Sinodalidade em pauta: o exercício da escuta

A Comissão Especial para o Sínodo da Arquidiocese de Ribeirão Preto com o objetivo de avançar na caminhada sinodal promoveu na noite de 10 de março, no Salão Dom Alberto, em Ribeirão Preto, a live: “Sinodalidade em pauta: o exercício da escuta”. O evento organizado no formato híbrido com a transmissão feita pela Rede de Transmissão Arquidiocesana no canal do Youtube da Arquidiocese, e a participação presencial dos membros do Conselho Arquidiocesano de Pastoral.

A proposta da live consistiu em aprofundar ainda mais o processo sinodal na arquidiocese e abriu a possibilidade para o esclarecimento das dúvidas, dos desafios, das dificuldades, a partir da abordagem dos aspectos psicológicos, emocionais e espirituais do escutar.

Abertura

Na abertura da transmissão, o padre Luís Gustavo Tenan Benzi, coordenador arquidiocesano de pastoral, saudou os presentes e os espectadores da live, e destacou a importância do exercício da escuta, e sobretudo a necessidade de aprofundarmos a espiritualidade da escuta. Na sequência, o arcebispo dom Moacir Silva, acolheu a todos e reforçou o compromisso de uma Igreja sinodal e fez referência a Constituição Apostólica do Papa Francisco Episcopalis Communio, no número 6: “Também o Sínodo dos Bispos deve tornar-se cada vez mais um instrumento privilegiado de escuta do Povo de Deus: «Para os Padres sinodais, pedimos, do Espírito Santo, antes de mais nada o dom da escuta: escuta de Deus, até ouvir com Ele o grito do povo; escuta do povo, até respirar nele a vontade de Deus que nos chama»”, recordou o arcebispo.

Oração

A oração inicial conduzida pelo membro da comissão, Luis Roberto Bimbatti, levou os participantes a rezarem pelo processo sinodal e a invocarem as luzes do Espírito Santo como inspiração para o discernimento sinodal. “O caminho sinodal tem na escuta comunitária da Palavra o seu ponto de partida. Somente assim teremos a possibilidade de uma escuta dos outros e todos à escuta do Espírito Santo. A escuta do outro está implicada na escuta do Espírito. Não poderá haver diálogo sem antes haver um tempo de escuta do outro e do Espírito. Isso eleva a convivência e a comunhão, para o discernimento de qualquer decisão eclesial, que sempre precisa acontecer no ‘caminhar juntos’”.

A Rede vai as ruas

Antes do início das reflexões dos assessores convidados houve a exibição do vídeo produzido pela Rede de Transmissão Arquidiocesana que foi às ruas para escutar o povo e saber o que pensam sobre a Igreja. Com o microfone aberto as pessoas abriram os seus corações para expressar seus pensamentos, dúvidas, inquietações, reclamações e colaborar com o processo de escuta sinodal. Os depoimentos foram gravados em um balcão (stand display) montado defronte o Theatro Pedro II na região central de Ribeirão Preto, e pode escutar as pessoas que passaram por aquele local.

O exercício da escuta segundo a psicologia e a espiritualidade

O padre Gabriel Balan Leme, membro da comissão, fez a apresentação da mesa de assessores que contou com os seguintes participantes: o padre Marcus Vinícius Miranda, os terapeutas familiares: Maria Estela Carlos, Marly Aparecida Silva de Rezende e Joaquim Alves de Rezende; a religiosa Ir. Tânia Renata Santana, SJS; e o arcebispo dom Moacir Silva. A temática central das reflexões, isto é, o exercício da escuta, recebeu a abordagem em duas instâncias: a primeira do ponto de vista psicológico, e a segunda, na concepção da espiritualidade.

A primeira parte das reflexões abordou a escuta a partir da perspectiva da psicologia. A introdução ao tema contou com a colaboração do padre Marcus Vinícius que enalteceu o desafio de superar a mentalidade que estimula o poder da fala em detrimento da escuta. “Queremos ouvir todo o povo de Deus e diante desta realidade queremos refletir sobre a nossa caminhada, o quanto nos implicamos no escutar, o quanto somos escutados. Vamos olhar a nossa realidade, a nossa base cultural. Na nossa base cultural vemos que ela se sustenta em uma racionalidade que estimula a falar, e muito pouco escutar. Se observarmos a quantidade de cursos e formações, até mesmo olhando para as ciências, quantas formam as pessoas para falar e poucas para ouvir, para escutar. Se colocando diante do outro sem julgamento para acolher, para compreender e intervir. Nesta noite queremos lançar mão de uma ciência que tem como instrumento de trabalho a escuta, uma escuta ativa, que acolhe e que a partir do escutar, do conhecer, do acolher, realiza a sua intervenção”, sinalizou padre Marcus.

