 anos de idade. Trabalhava durante o dia e estudava à noite. Ao contrário do que afirmam alguns demagogos idealistas, não fiquei traumatizado por isso. Foi uma honra para mim, poder contribuir com a manutenção da sobrevivência de minha família, sempre muito pobre, mas feliz e agradecida a Deus pela saúde e pelas oportunidades que nos eram proporcionadas. Aliás, meus irmãos e eu tivemos o privilégio de estudar os primeiros cinco anos do Ensino Fundamental, na época chamado de Primário, numa Escola particular de Religiosas. As Irmãs da Congregação de Santa Catarina de Alexandria não nos cobravam as mensalidades. Em troca da gratuidade, nós três irmãos limpávamos as salas de aula todos os dias e aos sábados fazíamos uma limpeza geral. Eu só tinha seis anos de idade. Enquanto nossos colegas pagantes iam almoçar, nós ficávamos para a limpeza da Escola. Depois as Irmãs nos ofereciam um saboroso almoço. Tal “permuta” seria hoje um escândalo. Mas preciso admitir, que para mim e meus irmãos, a medida foi construtiva e nos ajuda até os dias de hoje a sermos agradecidos por tudo que de graça recebemos, até mesmo os desafios e as dificuldades econômicas pelas quais sempre passamos. Fomos educados a um exemplar Relacionamento Humano com quem quer que convivamos!

 

Pe. Gilberto Kasper
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Mestre em Teologia Moral, Licenciado em Filosofia e Pedagogia, Especialista em Bioética, Ética e Cidadania, Professor Universitário, Docente no CEARP – Centro de Estudos da Arquidiocese de Ribeirão Preto, Assistente Eclesiástico do Centro do Professorado Católico, Assessor da Pastoral da Comunicação, Pároco da Paróquia Santa Tereza de Ávila e Reitor da Igreja Santo Antônio, Pão dos Pobres da Arquidiocese de Ribeirão Preto e Jornalista.

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