A terapeuta familiar Marly Aparecida Silva de Rezende ao falar da importância do escutar citou o contexto da família como referência e usou a imagem da mãe no cuidado do bebê, que mesmo o bebê ainda não sabendo falar, a mãe sente as necessidades e os sentimentos vindos desta relação marcada pelo amor. Na relação mãe e bebê a escuta nasce do sentir e do amor, e quando falta a escuta o amor morre. “Nas nossas relações cristãs se não tiver a escuta não tem vida e o amor morre. Por que esta escuta, esse amor do coração que está por trás de uma escuta que cura e tem o poder de gerar e manter a vida (…) Esse processo de escuta trazido pelo papa revela o sentimento de existir, de pertença a esta Igreja, a família divina, e nós vamos ter que escutar uns aos outros. Então uma das coisas que ajuda é quando eu me coloco do ponto de vista do outro, quando eu procuro sentir o outro” frisou Marly.

Outro ponto importante lembrado pela terapeuta Marly como facilitador no processo de escuta encontra-se na primeira bem-aventurança: ‘Bem-aventurados os pobres no espírito, pois deles é o reino dos céus’ (Mt 5, 3). O desapego é uma característica do coração de pobre, que tem suas convicções, mas é um coração aberto, por isso, tem condições para se despir das certezas e escutar a certeza do outro, e depois fazer uma síntese e ampliar o aprendizado. “Quando somos ouvidos por alguém que leva a gente a sério, a gente realmente cresce, e nós povo de Deus precisamos crescer, e todos nós podemos ajudar a curar quando escutamos”, revelou Marly.

Marly ainda citou outra bem-aventurança: “Bem-aventurados os mansos, pois eles herdarão a terra” (Mt 5, 5) como indispensável para o escutar. A mansidão na proximidade ao outro como ponto de acolhida e serenidade na disposição de estar em situação de escuta. Tudo isso é evangelização. “A escuta passa pelo amor do coração, sem o amor do coração, o amor do espírito, não tem escuta”, disse a terapeuta.

Na continuidade das reflexões, a próxima a falar foi a terapeuta Maria Estela Carlos, e seguiu a linha de reflexão no campo da família, ao destacar a inclinação a repetirmos os padrões aprendidos na família e tomá-los como certos, e isso pode interferir na forma de escutarmos as pessoas. Por isso precisamos pensar como esses padrões de conduta afetam as nossas vidas, e principalmente, como afeta o nosso jeito de escutar.

A reflexão continuou com o testemunho do terapeuta Joaquim Alves de Rezende, que relembrou com emoção o retorno após muitos anos ao atual Salão Dom Alberto, espaço de reuniões quando na época de sua juventude participava da Juventude Universitária Católica (JUC). Uma das inquietações trazidas por Joaquim é se nós estamos escutando o papa Francisco, pois o papa está convidando o povo de Deus a ser concretamente a parte do corpo místico de Cristo. O assessor também avaliou o cenário atual caracterizado pela pós-modernidade que entre suas diversas características é marcado pelo descompromisso e o provisório. “Eu quero aqui dizer que apesar da minha idade, eu estou pronto para ouvir e falar. A Igreja está me ensinando que nós atingimos este momento de escutar e de falar. Que possamos transmitir isso para muitas outras pessoas, mobilizar muitas outras pessoas para também escutar e falar para podermos criar o consenso de paz”, testemunhou Joaquim.

Espiritualidade e escuta

A religiosa Ir. Tânia Renata Santana, SJS, do Instituto Missionário Servas de Jesus Salvador, partilhou alguns pontos referentes aos aspectos espirituais da escuta. De acordo com a religiosa o exercício de escuta é um processo de colocar-se no lugar do outro. “Escutar com o coração. Escutar é envolver-se com o outro, e por isso é diferente de ouvir. Ouvimos muitas coisas e não nos envolvemos. Mas, escutar e sentir junto com a pessoa o que ela está me dizendo, me colocar no lugar dela. Talvez aquela regra de ouro: ‘não faça para os outros o que você não quer para você’. Então escute e se coloque no lugar daquilo que está sendo dito”, explicou Ir. Tânia.

Segundo Ir. Tânia a espiritualidade da escuta em seu aspecto espiritual tem início a partir do nosso relacionamento com Deus que se manifesta na vivência com o outro. A espiritualidade da escuta necessita da oração, do silêncio e da presença. “É na oração que nós escutamos o Senhor e Ele nos escuta. É na oração que nós somos acolhidos por Ele, compreendidos, escutados com paciência, e para nós isso deveria ser um exemplo a ser seguido na relação com os nossos irmãos. Compreender, escutar com paciência, buscar entender o porquê desta necessidade. E nesse exercício da verdadeira escuta vamos nos aperfeiçoando conforme vamos escutando o Senhor e compreendendo o que Ele tem a me dizer”, realçou a religiosa.

Encerramento

Ao encerrar a live dom Moacir reforçou a importância do exercício da escuta como caminho para a vivência da sinodalidade. “Escuta implica uma decisão: eu quero escutar. Escuta é mais que ouvir. Escuta significa eu deixar me envolver por aquilo que entra nos meus ouvidos, e isso que entra em meus ouvidos pode até modificar, me questionar, me levar a modificar este ou aquele posicionamento. Essa é a questão fundamental desse momento da escuta que o Sínodo nos propõe. E digo de experiência própria, quando a gente se dispõe a escutar a gente consegue perceber com clareza aquilo que Deus de fato está falando para nós e para sua Igreja”, finalizou o arcebispo.

Assista a live:

 

 

Veja também: